A guerra suja só está começando

19/07/2012

Por Marcus Gusmão, do Blog Licuri

“Estou me comprometendo em, até amanhã, apresentar esse vídeo em que a servente, chorando, fala da humilhação que sofreu e do orgulho que sente em trabalhar para sustentar os seus quatro filhos”, promete o presidente da ALBA a um site sucursal de um programa de TV mundo cão.

O vídeo é só a sequência desta nota publicada hoje no jornal A Tarde. Todas as armas da guerra suja estão direcionadas para a desmoralização dos professores. Haja estômago.

Mas a professora que mora aqui em casa não se conteve, e mandou seu recado para o colnista:

“Sr. Levi Vasconcelos exijo respeito. Sou mãe de duas crianças e uma adolescente muito bem educados e professora de outros tantos com maior ou menor grau de educação porque lhes falta muito. E não é minha a responsabilidade por esta falta. É ABANDONO. Inclusive desta sociedade que após cem dias de greve e décadas de falta de tudo vem se preocupar com a qualidade destes profissionais. Hoje mesmo conversava com uma colega, que tb é profissional de uma escola privada reconhecida por sua qualidade na formação de educadores e tb professora da rede pública. Ela comentava que em 20 anos de estado nunca havia feito um curso de capacitação. Toda sua formção era proporcionada pela rede privada ou por seu próprio esforço. Digo o mesmo. E, independente do que pensem de nós, há vida inteligente, sensível e responsável na rede pública. E mais do que a maioria da sociedade supõe, comprometida de fato com estes jovens a despeito do descaso e apatia manifestados pela sociedade civil. Mais respeito, por favor, e seriedade ao falar de pessoas. Imagino que na Faculdade de Comunicação os seus educadores tenham tentado lhe ensinar isso. Só uma detalhe, ser profissional da rede pública é uma escolha pra mim e para muitos e não o que nos restou como opção por falta de capacidade. Fosse eu médica, engenheira, arquiteta… estaria na saúde pública, melhorando espaços urbanos coletivos e por aí vaí. Não se enganem, há valores que a gente só pode encontrar nestes espaços públicos. Lá tem gente de verdade, mundo de verdade. Nada tão fake e alienante como a gente vê por aí.

E Soraya Almeida seguiu na sua guerrilha de palavras em outra discussão quando acusaram professores de usar palavras de baixo calão:

“Fique quatro meses sem salário sendo o tempo todo desacreditada na sua capacidade, no seu valor, aviltada por reivindicar o cumprimento de uma Lei que,desde 2008, estabelece que nenhum profissional do Magistério pode receber um “vencimento” e não remuneração inferior ao piso nacional, este ano reajustado para o valor de R$ 1.451 e mantenha o humor. Nenhum palavrão sairá da sua boca, uma vez que tão civilizada…. Sinto lhe dizer, mesmo com meu todo horror aos palavrões, que se me deparar com o sr Jacques Wagner, José Neto, Marcelo Nilo e toda esta corja perderei toda a compostura. Sugiro dez aulas numa escola de periferia, num memo dia, com a remuneração que ganhamos além de toda a lista de adjetivos que recebemos cotidianamente e o sentimento de impotência ao ver as escolas esvaziadas, ao perder alunos pra o tráfico, ao ver que nada do que dizem e lhe ensinaram na sua vida escolar serve ou foi aprendido, ou tem utilidade ou vai mudar a vida das pessoas. Que vc queira tirar seus alunos da escola e levar para a cidade, se apossar dela, interferir, frequentar museus, teatros, concertos, salas de arte e nada disso ser possível. Quando acontece é pra metade da turma, escolhidos de forma excludente- suas notas, “bom” comportamento… Ou então ninguém gosta, acha bonito, quer, deseja…. E vc se sente incapaz. Cada vez mais. O que a sra faria? A mim, se me permitem, posso soltar um impropério, um palavrãozinho, uma palavra de baixo calão… ou é muita falta de decoro, pudor ou sei lá o quê?”

Enfim.

Também quando li a nota achei um absurdo. Mas fiquei ainda mais indignado quando soube de parte do contexto. Tem uma omissão, uma descontextualização da informação que muda o entendimento do que aconteceu. A notícia tem sido reproduzida no twitter e em sites de notícias do interior ainda mais distorcida, dizendo que a professora urinou no salão. Tenho interesse pessoal em saber mais sobre esta história, saber como de fato aconteceu e como a notícia foi parar no jornal. Este caminho merece ser estudado. Soube de fonte confiável que a coisa se passou de forma diferente. Eis uma outra versão:

1- a professora não urinou no chão e sim dentro do box do chuveiro do banheiro porque não suportou esperar o sanitário ocupado. É uma pessoa já de uma certa idade, toma remédio para hipertensão com diurético e não usou o banheiro durante toda a noite porque a luz havia sido cortada.

2 – A ideia dela era tomar banho em seguida – urinar no chuveiro hoje é pratica recomendada – mas a água ainda estava cortada. A funcionária entrou no banheiro e agrediu verbalmente a professora, que ainda tentou explicar o que havia acontecido. A professora revidou a agressão verbal. Pelo que soube, inclusive, logo depois se entenderam e entraram em acordo sobre a discussão. A professora teve uma crise hipertensiva e foi internada.

Ficam então as perguntas:
Como a notícia chegou ao jornal? qual foi a fonte de informação? Havia assessoria de imprensa envolvida? quem foi o repórter que apurou? a professora foi ouvida?
Sinceramente, eu me incomodo muito mais é com o mau cheiro desta guerra de informação.
Soraya então dá uma versão mais detalhada, ouvida dos professores que estavam com a professora:

“Marcus, não sei se a professora é “de idade”. Sei que toma diuréticos porque é hipertensa e havia ficado na noite da ameaça de invasão da PM, em vigília. Ao amanhecer, não aguentando mais foi ao banheiro que estava ocupado por duas pessoas. Restou-lhe a alternativa de tomar banho e fazer xixi no ralo. A água estava desligada e, vendo o xixi, a funcionária a teria agredido verbalmente e ela reagido no mesmo tom. A todos parecia que a discussão havia se encerrado ali. Nâo foi o que aconteceu. Hoje, quando fui para a assembleia, soube (vi a movimentação de pessoas à procura de um colega que tem problemas cardíacos e anda c/ seu tensiômetro a postos) que havia alguém chorando e se sentindo mal. A professora diante do estardalhaço e humilhação pública provocados pela notícia estava com a pressão em 18/12 e foi orientada pela assistência médica da ALBA a se dirigir a um hospital para ficar em observação. Parte desta história presenciei: colegas sendo procurados para ajudá-la, medir sua pressão etc. A versao da discussão foi relatada na assembleia por um dos colegas muito comovido, em lágrimas (nao quero ser piegas, nem vitimizar ninguém) e pedindo pra que quando ela tivesse alta fosse acolhida por nós. Só pra esclarecer, ninguém que dorme lá conseguiria dormir e aceitaria um xixi no meio do salão. Tem uma colega que nos chama a atençao por viver com a vassoura na mão, a recolher copos antes da gente poder descartá-los no lixo …porque gosta do lugar em ordem. O lugar é cuidado por todos inclusive nos finais de semana quando não há funcionários. Vivemos a carência de funcionários nas escolas e sabemos o valor destes trabalhadores como tb colaboramos com a manutenção dos espaços. A professora aqui mencionada está na assembleia acampada desde o início da ocupação e merece o respeito de todos nós. Tb me comovi. A despeito da imagem que querem passar de professores imundos, desordeiros e destemperados não é o que tenho visto. Tenho presenciado cuidado com o lugar, trabalho em equipe, solidariedade e, como há muito tempo não via nas greves em que participei, a possibilidade de nós, que não peretencemos a partidos ou diretoria de sindicato, nos posicionarmos, nossas propostas serem discutidas pelo comando e o retorno delas. Fato inédito, diga-se de passagem.Quero que todos saibam que sou parte interessada e comprometida até o pescoço mas exigo que todos, indistintamente, nos respeitem. Grata.”

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8 Respostas to “A guerra suja só está começando”


  1. o único interessado nessa guerra suja é o Governo do PT. Lastimável. Inaceitável.

    • fortaleza Says:

      Os únicos interessados nessa greve, são os partidos de oposição ao governo Wagner. Isso sim.


      • é sim. Os professores são um detalhe. Olha onde chegamos! Entre os militantes do PT/Poder há os bobos (meros desmiolados políticos) e os mau caráter. Basta prestar atenção em argumentos como este acima.

      • diadorim m. Says:

        impressionante a capacidade de repetição desse bicho chamado papagaio. ouve e reproduz, ouve e reproduz. mas dizem que eles só fazem repetir, repetir, repetir, sem processar a informação. dá o pé, louro fortaleza!

  2. diadorim m. Says:

    e eles podem citar o nome da professora sem ter os fatos apurados ou julgados? não caberia um processo por parte da professora contra o jornalista levi vasconcelos e o jornal a tarde?

  3. fortaleza Says:

    Pois para mim, os únicos interessados na manutenção dessa greve, é a suja oposição ao governo Wagner. Quanto ao texto da ” professora”, pode muito bem ter sido escrito por uma outra pessoa. Os ACMs de plantão, estão aí, feito o satanás, por trás dessa greve! Tenho certeza!


  4. E eu vi, em um destes programas sensacionalistas da TV baiana – destes que passam ao meio dia exibindo sangue e baixarias diversas – a funcionária da AL que supostamente foi agredida verbalmente pela professora Ana Tereza.

    Logo após o depoimento da funcionária, o apresentador Zé Eduardo, o Bocão, estampou na tela da TV a foto da professora e citou o nome dela mais uma vez.

    O que estão fazendo com essa professora é uma irresponsabilidade. Ninguém a ouviu e ela já foi “jogada aos leões”, praticamente julgada e condenada sem ter chance de defesa. Mais do que uma irresponsabilidade: um crime, pois imagine uma pessoa ser exposta à execração pública sendo que a sua função é justamente lidar com um grande público diariamente. Será que o caso da “Escola Base” em São Paulo não serviu para nada? Cadê o exercício ético do jornalismo? A gente sabe muito bem que boa parte desta imprensa baiana recebe verbas generosas da publicidade incessante do governo da Bahia, mas será que para assegurar o recebimento de verbas e estar “de bem” com o governo é preciso chegar a tão baixo nível e destruir a vida de uma pessoa?

    É nojento!

  5. detroi Says:

    Gus, você sempre mostrando os fatos como são. Te admiro cara!


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