Macacos nas quatro direções e a merda da vida

28/03/2011

Nilson Galvão

A vida é uma merda: a gente nunca para de aprender e, se faz isso com algum senso de observação, se toca do quanto ainda resta por saber. Não me meto a atualizar Sócrates, pelamordedeus, mas esse nada-sei tem sido mesmo, pelos séculos dos séculos, um saco – e sem fundo!

Pros místicos, como Krishnamurti, ícone da contracultura meio esquecido ultimamente, é ainda mais embaixo: quem não mantém a mente aberta pra aprender a toda hora, a todo minuto, cria limo e fica lá, cabeça embotada enganchada repetindo sempre o mesmo esquema. E você, repete sempre o mesmo esquema?

Indo pros domínios da ciência, a perspectiva é outra: como não repetir? Mas, mesmo aí na esfera do intelecto, a capacidade de buscar novas maneiras de ver as coisas pode ser talvez a melhor descrição pra inteligência.

Mas a questão, de fato, é como sair da armadilha de um texto iniciado de forma tão cabeçona. Inclusive porque o mote era o mais chinfrim possível: falar do próprio umbigo, mergulhado em aprendizagens diversas depois de uns tempos de relativo, vá lá, semi-embotamento.

No trabalho, deixando o jornalismo um pouco de lado pra aprender a trabalhar com indicadores de gestão, imagine. Na Facom, de volta depois de 20 anos, uma especialização em Comunicação e Política, pra contrabalançar. Uma disciplina, um artigo por mês pra escrever com doze laudas no mínimo, referências bibliográficas, estudos de caso e o escambau.

Em casa, a cereja do bolo: você entra no tae kwon do pra estimular o filho a praticar esporte e, por Mishima, se vê instado a estudar coreano, chutes e murros ‘nas quatro direções’ em bom português e coreografias guerreiras ‘a nível de’ faixa branca. Tudo a ser apresentado, imagino, a um sisudo mestre oriental naquele estilo tranqüilo e infalível à Bruce Lee, porque em abril vai ter o temido, o intransponível, o jamais cogitado, no meu caso, exame de faixa!!!

Tudo isso me levou à profunda e inspiradora formulação do início do texto: é uma merda. E quer saber? No final das contas, pouco importam os indicadores, as teorias da comunicação e o saju dirigui. É como disse o mestre zen: não pense em macacos. Se não eles te mordem!

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O nome desta coluna é o pretexto para uma obsessão: encontrar cronópios. Nem sei se sou, eu mesmo, um autêntico cronópio, ser descrito pelo argentino Júlio Cortázar, seu descobridor, como distraído, focado sempre nas coisas menos úteis – e mais importantes – da vida. Diferente dos famas, pragmáticos e bem instalados, e das esperanças, meio obtusas e intolerantes. Percebo em mim sintomas de cronópio, como uma inaptidão pra ter a vida minimamente organizada. Mas indo ao que interessa, li as “Histórias de cronópios e famas” de Cortázar e nunca mais me livrei da compulsão de classificar as pessoas. São tão poucos os cronópios. E, definitivamente, não é possível simplesmente dizer que eles são os artistas. Muitos artistas, sem trocadilho, são… famas! Leia o livro e me ajude nessa busca: procuram-se cronópios!

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NR: Enquanto não acha, Nilson Galvão faz poesia no Blag.



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