Valeu, Miguel

04/06/2011

Foto de Miguel Rio Branco

Por Marcos Pierry

No interessante conjunto de obras da 29a. Bienal de São Paulo, que aportou no Museu de Arte Moderna da Bahia, sobressai aos olhos de quem é soteropolitano, de certidão ou de coração, um curta-metragem de 20 minutos que o fotógrafo espanhol-novaiorquino-carioca Miguel Rio Branco rodou no Pelourinho no final da década de 70. O filme se chama “Nada Levarei Qundo Morrer Aqueles Que Mim Devem Cobrarei no Inferno” (sic). O curta apresenta, na verdade, uma combinação de um registro fotográfico (inferninhos, fachadas e ruas da região) que o artista fez e em seguida filmou e de imagens em movimento, muitas vezes dos mesmos lugares e pessoas, produzidas por dois colaboradores. Tudo em 16mm.

Somente aí, o jogo de suportes, a sobreposição de registros e a interação de olhares do Miguel com seus parceiros já nos rendem uma bela composição do ponto de vista da (meta)linguagem. O clique da fotografia estática, que congela o instante da imagem, a dialogar com o gatilho da câmera 16 e a respectiva captação contínua de rostos e gestos que naturalmente se alteram – e que no embate com o dispositivo alteram-se, uma vez mais, também em um patamar de auto-representação.

O plano fixo da 16 e os personagens a seduzirem suas lentes com caras, bocas e requebros – um resultado cênico não estranho aos screen tests de Warhol (aliás em cartaz no Rio de Janeiro no momento). A câmera-caneta percorrendo e reescrevendo as fotografias ao reagrupar os elementos antes nelas apreendidos e, no aqui-e-agora da projeção, disponíveis aos nossos olhos já em outro arranjo – propondo outras lâminas e explorando texturas na imagem que estava peremptoriamente eternizada.

Final cut naquele tempo? Nem o Pink Floyd tinha lançado o seu. Era a moviola, e sua fisicalidade inerente, a dosar e embaralhar todas essas variantes de captação e abrir caminhos para a reflex-fruição. E finalmente a banda sonora, véu magnético a emoldurar a experiência de modo a garantir, de uma vez por todas, que ali se contam histórias, contos, um novo capítulo do livro onde estariam as também pulsantes cine-crônicas de Vito (Diniz) e do Tuna (Espinheira). Não há depoimentos ou qualquer tipo de off; cobrem as imagens apenas música popular e pop de várias épocas.

Que recompensa encarar tudo isso no subsolo do MAM e recobrar, na nossa própria subconsciência, uma cidadania bastarda, que acorda feridas carlistas e treme ante o jogo de empurra que município, estado e união teimam em perpetrar para que o Pelô mantenha sua prosperidade gauche – barroca e terceiro-mundista, très chic e tratada a balas, na 28 e no ensaio do Olodum. As cicatrizes e descuidados dos corpos se mostram em simbiose com a precariedade do casario de porte porém anêmico e das vias agônicas. Há várias gotas de sangue em cada palmo de umidade na parede descascada.

Torna-se extremamente necessário descer ao inferno do Pelô que o Miguel Rio Branco pinta. E, descendo, torna-se quase bom. Temos durante os 20 minutos de filme uma promessa arriscada mas fogosa, o aceno do sexo fácil, a preço de custo, o tabuleiro de drogas que embala a classe média e pode até matar deputados importantes. Fica mesmo difícil sacar: indignar-se na denúncia ou se alienar na aquarela da miséria? Rowney Scott, soprano-hamelin, convida pro jazz lá em cima emulando a assobiante “Trilhos Urbanos”.

E propõe, sem saber, o cinema transcendental: Miguel fez um discreto afresco de exaltação à humanidade. Feios, pobres, pretos, sujos, promíscuos, barraqueiros, baixos, desdentados, vagabos, errantes, sem arrimo, menores de idade até, esses humanos do Pelô. Mas como, muito mais do que dignos de misericórdia e de uma moeda, merecem, isso sim, respeito? Talvez o essencial esteja, na tela, visível aos olhos. Valeu, mesmo, Miguel. Desse jeito, Pixinguinha, Bob Marley e Fernando Mendes acabam com qualquer um.

Marcos Pierry é jornalista, professor e crítico de Cinema

marcospierry@yahoo.com.br

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