Histórias da Bahia no festival de documentários É Tudo Verdade

15/03/2012

De Eron Rezende, jornal A Tarde

Fotos: Davi Caires

Cinegrafista e diretores Josias Pires e Joel de Almeida

Cinegrafista e diretores Josias Pires e Joel de Almeida

Equipe de "Cuica de Santo Amaro - Ele, o Tal" grava no Centro Histórico de Salvador

Equipe de “Cuica de Santo Amaro” grava no Centro Histórico de Salvador

De fraque surrado e chapéu-coco, o homem caminha repleto de cartazes pendurados nas costas. Em um deles, o aviso: “Nunca disse que eu era getulista. Nem também que eu era queremista. Todos sabem muito bem que eu sou é propagandista”.

Personagem da velha Salvador e comerciante de si mesmo, José Gomes assim viveu, entre feiras e ladeiras, vendendo cordéis intumescidos de humor e crítica. Demonizou Hitler, Mussolini e Plínio Salgado, alfinetou Getúlio Vargas. Maridos traídos e patrões mesquinhos nunca escaparam. Após 48 anos de sua morte, o autointitulado “trovador da Bahia” tem a sua história recuperada no documentário Cuíca de Santo Amaro – Ele, o Tal.

Dirigido por Josias Pires e Joel Almeida, o trabalho é um dos sete concorrentes na categoria de longa-metragem do festival É Tudo Verdade, o maior dedicado à cultura do gênero na América Latina. O evento, que acontece entre 22 de março e 1° de abril, em São Paulo e Rio de Janeiro, contará, ainda, com outra produção baiana. Ser Tão Cinzento, de Henrique Dantas, participa da mostra competitiva de curtas e resgata a história dos bastidores de Manhã Cinzenta (1969), filme dirigido pelo também baiano Olney São Paulo.

“Recuperar a história desses personagens é uma forma de ampliar nossas identidades”, diz Josias Pires, entre folhetos, já frágeis pelo tempo, com as poesias de José Gomes. Para realizar Cuíca, foram reunidos 300 livrinhos e folhetos, obtidos por meio de colecionadores e pesquisadores. “Foi o nosso principal material de pesquisa. Através do trabalho vendido pelo próprio José, encontramos a poética dele e do filme”.

Em Cuíca, a câmera desloca-se em busca da memória do trovador. Passa pelos mesmos lugares por onde ele costumava circular – Praça Municipal, Elevador Lacerda, Rampa do Mercado Modelo, Praça Cairu, Baixa dos Sapateiros, Ladeira do Taboão – e conversa com quem o conheceu.

É seu filho, Jorge Sampaio Gomes, que fala das origens, diz que José nasceu em Salvador, na Mouraria, e que foi a mãe, Maria do Carmo, quem nasceu em Santo Amaro da Purificação, local no qual Cuíca farreava com o violão e de onde veio a alcunha que batiza o filme.

Pela voz do ator Gil Vicente, o espectador escuta a literatura. “A discussão do feijão com a carne verde”, “O fechamento do jogo do bicho”, “A viúva marreteira” e “Quem tem inimigo não dorme” são alguns dos poemas recuperados.

“Foi um trabalho de descoberta”, diz Gil, que para encontrar a voz ideal foi buscar a entonação da literatura: não há registros em áudio do trabalho do poeta, apenas imagens dubladas por Agildo Ribeiro para o filme A Grande Feira (1961) e a interpretação de Zé Coió, que encarnou Cuíca em O Pagador de Promessas (1962).

“Nunca havia atuado utilizando apenas a minha voz. Foi algo novo do ponto de vista técnico. Mas o que estava escrito indicava o caminho. Cuíca deixou um documento picante e irônico da vida baiana. Tratava de temas complicados de forma livre e popular. É como um jornal do povo, com o melhor da tradição jornalística do cordel”.

Sertão - Idealizado em 2005, Cuíca de Santo Amaro – Ele, o Tal foi finalizado somente em 2011. Tempo de realização em fogo brando semelhante a Ser tão Cinzento, que, embora já tenha passado pelo Festival de Brasília, em setembro do ano passado, demorou cinco anos.

“A ideia veio quando li A Peleja do Cinema Sertanejo, em 2007”, conta Henrique Dantas, referindo-se à biografia de Olney São Paulo escrita pela jornalista Ângela José. “Me senti um completo ignorante por desconhecer o nome de Olney e decidido a fazer um documentário sobre ele”.

Ser Tão Cinzento exuma Manhã Cinzenta, filme que narra a história de um golpe de estado em um país imaginário da América Latina e pelo qual Olney São Paulo foi preso e torturado – na época de seu lançamento, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) organizou o primeiro sequestro de um avião brasileiro e exibiu o filme a bordo, o que levou o nome de Olney a ser envolvido no caso.

Com o episódio escolhido, Henrique livra-se do formato tradicional da biografia e utiliza imagens de Manhã Cinzenta projetadas em diversos suportes, como os muros do bairro do Barbalho, centro de tortura durante a ditadura militar. Em todo o documentário o espectador apenas escuta os entrevistados. O discurso sobre a construção de Manhã Cinzenta, os percalços e a repercussão, vem entre sons e imagens do próprio filme realizado por Olney.

“Fiquei com medo que as pessoas não seguissem a história, mas acho que elas têm recebido bem. É um filme sobre a ditadura e o quanto esse período foi cruel. Mas é também sobre o cinema persistente, decidido a iluminar o que é ignorado”.

Na iminência de uma premiação no É Tudo é Verdade, Henrique emenda, recorrendo à raiz do cinema documental. “Para quem escolheu fazer o que fazemos, prêmio é poder descobrir e revelar histórias”.

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