Uma oportunidade perdida

15/04/2011

Por Nivaldo Vieira de Andrade Junior

É comum em todo o mundo que grandes eventos efêmeros se transformem em oportunidades para a promoção de ações estruturantes no território urbano, como é o caso das exposições universais, das Copas do Mundo e das Olimpíadas. Entretanto, para que os recursos investidos não se limitem a atender o público atraído por algumas semanas para acompanhar esses eventos, é necessário planejar as ações a serem empreendidas, de modo a articulá-las e garantir que a qualificação dos espaços públicos e dos equipamentos urbanos da cidade-sede, assim como a ampliação de sua infraestrutura, atenda toda a sua população por um longo período.

No caso de Barcelona, o planejamento das ações voltadas a qualificá-la a sediar os Jogos Olímpicos de 1992 começou doze anos antes, quando o então Prefeito Narcís Serra convidou o diretor da principal faculdade de arquitetura local, o arquiteto e urbanista Oriol Bohigas, para coordenar a transformação da capital catalã. O exemplo de Barcelona se tornou paradigmático de como uma cidade pode se aproveitar de um evento pontual para produzir um legado perene e reinventar-se. O aporte de recursos na requalificação urbana suplantou significativamente o valor investido nas instalações esportivas e Barcelona passou a ser incluída nos principais circuitos turísticos europeus.

Salvador, uma das cidades-sede da Copa de 2014, parece caminhar no sentido contrário. A pouco mais de três anos do mundial, corremos o risco de deixar passar um cavalo selado. Até 2014, o aporte de recursos no incremento da infraestrutura urbana de Salvador será de grande monta e contínuo. Devido à falta de planejamento, corre-se o risco de investir milhões de reais em ações que, ainda que possam atender às demandas específicas do certame, não se constituirão em um legado positivo para a cidade. A própria Secretaria Extraordinária para Assuntos da Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014 (SECOPA), em lugar de elaborar um amadurecido e completo plano de ações integradas, preferiu estabelecer quatro “projetos prioritários”, absolutamente autônomos: a construção da Arena Fonte Nova; o Programa PAC Mobilidade da Região Metropolitana de Salvador (RMS) – tendo como “recorte prioritário […] qualificar a RMS e a Cidade de Salvador para a Copa em 2014” –; a modernização e requalificação da rede hoteleira; e o projeto educativo “A Copa nas Escolas”.

O Centro Histórico de Salvador, patrimônio mundial pela UNESCO, e outras áreas vizinhas de elevado valor cultural, como o Comércio, abrigam centenas de imóveis históricos em acelerado processo de degradação. Certamente, um dos mais importantes legados que a Copa de 2014 poderia deixar para a nossa cidade seria a instalação de infraestrutura turística com a utilização desse patrimônio. Mas como isso poderia ocorrer?

De diversas formas. Uma delas é reciclar o patrimônio edificado mais modesto e que se encontra abandonado, atribuindo-lhe novos usos adequados às suas características arquitetônicas. Voltando ao exemplo de Barcelona, para atender à demanda de leitos no período das Olimpíadas, diversos palacetes construídos na segunda metade do século XIX no Ensanche foram reciclados, na segunda metade dos anos 1980, em hotéis de quatro ou cinco estrelas, como é o caso dos hotéis St. Moritz, Havana Silken, Podium, Condes de Barcelona e Claris.

Em Salvador, os sobrados ecléticos localizados na área mais degradada do Comércio, assim como alguns imóveis situados nas ruas da Misericórdia e Chile, poderiam ser reciclados em hotéis, pousadas e albergues da juventude. A SECOPA anuncia que o BNDES disponibilizou, em âmbito nacional, uma linha de crédito de R$ 1 bilhão para os empresários do setor hoteleiro. No caso de Salvador, poderia ser exigido que pelo menos parte dos recursos fosse investida em imóveis degradados localizados no centro histórico e arredores. Afinal, os turistas que virão a Salvador tem como objetivo não somente assistir a algumas partidas no novo estádio, mas também têm interesse em desfrutar de patrimônio tão importante.

Uma outra questão é a da articulação entre as diversas áreas do centro tradicional de Salvador, historicamente separadas pelo acidentado relevo. Nesse sentido, destaca-se a proposta de Lelé para uma passarela conectando o Estádio da Fonte Nova e a Rua das Laranjeiras, separados pela depressão correspondente à Baixa dos Sapateiros, que facilitaria o acesso dos turistas atraídos pela Copa ao nosso Centro Histórico. Outras soluções voltadas a facilitar a conexão entre áreas vizinhas separadas pela topografia poderiam ser consideradas, como novos ascensores ligando a Cidade Alta e a Cidade Baixa.

Essas são apenas algumas idéias voltadas a garantir que a infraestrutura implantada tendo a Copa como meta possa ficar como legado para o futuro, permitindo a Salvador se consolidar como um importante destino turístico internacional. Entretanto, a ausência de um amplo plano de ações voltado a preparar Salvador para o evento pode resultar no investimento de bilhões de reais em intervenções que, ainda que possam atender às demandas específicas do certame, não se constituirão em um legado positivo para a cidade. É preciso planejar de forma global e articulada – e não definir ações pontuais isoladas – para que os investimentos públicos e privados dêem resultados a longo prazo. Exemplo maior disto é a implosão do Estádio da Fonte Nova para a construção de um novo equipamento, que custará milhões de reais e que apagou uma importante referência cultural para os baianos, mesmo tendo sido comprovado por engenheiros e arquitetos que a sua recuperação e adaptação para atender às normas da FIFA não só era viável como menos custosa que a sua demolição para dar lugar à construção de um novo estádio.

É Salvador na contramão da história…

Nivaldo Vieira de Andrade Junior é Arquiteto e urbanista, mestre e doutorando em Arquitetura e Urbanismo pela UFBA.
Texto publicado originalmente em http://www.observatoriosalvador2014.com.br/post/uma-oportunidade-perdida

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Uma resposta to “Uma oportunidade perdida”


  1. Meu caro Nivaldo Vieira…sabias palavras, proféticas,sensatas e conclusivas.A realização da copa de 2014 em Salvador que poderia ser usada como um grande trampolim de um grande salto para a requalificação da cidade que de maneira hábil e inteligente poderia ser utilizada na modernização,infraestrutura,transportes,turismo e outros segmentos não menos importantes,corre o risco de acabar sendo um grande fiasco,justamente pela falta de um planejamento sério e adequado por parte de todos envolvidos no projeto da realização de tal evento em nossa cidade.Diferente do costume Europeu,( aquilo que para nos não passa de velharia para eles é HISTÓRIA)no que tange a prédios, construções e monumentos histórico,eles não tem por hábito demolir,reformar ou modifica-los sempre usando da prerrogativa da recuperação e da restauração sempre preservando os suas característica arquitetônicas e a imagem da historia estampada nas suas faixadas(Quando caminhamos nas ruas das cidades européias,temos a impressão de estarmos passeando dentro de um livro de HISTORIA)Aqui simplesmente destruímos tudo em nome da especulação disfarçada de PROGRESSO.Quanto já perdemos da história da nossa cidade(que o diga o corredor da Vitoria e o Campo Grande)em nome da insensatez? Só me resta repetir o quanto são sabias e verdadeiras as suas palavras. -www.pregopontocom.blogspot.com/


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