Fogueira cívica

16/04/2011

* Nilson Galvão

Não me entenda mal, mas aquele cara queimando a bandeira nacional em Brasília me fez pensar em utopias. Ok, não há mais espaço para utopias nesse mundo absolutamente pragmático. Somos todos, como no poema em linha reta, gente bem sucedida – e pra pensar assim é preciso admitir a parafernália inteira: o famigerado sistema com seus pontos a conquistar, suas verdades a defender. É utopia pensar em abolir – de verdade –  distinções entre as pessoas. Bobagem imaginar aquele cara como um Quixote hipotético, queimando bandeiras para nos alertar contra os males do nacionalismo e de todos os ismos.

Ok, não me entenda mal, não escrevo a soldo da CIA para corroer as nossas combalidas reservas cívicas. Não se trata de ser quinta-coluna do capitalismo transnacional, desrespeitando fronteiras em prol das grandes corporações. Se ainda vivêssemos na guerra fria, certamente teria de negar também vinculações com os ardis de Moscou para minar os pilares do país, no compasso da internacional socialista. Ah, sim, e nem tampouco essa minha inspiração incendiária teria sido obra de Bin Laden, a mente ardilosa dedicada a submeter o mundo ao Islã.

Desculpe, mas a ideia de queimar bandeiras é tentadora demais para se perder assim, sem um registro sequer. É irresistível pensar em uma grande conspiração de antipatriotas e antifascistas a promoverem atentados anticívicos ao redor do mundo. A bandeira do seu país, do seu partido, da sua crença, da sua empresa, do seu time: toda bandeira sendo impiedosamente engolida por línguas de fogo e o maluco do incendiário satisfeito, feliz da vida com a certeza de estar sendo compreendido pelas pessoas.

Tá certo, os guardas chegam e pegam o cara e, a depender do país, do partido, da crença, da empresa, do time, ele pode realmente se dar mal. Aí, diante de tantos mártires por causa de um mero pedaço de pano, a (des) organização dedicada a colocar em marcha esse exército Brancaleone resolve mudar de estratégia e define como alvos preferenciais as bandeiras  impalpáveis. De agora em diante nos dedicaremos a tacar fogo em ideias: todas essas palavras de ordem capazes de colocar as pessoas em filas indianas virtuais, e de fazê-las reagir automaticamente, de acordo com o esquema programado.

Fique na sua, não vamos fazer mal nenhum a ninguém, dirão os utopistas. Essa queima total pode avariar seriamente o capitalismo, mas isso não é ruim como possa parecer. Deixará chamuscado também o pensamento de esquerda, mas veja, a esquerda não deveria ser defendida como se fosse uma espécie de religião. E quanto às religiões: elas também perderão substância caso dê certo a proposta de reduzir a cinzas preconceitos e intolerâncias. Estaremos finalmente reduzidos a nós mesmos e à maravilha de pensarmos por nós mesmos, e isso põe em xeque as torcidas organizadas.

Ai, ai, ai, e por favor não chame a patrulha, isso aqui não é pra valer. É bem plausível a versão corrente sobre o incendiário de Brasília. Teria alegado perseguição política ou algo assim como razão para protestar queimando a bandeira pátria. Teria sido preso por danos ao patrimônio público, nada mais. Teria negado, aos arapongas, qualquer relação entre o seu gesto e a insidiosa (des) organização planetária cujos membros abominam bandeiras, todas elas. Teria sido deportado para uma prisão ultra-secreta, Guantánamo perde, onde esses terroristas precisam ser mantidos incomunicáveis em nome da sanidade mental no mundo como o conhecemos.

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* Enquanto busca cronópios, Nilson Galvão também faz poesia no Blag.

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4 Respostas to “Fogueira cívica”

  1. Chorik Says:

    Só não queimemos a bandeira branca, nem que seja para fazer dela um fraldão.

  2. Haroldo Abrantes Says:

    A branca e a do Tricolor de Aço. O resto queimem todas. Queimemos todas as bandeiras. Viva Bob Marley. Viva a Revolução. Viva a Sociedade Alternativa. Viva Raul.


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