Thomaz Farkas

26/03/2011

“Se pudesse escolher o local para nascer teria escolhido a Bahia”. A frase é do fotógrafo, produtor e diretor de cinema documentário Thomaz Farkas, que morreu ontem, aos 86 anos, em São Paulo, dita ao diretor Walter Lima Jr. para o filme “Thomaz Farkas, Brasileiro” (2003) ao contar fragmentos da sua trajetória iluminada.

Os pais húngaros de Thomaz vieram para o Brasil em 1920. Quatro anos depois, a sua mãe grávida volta para a Hungria onde ele nasce. Lá vive cinco anos e retorna ao Brasil em 1930, quando o seu pai funda a empresa Fotoptica, fundamental para o desenvolvimento local da fotografia, pois foi quem iniciou a venda de equipamentos fotográficos no país. Assume a direção da empresa após a morte do pai, nos anos 60, e dirige a Fotoptica até 1997.

Farkas recorda-se de como a loja de fotografia do pai entra na sua vida, em casa aprende a manipular vários tipos de máquinas, a experimentar desde os tempos de criança; e muito cedo começa a fazer filmes de 16mm. No início da década de 1940, entra para a Politécnica da USP, onde faz o curso de engenharia.

Ao lado de Geraldo de Barros (1923-1998) e German Lorca, participa do Foto Cine Clube Bandeirantes, grupo que documenta a urbanização do país na década de 50 e que se destaca pelas imagens construtivistas. Além disso, atua fotografando balés e paisagens urbanas, realizando imagens modernas, abstratas e, simultaneamente, figurativas de ambientes e expressões humanas diversas, da praia ao futebol.

Na primeira metade da década de 1960 a vida de Thomaz Farkas cruza com o cinema documentário (e com a Bahia) para não mais se separar. Encontra-se com Wladimir Herzog, Maurice Capovilla e os baianos Geraldo Sarno e Paulo Gil Soares (e muitos outros que foram agregados) e decidem filmar “a condição brasileira”, retomando em outras bases a experiência de Eduardo Coutinho com o primeiro Cabra Marcado para Morrer das ligas camponesas.

O grupo produzido por Thomaz Farkas vive a grande aventura da segunda metade da década de 1960 do cinema documentário brasileiro. A assim chamada “Caravana Farkas” realiza dezenove filmes curtas e médias que registram e dialogam com elementos diversos da cultura popular das feiras do interior do Nordeste, do campo e das cidades, o trabalho e a visão de mundo de boiadeiros, vaqueiros e artesãos, como ceramistas e gravadores.

“A condição brasileira” foi o nome do projeto que Geraldo Sarno escreveu para obter o apoio da USP para o empreendimento. Farkas entrou com o transporte e material e equipamento. Articulam apoios locais e realizam duas viagens entre 1966 e 1968 por vários estados nordestinos.

Além de produtor dos filmes, Farkas atuou muitas vezes como fotógrafo. Em 1968,  lança o longa-metragem “Brasil Verdade”, que reúne quatro médias-metragens produzidos naquele período: “Memória do Cangaço (Paulo Gil Soares, 1964), Subterrâneos do Futebol (Maurice Copovilla, 1964), Nossa Escola de Samba, Manuel Horácio Gimenez, 1966) e Viramundo (Geraldo Sarno, 1965). Na época, tenta emplacar a série “A condição brasileira” na televisão, sem sucesso.

A Bahia sempre foi um porto-seguro para Thomaz Farkas. Aqui fotografou os últimos saveiros da Baía de Todos os Santos (“A morte das velas do Recôncavo”, de Guido Araújo, 1976) e personagens como Mãe Senhora, de quem fez um retrato revelando tamanha força expressiva que nos surpreendente, sobretudo aqueles que a conhecemos apenas por famosa foto de Verger. Farkas fotografou e dirigiu o filme curto “Paraíso, Juarez” (1971) em que o artista plástico baiano comenta o painel da comunicação humana que fez no Cine Tupy e que foi destruído, posteriormente, quando a área do cinema foi adquirida por uma igreja evangélica.

O filho Pedro Farkas casou com a baiana Solange Farkas, a filha tem casa há décadas em Busca Vida, ele sente-se adotado pela Bahia. Uma exposição retrospectiva de da obra de Thomaz Farkas (que já foi mostrada em  Salvador) está em cartaz no Instituto Moreira Salles, em São Paulo,  com cerca de cem imagens realizadas pelo fotógrafo entre as décadas de 1940 e 1970.

Mais sobre Farkas no Estadão
e no IG e no Instituto Moreira Salles

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3 Respostas to “Thomaz Farkas”


  1. Eu tive o prazer de fotografar Thomaz Farkas na abertura de sua exposição que houve no MAM, perdemos um grande fotógrafo.

  2. martha Says:

    Maravilhoso. Fotografias com alma.

  3. bahiaflaneur Says:

    Ele foi, sim, um grande retratista de mais de um meio-seculo da historia de um Brasil desconhecido…

    http://www.bahiaflaneur.net/blog2/2010/08/thomaz-farkas-la-promesse-et-la-trace.html

    Bahiaflâneur,
    em Salvador, o dia 28 de março de 2011


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