Do futebol à praia: é doce morrer no mar

01/05/2011

Área da piscina, hoje aterrada, do antigo Clube Português na Pituba.

Por Márcio Correia Campos, do Observatório da Copa Salvador 2014

Em meio aos preparativos para a Copa do Mundo de 2014, aquilo que parece ser incapacidade de planejamento ou simplesmente má vontade age para a perpetuação do status quo, tornando recorrente certa noção de uma pobreza básica e necessária como mote social: por ela, capacidade no esporte, como na música, continua sendo tratado em geral no Brasil como algo de origem natural. Na Bahia esta atitude é essencial: outra razão não pode haver para a recente e ostensiva falta de importância dada à infra-estrutura para a natação.

O grande sucesso do Brasil no futebol durante o século XX pode de alguma maneira ser creditado a uma combinação entre um esporte que necessita de um mínimo em infra-estrutura (a bola) e de um número explosivo de crianças e adolescentes fora das escolas sem ter o que fazer. Entretanto, houve um momento em que, acreditando-se que isso era muito pouco, estabeleceu-se um horizonte que viria a permitir a crescente riqueza de experiências que marca a vida na modernidade.

Na Bahia, a criação do Estádio da Fonte Nova, uma consistente infra-estrutura para o exercício do futebol, foi aproveitada para esta diversificação e dinamização do esporte e da vida social da população, com a inclusão do ginásio poliesportivo e da piscina olímpica no seu programa. Naquele período de otimismo, a garantia de infra-estrutura em geral era entendida como melhoria de vida para o conjunto da população.

A Universidade, o Teatro Castro Alves, o Museu de Arte Moderna, o Estádio da Fonte Nova, a Escola Parque são os ícones de uma modernização perdida, de um movimento cujas dinâmica e conseqüência previstas não aconteceram. O fim do Estado como provedor da formação do cidadão após esta época não deu lugar a nenhum outro (trans)formador.

Hoje, a demolição e a nova construção do Estádio da Fonte Nova não têm nenhum foco esportivo: o evento de mídia e turismo denominado Copa do Mundo é o seu único motor, algo que os responsáveis deixam mais que evidente. Inclusive o uso alternativo pensado para o equipamento a ser construído – o de abrigar grandes shows – nada tem de esportivo.

Sem maior destaque em esportes que têm como requisito uma infra-estrutura robusta que requer uma manutenção constante, o Estado da Bahia demoliu em junho de 2010 a única piscina olímpica da sua capital sem que antes outra fosse construída para ocupar o seu lugar. Pior que isso: às vésperas de completar um ano nesta situação, não há qualquer certeza de que uma nova piscina venha efetivamente a ser construída.

Para quem acompanhou nos últimos 18 meses as notícias desencontradas emitidas pelo Estado sobre a demolição da piscina olímpica em Salvador, o projeto e construção de uma substituta, é fácil perceber que a natação não tem nenhum prestígio frente aos governantes. O que é muito estranho para quem aposta tanto em eventos midiáticos e na capitalização da imagem nacional através deles: quando da escolha de Sidney para sediar a olimpíada no ano 2000, a Austrália investiu fortemente em natação pelo simples fato de o esporte propiciar grande quantidade de medalhas e, com isso, uma posição de destaque no quadro geral.

É como se a Bahia não soubesse que, além da Copa do Mundo em 2014, o país abrigará as Olimpíadas em 2016. Ou talvez pensem que, em sendo o Rio de Janeiro a sede dos jogos, o evento pode vir a ser pouco interessante para a economia local. De qualquer maneira, é pouco provável, depois do intervalo que agora já há na cidade de Salvador sem a infra-estrutura necessária, que algum jovem que aqui resida tenha alguma chance de participar desta competição. E não adianta sugerir que os esportistas treinem em piscinas semi-olímpicas “nos bairros próximos onde moram”, porque o treino para o esporte necessita o equipamento em suas dimensões oficiais.

Se sequer tal chance de atender a propósitos tão caros a governantes e publicitários parece considerada, o que dizer da importância que a natação tem enquanto esporte como questão de saúde, segurança e bem-estar, ainda mais em um país com um imenso litoral povoado por gente que sequer sabe nadar? Na pequenez da conta imediata, na falta de planejamento, no descaso com a infra-estrutura esportiva não reside apenas incompetência ou miopia política, existe uma visão de sociedade capaz de ser bem delineada e, infelizmente, já tradicional. Morremos na praia, natureza que não escapa, deseducados para nadar.

Márcio Correia Campos
Arquiteto formado pela UFBA, Mestre em Arquitetura pela Universidade Técnica de Viena, Áustria, e doutorando pela Universidade Técnica de Munique, Alemanha. É atualmente Professor Assistente do Departamento de Projeto de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo da Faculdade de Arquitetura da UFBA.

http://www.observatoriosalvador2014.com.br/post/do-futebol-praia-e-doce-morrer-no-mar

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Uma resposta to “Do futebol à praia: é doce morrer no mar”

  1. MÁRCIO R CAMPOS Says:

    PREZADO MÁRCIO, PARBÉNS PELO ARTIGO, SEPOSSIVEL ENTRE EM CONTATO COMIGO OK


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