Maldita première: Rio perderá para Realengo?

13/04/2011

Por Marcos Pierry*

Consumada na véspera da estreia mundial da animação em longa-metragem Rio, a tragédia de Realengo sufoca, à queima-roupa, a promissora largada do filme blockbuster de Carlos Saldanha nas salas brasileiras. A produção em 3D da Fox, sobre um pássaro tropical azul que vive nos EUA e retorna à cidade maravilhosa em busca de seu par romântico, é toda superlativo. Custou US$ 80 milhões, ocupa no começo da temporada mais de 1.000 cinemas (metade do circuito exibidor nacional) e tem potencial imediato, anunciam as estimativas, de vender 160 milhões de ingressos ao redor do globo.

Mas 12 adolescentes foram brutalmente assassinados na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio do Janeiro. Ao final do massacre, acuado pela polícia, o autor dos disparos cometeu suicídio. E assim, a tragédia de Realengo passa o ocupar o top ten global, em número de mortos, das chacinas escolares – pelo menos de acordo com uma das cronologias divulgadas de pronto pela imprensa. Em outra cronologia, o incidente é perfilado com uma série de atrocidades similares a partir do século 18. Precisaremos retroceder a Herodes para compreender que um banho de sangue é um banho de sangue?

Um clique na Wikipédia: Realengo consiste em uma área de 2.600 hectares, ao norte da zona oeste da cidade, que tem origem em 1814 por ato régio de Dom João. Uma das origens do nome, a germânica, significaria “o que está longe do poder real”. Inicialmente, a concessão de suas terras pretendeu apenas a criação de gado para abastecer os açougues da cidade. Mas, ainda no século 19, a região recebeu bases e entrepostos militares, fornecendo os primeiros dirigíveis da aviação brasileira e uma fábrica de “Cartuchos e Artifícios de Guerra”. Aquele abraço que Gilberto Gil manda para o bairro em sua música faz menção ao período em que o cantor ficou detido por lá, prisioneiro da ditadura.

 

Tão longe e tão perto

A vizinhança de Rio e Realengo teima em nos levar a inevitáveis ilações em torno do cotejo entre ficção (cinematográfica) e realidade. Impossível não vir à tona um Tiros em Columbine (2002), que o documentarista norte-americano Michael Moore produziu baseado no massacre de 1999, em uma escola do Colorado, que deixou 15 mortos, incluindo a dupla de serial killers. Tempos depois Gus Van Sant voltaria ao episódio com Elefante, que levou a Palma de Ouro em Cannes.

Eis dois títulos que vieram a público depois de ocorrida a tragédia que lhes serviu de argumento, funcionando como terapia social do horror ao fazer os espectadores rever os fatos, decantar seu contexto, refletir e, vá lá, derramar mais uma lágrima de compadecimento. Fora dos muros escolares, houve um filme de Fernando Bélens, Crianças de Mundo Novo, de 1980, sobre o sacrifício de oito crianças, atiradas ao mar, na Bahia, por fanáticos religiosos, mesmo tipo de fundamentalismo que tem sido relacionado ao desastre do Rio de Janeiro.

 

Destino ou conspiração?

Mas há, ainda, os filmes que – ao triste sabor do acaso? – terminam por ilustrar situações hediondas. Também em 1999, foi durante uma sessão de cinema que o baiano Mateus Meira, ex-estudante de medicina, matou três pessoas com uma submetralhadora em um shopping de São Paulo. Na tela, era projetado o ultra-violento Clube da Luta, de David Fincher, mesmo diretor do recente A Rede Social…cujo protagonista, Jesse Eisenberg, empresta a voz a Blu, herói do desenho animado da Fox. A namorada do astro de penas, outra ararinha azul, recebeu, na versão brasileira, o mesmo nome de uma das sobreviventes da zona oeste carioca, celebrizada instantaneamente por câmeras, microfones e gravadores.

Apesar de suas variações, de acordo com a época e a geografia, o cinema político prega sempre: um filme deve intervir na realidade, despertar o senso crítico de quem o assiste. Sabemos que a intenção de Saldanha passa longe desse engajamento. Seu trabalho já foi aproximado às (alienantes?) chanchadas vintage com Carmen Miranda e, adivinhem, o papagaio Zé Carioca. Com a saga de Blu, porém, a ironia se reveste de amargura e desespero. O longa viria coroar a suposta pacificação nos morros cariocas e o novo estado de ânimo de sua população, mobilizada pela máquina publicitária de empresas e governos para os conhecidos eventos esportivos de grande porte nos próximos anos.

Pedra de toque dos diversos agentes que andam investindo neste lucrativo pathos de otimismo, Rio ensejava embalar a cidade, e o Brasil, para uma outra realidade, por demais fictícia, mistificada. Nada a ver com o que propunha, nos anos 50, um Nelson Pereira do Santos neo-realista. E bem longe do pesadelo de Realengo, que se antecipou e cobrou alto o seu preço. Resta aguardar o calibre da tréplica nas bilheterias.

 

*Crítico de Cinema – marcospierry@yahoo.com.br

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5 Respostas to “Maldita première: Rio perderá para Realengo?”

  1. Araripe Says:

    Parabéns ao blog por agregar o Pierry.
    Bons artigos sobre cinema, como esse, são raros no jornalismo baiano.

  2. filipe wenceslau Says:

    Uma boa “aquisição” do blog, estamos precisando de gente que mostre a “realidade” mesmo na fantasia do cinema.

  3. FATIMA AMORIM Says:

    PIERRY,

    ÓTIMO TEXTO. AGUARDO O PRÓXIMO.

  4. J.Cacapava Says:

    Desculpe mais isso não é uma critica de cinema, soa mais como uma enciclopedia do cinema encontra wikipedia.

  5. artur carmel Says:

    Não confunda Las Von Tiers com Gus Van Sant


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