A última canção

03/04/2011

Nilson Galvão

Li na internet, e isso não é bem garantia de fidedignidade, que a gravação de “Hey Bulldog” teria sido a última vez dos Beatles como os Beatles de verdade, aquele bando de garotos brilhantes que adoravam o que faziam, se divertiam mesmo e lidavam com a criatividade como se ela fosse a coisa mais disponível do mundo.

Não sei qual a sua opinião sobre os garotos de Liverpool, caro hipotético leitor. Do meu lado devo informar que 1) não sou, nunca fui beatlemaníaco; 2) não coleciono, portanto, todo tipo de informação a respeito; e 3) de uns tempos pra cá, entretanto, tenho ouvido mais e mais as músicas do quarteto, e não é que elas me inspirem, é como se modulassem as ondas cerebrais quando invento de escrever coisas tiradas a criativas, como, por exemplo, poesia. Sem querer parecer pedante, até porque também não sou um ouvinte regular de música erudita, tenho essa mesma relação com as músicas de Bach.

Não é com qualquer banda de rock, nem com qualquer compositor erudito, muito menos do período barroco. Idiossincrasia pura e simples, com toda certeza, mas prefiro, claro, teorizar um pouco mais a respeito. Sei lá, e se for porque, de alguma maneira, as canções populares de ‘working class heroes’ e as sofisticadas construções do mestre da música ocidental contivessem, codificada, uma espécie de chave para a primeira e última ‘alegria dos homens’? Não necessariamente Jesus, mas algo até mais sagrado: o fascínio pela própria criação?

Como as coisas são sempre mais complexas, é bom lembrar que João Sebastião foi a vida inteira um operário a serviço dos nobres, cheio de filhos pra alimentar a duras penas, mais reconhecido como organista e cuja obra só ganhou notoriedade séculos depois da sua morte. Já os Beatles, do subúrbio da operária Liverpool, conquistaram rapidamente legiões de fãs e muita grana, a ponto de desafiarem o próprio Jesus de Bach pra ver quem era o top dos tops no hall da fama.

Digressões à parte, volto ao estúdio onde John e Paul cantam a música de autoria do primeiro. Sou informado pela biblioteca da Babilônia: a música de Lennon deveria se chamar “Hey Bullfrog”, mas a rã deu lugar ao cachorrão porque Paul simplesmente começou a latir e uivar durante a gravação. Depois daquilo, nunca mais houve essa sintonia entre eles, a banda acabou quebrando o pau e se dissolvendo.

Eis, portanto, a se considerar verdadeira a informação, um momento-chave, carregado de simbolismo: talvez a inocência tenha feito dos Beatles os Beatles. Talvez tenha feito de Bach o Bach cuja obra resiste pelos séculos dos séculos, e talvez esteja por trás de muitas outras criações artísticas. Não a inocência associada comumente àquele que não conhece – pelo menos ainda não – as malícias e maldades do mundo. Mas a inocência dos que se entregam a essa corrente maluca, sem ao menos buscar um sentido. E se alegram em simplesmente fazer o que se sentem compelidos a fazer. Hey Bulldog!!!

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NR: Enquanto busca cronópios, Nilson Galvão também faz poesia no Blag.

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