Por Marcos Pierry
No interessante conjunto de obras da 29a. Bienal de São Paulo, que aportou no Museu de Arte Moderna da Bahia, sobressai aos olhos de quem é soteropolitano, de certidão ou de coração, um curta-metragem de 20 minutos que o fotógrafo espanhol-novaiorquino-carioca Miguel Rio Branco rodou no Pelourinho no final da década de 70. O filme se chama “Nada Levarei Qundo Morrer Aqueles Que Mim Devem Cobrarei no Inferno” (sic). O curta apresenta, na verdade, uma combinação de um registro fotográfico (inferninhos, fachadas e ruas da região) que o artista fez e em seguida filmou e de imagens em movimento, muitas vezes dos mesmos lugares e pessoas, produzidas por dois colaboradores. Tudo em 16mm.
Somente aí, o jogo de suportes, a sobreposição de registros e a interação de olhares do Miguel com seus parceiros já nos rendem uma bela composição do ponto de vista da (meta)linguagem. O clique da fotografia estática, que congela o instante da imagem, a dialogar com o gatilho da câmera 16 e a respectiva captação contínua de rostos e gestos que naturalmente se alteram – e que no embate com o dispositivo alteram-se, uma vez mais, também em um patamar de auto-representação.
O plano fixo da 16 e os personagens a seduzirem suas lentes com caras, bocas e requebros – um resultado cênico não estranho aos screen tests de Warhol (aliás em cartaz no Rio de Janeiro no momento). A câmera-caneta percorrendo e reescrevendo as fotografias ao reagrupar os elementos antes nelas apreendidos e, no aqui-e-agora da projeção, disponíveis aos nossos olhos já em outro arranjo – propondo outras lâminas e explorando texturas na imagem que estava peremptoriamente eternizada.
Final cut naquele tempo? Nem o Pink Floyd tinha lançado o seu. Era a moviola, e sua fisicalidade inerente, a dosar e embaralhar todas essas variantes de captação e abrir caminhos para a reflex-fruição. E finalmente a banda sonora, véu magnético a emoldurar a experiência de modo a garantir, de uma vez por todas, que ali se contam histórias, contos, um novo capítulo do livro onde estariam as também pulsantes cine-crônicas de Vito (Diniz) e do Tuna (Espinheira). Não há depoimentos ou qualquer tipo de off; cobrem as imagens apenas música popular e pop de várias épocas.
Que recompensa encarar tudo isso no subsolo do MAM e recobrar, na nossa própria subconsciência, uma cidadania bastarda, que acorda feridas carlistas e treme ante o jogo de empurra que município, estado e união teimam em perpetrar para que o Pelô mantenha sua prosperidade gauche – barroca e terceiro-mundista, très chic e tratada a balas, na 28 e no ensaio do Olodum. As cicatrizes e descuidados dos corpos se mostram em simbiose com a precariedade do casario de porte porém anêmico e das vias agônicas. Há várias gotas de sangue em cada palmo de umidade na parede descascada.
Torna-se extremamente necessário descer ao inferno do Pelô que o Miguel Rio Branco pinta. E, descendo, torna-se quase bom. Temos durante os 20 minutos de filme uma promessa arriscada mas fogosa, o aceno do sexo fácil, a preço de custo, o tabuleiro de drogas que embala a classe média e pode até matar deputados importantes. Fica mesmo difícil sacar: indignar-se na denúncia ou se alienar na aquarela da miséria? Rowney Scott, soprano-hamelin, convida pro jazz lá em cima emulando a assobiante “Trilhos Urbanos”.
E propõe, sem saber, o cinema transcendental: Miguel fez um discreto afresco de exaltação à humanidade. Feios, pobres, pretos, sujos, promíscuos, barraqueiros, baixos, desdentados, vagabos, errantes, sem arrimo, menores de idade até, esses humanos do Pelô. Mas como, muito mais do que dignos de misericórdia e de uma moeda, merecem, isso sim, respeito? Talvez o essencial esteja, na tela, visível aos olhos. Valeu, mesmo, Miguel. Desse jeito, Pixinguinha, Bob Marley e Fernando Mendes acabam com qualquer um.
Marcos Pierry é jornalista, professor e crítico de Cinema
