Pierre Perrault: primeiras impressões e alguns palpites

13/07/2012
Em cartaz na Sala Walter da Silveira, a partir desta sexta-feira (13), mostra imperdível do documentarista canadense Pierre Perrault.
Por Marcos Pierry
Conhecer Pierre Perrault (1927-1999) é transpor certo lugar-comum da cinematografia canadense, há muito refém do brilho isolado de nomes como Denys Arcand e David Cronenberg. Fora das quatro paredes, e da segurança, de um estúdio, o documentarista pratica sua não-ficção contemporâneo e favorável ao cinema direto, passando longe de qualquer artifício do filme clássico, conduzindo seus temas por personagens e cenários reais para produzir, com poucos equipamentos e pessoal reduzido, “uma verdade” desse encontro.
Seus filmes, em retrospectiva completa, depois do Rio de Janeiro, Belo Horizonte, João Pessoa, São Paulo e Porto Alegre, ganham exibição em Salvador, reparando uma lacuna extensa na agenda dos brasileiros, remediada apenas com esparsas projeções e uma pontual presença do realizador no Rio de Janeiro, em 1996, ao lado de Jean Rouch.
Perrault, desde a virada para os anos 60, desenvolve um trabalho documental sobre os vínculos do Canadá francês com uma série de aspectos da França mãe. Menos as tradições da alta cultura oficialesca, e mais o modo de vida, os jeitos de ser, trabalhar e resistir. Em Toutes Isles (1960), as memórias do navegador Jacques Cartier ressurgem na paisagem quebequense. O mar, a vegetação, o rio São Lourenço, os pássaros. Tudo é mostrado sob uma narração off, com texto de Perrault, ocupada em descrever e não raro exaltar os júbilos naturais da província. O que somado às belas tomadas confere um caráter virginal à região.
Embora notadamente solar, o lirismo do texto de Perrault, também um poeta, não impede o avanço de uma criteriosa investigação sobre criador e criatura, as motivações do projeto expansionista, como se deu a travessia e o primeiro contato do navegador com a terra explorada. Já neste curta-metragem, e mais ainda no longa As Velas Baixas e de Través (Les Voiles bas et en Travers, 1983), assume-se tal relação problematizando-a como um confronto histórico.
A condução de Perrault inverte o jogo e gera um efeito paulatino, sutil, que se revela de romper grilhões. A cena final de Velas Baixas é emblemática dessa catarse. Dois homens fazem cooper no início do filme: um francês a ciceronear um quebequense em Saint-Malo, cidade de onde partiu Cartier. Visitam o quebra-mar formado por grandes troncos fincados na praia e, ante a estátua do navegador, dão partida a uma contenda verbal em que a todo momento são questionados os traços de heroísmo de Cartier – um romântico a adivinhar territórios e reescrever a história da França ou apenas um pau mandado do rei Francisco I?
A discussão é calorosa e as faíscas chegam a atingir o poeta Rimbaud. Até um corte seco, mais que apropriado, liquidar a glosa e o doc. O mais interessante, porém, é a virada de mesa pela palavra. De algum modo se explicita uma nova, e incômoda, condição para o colonizador, finalmente chamado a dar explicações ao selvagem, antes dominado.
A rota marítima de Cartier, tal e qual o navegador deixou registrado em seu breve relato, é refeita por Perrault e uma equipe trans-disciplinar em A Grande Mareação (La Grande Allure, 1985), partes 1 e 2. No veleiro Blanchon, pesquisadores, poetas, jovens e velhos marinheiros, além da própria equipe de filmagens, recobram técnicas antigas, como o astrolábio, e especulam sobre os caminhos trilhados por Cartier.
Em vários momentos, o domínio do oceano aparece como um objetivo em si, e, uma vez mais, um poeta a bordo, assim auto-denominado, confere certo enlevo frugal com que se pode apreciar o filme. A nau, o vate, os causos com cheiro de sal e ali e acolá, mesmo por entre as metáforas da prosa ondulante, umas estocadas na coroa francesa. Como na parábola de dois animais, o coelho e o urso, cara a cara na floresta, fazendo as necessidades. O urso pergunta: “com tantos pelos, o cocô não te incomoda?”. O coelho: “não”. O urso então pega o coelho e limpa-se com ele.
Mar transposto, os dramas da colonização em terra firme encarnam em figuras como Hauris Lalancette, agricultor de Abitibi, uma região do Quebec tematizada em mais de um filme do diretor, compondo o seu chamado ciclo abitibiano. Em O Retorno à Terra (La Retour à La Terre, 1976), ao intercalar o desolado diagnóstico agrário de Lalancette com trechos de filmes produzidos por um missionário (o abade Maurice Proulx) 30, 40 antes anos na região, o questionamento se volta para os embaixadores da fé católica, não deixando de expor o quanto a mesma veneração que salva pode ser útil para dopar novos rebanhos com o ferrão de deus.
Em O Gosto da Farinha (Le Goût de la Farine, 1977), o conclave religião-colonização ganha corpo e tom ainda mais polêmico, com intelectuais desafiando as boas intenções e a razão do arautos da força religiosa, a quem só resta a berlinda. Mas um cara pálida que se opõe à igreja, e anima os índios do povoado à embriaguez como expressão do livre arbítrio, tem seu argumento igualmente questionado. Ainda que este personagem rebelde seja o único a de fato quebrar hierarquias, arriscando-se em hábitos indígenas como a casa de suar – o que rende ao filme uma sequência antológica.
Eis um painel documental que não fornece respostas prontas e, a propósito de sua adesão às ferramentas do cinema direto, privilegia as contradições como o real as costuma legar, in natura, dado seu permanente estado de mutação. Ao contrário, o cinema portátil e inquieto de Perrault lança dúvidas com potência de um terrível diagnóstico, não superado, em grande parte, ainda hoje pelos agentes de transformação da realidade. O ciclo das indagações que o documentarista põe em movimento talvez se feche na devolução da pergunta ao colonizador, materializada exemplarmente em Era um Quebequense na Bretanha, Senhora! (C’Était um Québecois en Bretagne, Madame!, 1977).
A superação da história entra em marcha no tour do agricultor Lalancette pela Bretanha francesa, aliás visitada desde os anos 20 por Jean Epstein, outro grande nome do cinema etnográfico. O personagem do Quebec vê plantações, pastagens, o gado. Agrada-se com o clima, brinca com a esposa, oferecendo-lhe com ironia uma mansão para morar. Mas também se volta às condições de vida dos trabalhadores rurais. Questionada, uma agricultora lhe é enfática ao dizer que não gosta dos patrões e ponderar em seguida: “eles nos exploram há séculos, mas é assim que consigo sobreviver.” Hauris Lalancette, exultante e compadecido, diz então a frase-título dessa produção do Oficce National Du Film canadense.
Em tempos de Rio +20, com a pauta da sustentabilidade em alta, o carisma algo intempestivo de Lalancette não deixa de lembrar Joseph Bové. O agricultor e sindicalista, ex-candidato à presidência da França, causou furor na mídia brasileira ao se juntar ao MST para destruir uma fazenda de soja geneticamente modificada da Monsanto durante o Fórum Social Mundial de 2001, sediado em Porto Alegre. O episódio resultou em sua expulsão do país, ameaças de processo judicial e ácidas críticas de Bové, que não se furtou a descer o malho nas autoridades brasileiras.
Pierre Perrault, reconsiderado em 2012, confirma a validade da sutura histórica empreendida por sua obra ao resgatar pendências do processo civilizatório que engendrou a Nouvelle-France. Descoberto hoje, tem tudo para ser o cineasta de cabeceira dos leitores de Fanon, Spivak e outros autores da teoria pós-colonialista. Mas seu brilho não se restringe ao estatuto do verbo. A começar pelo próprio agenciamento da montagem.
Há, sim, o carisma da palavra – em substituição ao modelo das entrevistas tradicionais pelo diálogo, a franca discussão; sem contar um uso particular da voice-over e de uma ou outra chanson. Mas também existe o cuidado – com todo o senso de improviso de uma câmera leve, da portabilidade do nagra, a técnica do direto, enfim – em reter nas imagens captadas um tema que excede a plástica verbal. Há as expressões da face, o gesto que acompanha o discurso e um manancial de natureza, o vigor da paisagem. Todo um conjunto de elementos a ser fruído em outros termos, na métrica da imagem.
Versão ampliada do artigo publicado em A Tarde em 11/07/2012
Programa completo: http://web.cip.com.br/flu/balafon/mostrapierreperrault/progsa.html
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