Salvador e a Copa 2014: 3 pontos para o debate

04/05/2011

Implosão da Fonte Nova, Salvador

Por Antônio Heliodório Lima Sampaio, do Observatório da Copa Salvador 2014

A Copa será vista em 03 vertentes: 1. Copa como mito (dimensão lúdica); 2. Copa como negócio (dimensão comercial) e 3. Copa como legado (dimensão política). Claro, os cinco títulos conquistados alimentam a dimensão simbólica que o futebol tem para o brasileiro, encobrindo podres da economia e da política que movem o negócio-futebol.

1.  A Copa como mito (dimensão lúdica)

a)  O futebol no imaginário da população (paixão e devoção). A perda da Copa em 1950 (Brasil 1×2 Uruguai) criou um trauma nacional. O Uruguai virou um “inimigo imortal”, e alguns jogadores os “eternos culpados” (maioria negra). A era romântica do futebol antecede os anos 50, e os anos de 1958/62, quando o Brasil será bi-campeão. Jogadores e técnicos viraram “eternos-heróis”. Na esteira das Copas a auto-estima nacional/regional se eleva, termos míticos são criados, numa identidade forjada nas lides esportivas, com refrões: “templo do futebol”, “manto sagrado”, “gol de placa”, “os reis de Roma, do Rio e do futebol”, “o imperador”,  “o anjo das pernas tortas”, “o divino” etc. No viés da política rala, cartolas e governantes vicejam, sendo usual político-dirigente ser “pé-quente” ou “pé-frio”, conforme resultados.

b) “Gênios da bola”, e a malandragem aceita (ética & status). A cultura da bola tem uma ética distorcida, um vale-tudo, que se mistura no cotidiano. Acriticamente, vemos frases recorrentes: “gol de mão, aos 45” do 2º tempo é mais gostoso”, “drible que desmoraliza o adversário”, “juiz ou jogador dengado” (corrompido), “mala preta” e “mala branca” (compra resultado), “placar moral” versus “resultado armado” (vide Copa da Argentina, 1988), “garanhões, rufiões”, conquistando ou conquistados(?) por “Maria(s)-chuteira” etc. A imagem típica é a do bandido-herói: “ele não serve para casar com minha filha, mas joga no meu time, pois é craque de bola”, ou,  “futebol é jogo de macho” (virilidade e homofobia), ou pior, “goleiro preto não presta” (racismo explícito).

c) Do “complexo de vira-latas” à “pátria de chuteiras”. Nelson Rodrigues encarnava a nação mobilizada, e do marketing restam marcas (frases) recorrentes. Na Copa de 1970 o refrão da música mais tocada: “60 milhões em ação, prá frente Brasil, salve a seleção…” demarcou o fim da era romântica, ponto de inflexão para o “futebol-científico” (planejado: nutrição, psicologia, preparação física, técnica e tática etc.), envolvendo outra dimensão. Reforçava-se a idéia (militar) de um “Brasil Grande”, potência, com o mundo aos seus pés (metáfora futebolística), numa clara exploração política do mega evento televisivo, do marketing das multinacionais no “negócio-futebol”. No rádio, na TV, se forjam as bases ideológicas que legitimam os negócios: na formação do “atleta de base” e do “clube-empresa”, verdadeiras “caixas-pretas”. O lúdico vira um negócio, como tantas outras coisas da cultura popular (da fé à música, à dança).

2.  A copa como negócio (dimensão comercial).

a)  Lavagem de dinheiro – enriquecimento ilícito (fluxos do capital). O negócio-futebol e as atividades ilícitas existem: jogo do bicho, drogas e prostituição, máfias da arbitragem, financiamento de eleições e corrupção nos times de futebol. Tudo decorre do “controle social zero” e de parte da “imprensa cooptada”, versus a crítica responsável, de pouca influência. Pergunta-se: qual o papel da universidade? por quê não vingam as CPI’s  da bola? Outra questão, na era televisiva predomina o torcedor de poltrona e um novo tipo de torcedor nos estádios (maior renda). A “organização” do mega evento resulta num faturamento privado financiado por investimento público. Os custos e benefícios expõem o mundo real de investidores & aproveitadores nas Copas do futebol profissional: “todos ganham”, dizem.

b) Corporações envolvidas (interesses: privado x público). A Copa realimenta o mito do clube-empresa, o sonho do sócio torcedor, de melhores arrecadações, diante de estádios deficitários e de manutenção precária (a maioria, públicos). A realidade urbana em construção no Brasil pós-Copa apontam limites às oportunidades. O Clube (com poucas exceções) é instituição falida, já as organizadoras dos mega-eventos são instituições poderosas econômica e politicamente (CBF e FIFA). O papel do estado e o interesse público nem é visto: futebol-profissional versus esporte-amador, idem.

c) O “fim do esporte” e o mercado da bola (torcedor x telespectador). O negócio-futebol versus os “esportes olímpicos” mostra: esporte-amador na lógica da Copa não tem espaço; o desenvolvimento pleno  nas universidades, escolas de 1º e 2º grau, inexiste. Em Salvador acabaram com Olimpíadas da Primavera, Jogos Universitários, campeonatos entre as Escolas Públicas, que existiram na Fonte Nova, já demolida. Qual o horizonte no pós-Copa? a resposta não virá das “torcidas organizadas” cuja marca é a inserção da violência nos Estádios (Hollingans, Imbatíveis, Bamor, Mancha Verde, Independentes, Gaviões da Fiel etc.); nem do torcedor “avulso”, distante das “organizadas”. Pouco se fala do comércio informal nas “Arenas de Luxo”. O torcedor-futuro, da nova arena, será apenas um consumidor(?).

3.  A copa como legado (a dimensão política).

a)  Arrecadação privada e investimento público (PPP’s e prioridades). PPP’s, o que é mesmo isto? Olhando estimativas da KPMG frente ao estudo inédito “Gestão do Ativo Estádio”, elaborado pela consultoria especializada em negócios esportivos Crowe Horwath RCS (cf. revista Valor), vemos: …para a Copa da Alemanha, em 2006, 62% do € 1,5 bilhão destinado aos projetos das novas arenas veio de empresas de vários setores; … no Brasil, dos R$ 5,3 bilhões previstos oficialmente, 93,5% serão desembolsados pelos governos estaduais, com… financiamento federal de até R$ 400 milhões por unidade (do.BNDES). Mais, dos 12 estádios alemães …palco da Copa, 9 eram privados; 9 dos 12 campos de futebol brasileiros são estatais. …os governos do Ceará e da Bahia solicitaram crédito para financiar projetos no modelo parceria público-privada (PPP).  

b) Cidades e infra-estrutura urbana (mobilidade, turismo e serviços). A polêmica, BRT ou VLT? Esconde os reais “custos e benefícios” das alternativas postas. Ao sub-sistema para alimentar o mini-metrô, pergunta-se: solução ou enclave, após 2014? Se não chegam ao Centro Histórico, a acessibilidade & preservação do sítio ficam de fora (?). As áreas de risco, a drenagem e segurança, até agora não estão no pacote da Copa. No aeroporto e na rede hoteleira, o que será feito? Daí as perguntas: se nada for feito, ou, se for tudo mal feito, às pressas? serão refeitos, depois?

c) Estádios ou “arenas de luxo”? (“elefantes brancos” ou “coloridos”). A opção de demolir o Complexo Olímpico, não explica o destino dos demais esportes (as Olimpíadas de 2016?). Na Arena de futebol e shows, ainda se terá de resolver os conflitos de usos: no espaço e no entorno (pasmem!!!). O que a Copa trás? De fato investimentos indutores de especulação imobiliária no entorno do Dique (tombado?); sem resolver a micro-acessibilidade à pé, por automóvel e coletivos. A Arena (à Hannover) privatiza 12,5ha de espaço público; compromete R$1,6 bi em 15 anos; e o BRT custa menos de 300 milhões (anunciam). Em nome da Copa, prioridades urbanas são invertidas (sem transporte, saneamento, habitação, educação, saúde etc.). Até agora, a Arena é um luxo, sorvedouro dos parcos recursos públicos.

Antonio Heliodório é Arquiteto e urbanista e Professor Titular da Faculdade de Arquitetura da UFBA, de cujo Programa de Pós-Graduação é professor permanente. Foi assistente do Prof. Arq. Diógenes Rebouças na FAUFBA, e colaborador no projeto de ampliação da Fonte Nova, entre 1969/70.

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Uma resposta to “Salvador e a Copa 2014: 3 pontos para o debate”

  1. bahiaflaneur Says:

    Perspectivas terríveis. Muito bom artigo.
    Me lembra a cidade de Manaus, atualmente, onde vão construir um estádio também: lá, não tem 5% da cidade que tem esgotos, lá o football não faça parte da cultura… Etc. E aqueles carteis vão construir e o governo de lá autorizou…


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