Saudade de Caymmi

02/04/2011

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Buda Nagô

Por Alberto Freire

Durante anos sempre imaginei que Caymmi nasceu e se criou à beira-mar de Itapuã. A relação da sua obra com aquele local, que ficava “distante e a muitas horas da cidade” nos anos 30 e 40, foi tão intensa que parecia Drummond falando de Itabira, ou Manoel Bandeira da sua Passárgada. Puro engano. Caymmi foi um menino e um jovem do centro da cidade, nos arredores dos bairros da Saúde e Nazaré.

Nessa Bahia revelada e reinventada por Caymmi encontramos lugares, personagens e culinária  que se inseriram definitivamente na nossa história e memória. Exemplos como Itapuã, Abaeté, Festa da Conceição, do Bom Jesus dos Navegantes,  divindades  como Yemanjá, a baiana e a bunda da baiana como patrimônio, disfarçada de “balaio grande”,  o acarajé, o vatapá e em especial os pescadores. Esses e muitos outros exemplos fazem desse microcosmo chamado de Bahia,  terrinha hoje tão maltratadinha, uma geografia que se deve olhar em dois momentos: aC e dC, antes e depois de Caymmi.

Registro a minha profunda admiração pelo que chamo de síntese caymmiana. Algo que pertence ao domínio da sua capacidade de dizer muito em poucas palavras, que tem vários momentos na sua obra. O exemplo mais significativo vem de canção que diz “A jangada saiu, com Chico Ferreira e Bento, a jangada voltou só”. Pronto e acabado, dito e feito. Não é preciso dizer mais nada. Um perfeito exercício de fazer o máximo com o mínimo.

A importância de Dorival Caymmi na música e na cultura brasileira tem várias formas de ser medida. Uma delas segue uma ordem de grandeza e de importância que coloca Caymmi nas alturas da escala máxima de significados. Caetano e Gil reafirmam a todo instante a importância, referência e reverência de João Gilberto para o Tropicalismo e para suas trajetórias na música brasileira. Por sua vez, João Gilberto, quando ainda dava entrevistas,  dizia algo como “Caymmi foi e é fundamental para mim”. Num exercício de lógica, sem muito esforço, o resumo possível leva à seguinte conclusão: “Caymmi é tudo”.

A Tropicália inseriu uma inquietação estética na música, João reinventou a forma de tocar violão, e Caymmi o que fez? A enorme contribuição caymmiana foi trazer para frente da cena o homem comum, dentro de um cenário, até então desconhecido, que ele chamou de Bahia, embora fosse  um recorte litorâneo de Salvador e do Recôncavo.

Caymmi fez isso com o olhar sensível de quem fotografa ou pinta um quadro. Escolheu locais, datas, festas, praias, e enquadrou a sua Bahia de uma  forma pessoal. O resultado já é conhecido. Basta ouvir uma música sua, de olhos fechados, para vermos essa porção de Bahia que ele narra e descreve. Uma espécie de viagem musical. “Abaeté tem uma lagoa escura, arrodeada de areia branca”, ou “Cem barquinhos brancos, nas ondas mar, uma galeota, a Jesus levar” ou ainda “Coqueiro de Itapuã, coqueiro, areia de Itapuã, areia…”

Vi Dorival Caymmi pela última vez em agosto de  2006, quando esteve em Salvador para receber das mãos de Zélia Gattai o Prêmio Nacional Jorge Amado de Literatura e Arte, no Teatro Castro Alves. O seu estado de saúde, em uma cadeira de rodas e falando com dificuldade, insinuava um certo ar de despedida. A platéia que lotou o teatro parece que percebeu o clima e, emocionada, aplaudiu de pé durante 15 minutos a entrada do nosso “Buda Nagô”, como o definiu com extrema precisão, Gilberto Gil. Desde há muito tempo e agora, com sua partida, mais do que nunca, vale a prescrição de Chico: contra fel, moléstia, crime, use Dorival Caymmi.

Publicado  originalmente  aqui, no dia 16/08/2008, dia da morte de Caymmi.

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