A Música e o Cachorro

18/04/2011

por João Aslan

Será que alguém já viu um gênio desses que dirigem carros com equipamentos de som ensurdecedores ouvindo Vivaldi ou Mozart? Ou um Tom, seja Jobim ou Zé?

Duvido. Não por acaso, todos escutam música de qualidade diretamente proporcional ao respeito que dedicam aos outros cidadãos. Falta de educação e mau gosto andam juntos. E o pior: alimentam-se mutuamente, o que me faz imaginar que em breve não haverá em Salvador um só metro quadrado protegido do alto som dos pagodões.

(Não posso julgar o gosto dos outros, essa é uma visão preconceituosa, blá blá blá… blá blá blá… quem quiser reclame à vontade, mas aviso de antemão que não darei importância.)

Pensei nisso domingo à noite. Na rua, pouca luz, pouco movimento, eu e meu cachorro. Tudo calmo, até que de repente apareceu um carro vermelho conduzido por um menino amarelo. No banco do carona, outro rapaz. Janelas abertas, potência quase de trio elétrico e música horrível. Se o cachorro de Roberto Carlos e Erasmo sabe “sorrir latindo”, posso dizer que naquele dia o meu reclamou latindo. Pois é. Até ele, que antes de domingo, em diversas situações, se mostrara portador de um gosto duvidoso, rejeitou aquela poluição sonora.

Ora, não sendo possível que o motorista estivesse confortável dentro de um carro com um som naquela altura, o que o fez (ou sempre o faz) se comportar assim? Respondo sem ouvir os especialistas do Fantástico: 1) vontade de despertar a admiração de outros seres igualmente cretinos, numa espécie de ritual de acasalamento entre machões barulhentos; 2) a mesma falta de educação, citada no primeiro parágrafo, que nutre seu mau gosto.

Temos então duas motivações. Sobre a primeira não escreverei nada. Não me sinto confortável opinando sobre o comportamento amoroso das pessoas. Com relação à falta de educação, falo à vontade, combato e proponho.

Se não existe, é preciso que se crie legislação de trânsito proibindo que qualquer ruído oriundo de equipamento de som ultrapasse os limites das janelas do próprio veículo emissor, sob pena de imposição de multa de milhares de reais. Quem quer ouvir música em alto volume que se feche dentro de seu carro. Impossível fiscalizar? Que nada. Com a popularização das câmeras, inclusive em celulares, tudo que acontece nas ruas hoje é passível de ser filmado por inúmeros cidadãos. As provas dos crimes seriam abundantes.

Ah, mas já existem leis demais… e se tudo é um problema de educação, na medida em que a sociedade evolui, essas questões tendem a se resolver, diria um amigo meu que pra tudo tem uma opinião aparentemente equilibrada, chata e politicamente correta.

Pois então, Otacílio, fique acreditando que a educação está melhorando em Salvador e espere sentado pelo dia em que ninguém vai incomodar você com um som alto ou os carros vão passar tocando a 9ª de Beethoven.

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Cova de Anão – Uma coluna rara, rasa e politicamente incorreta.
João Aslan é administrador.  jbaslan@uol.com.br

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11 Respostas to “A Música e o Cachorro”

  1. Katia Regina Borges Says:

    Pois é! E esse monstro tem tentáculos, rua afora. Andando pela Av. Sete, em direção ao Cine Glauber Rocha (me recuso a chamá-lo pelo nome do Banco), eis que me deparo com um carrinho de café, daqueles bem estilizados, um mini trio elétrico, mas de mini ele só tinha o tamanho. O volume não deixava a desejar a nenhum Madeirada e o hit…! Affff!!!


  2. Não sei quem é este João Aslan, mas me roubou o tema de minha próxima crónica sobre poluição sonora de veículos a publicar no jornal A Tarde.
    Sejamos francos: fez umas colocações que eu não teria nem imaginado.
    Texto ótimo. Quero mais.
    Adorei!
    Abraço
    Dimitri

  3. João Aslan Says:

    Dimitri,
    Fique à vontade para voltar ao tema. Todo esforço é válido para combater a estupidez dos barulhentos. Abraço, João

  4. ZÉ GOMES Says:

    joão, eu acredito que as autoridades responsáveis devem ter problemas maiores pra cuidar, que não se deram conta da gravidade que esta poluição sonora vem causando a muitas pessoas, que no mínimo gostariam de ser respeitadas no momento do bate papo, ou até mesmo ao tomar um cafezinho no boteco da esquina. É lamentavel!..Mas só indignação não basta.
    Penso e comungo com a tua ideia
    valeu!
    Zé Gomes

    • João Aslan Says:

      Valeu, Zé. Vamos insistir até conseguir ter paz, nem que seja, como diz você, só pra tomar um cafezinho na esquina. Abraço,
      João

  5. Marco Aurélio Says:

    Prezado João,

    Eu que ando de ônibus, informo-lhe que a moda agora é ouvir músicas nos aparelhos portáteis, com o volume a toda altura, SEM OS FONES DE OUVIDO!!! Ainda suportável quando apenas um passageiro e quando são mais de dois, a pleno volume cada um escutando e compartilhando com todos os outros! Imagino que também queiram a admiração dos outros pela bom gosto…tipo “olha ele é legal gosta de …” . Mas concordo com você nunca é “Vivaldi ou Mozart, ou um Tom, seja Jobim ou Zé!”
    Parabéns pelo excelente estilo. Escreva sempre.
    Marco Aurélio.

  6. Guto Guenem Says:

    É isso ai João, nossa cidade, apesar de “carnavalesca”, não merece isso. Por conta da vizinhança, um fim de semana desses fui obrigado a passar a tarde inteira de sábado a escutar um pagode do mais baixo nível. Saudade do tempo em que ao passar a tarde em Itapuã ouvia-se o mar de Itapuã!

  7. Katarina Lensk Says:

    A noção de respeito ao direito alheio é mesmo uma raridade em Salvador. Acho que nunca ouviram falar no princípio da alteridade. Não bastassem os donos de automóveis que os transformam em verdadeiros trios elétricos, ainda somos obrigados a ouvir em alto e mau som os rádios ligados nos ônibus e até nos táxis, um serviço caro e que deveria primar pelo bem-estar do cliente. Estamos definitivamente cercados de mediocridade e mau gosto por todos os lados. Que Mozart, Vivald ou Beethoven, que nada!!!! A estupidez humana não conhece limites. Escreva mais, João.

    • João Aslan Says:

      Obrigado, Katarina, Guto e Marco. Com o estímulo de vocês, com certeza continuarei escrevendo (e reclamando, pra não perder o hábito). Abraços, João

  8. Uibitu Smetak Says:

    É muito mais grave do que parece. Pela falta de escolas o nosso povo está se barbarizando cada vez mais. Não é uma questão de pobreza tampouco. A Bahia já foi bem mais pobre e bem mais educada. É a globalização, os EUA poluindo as mentes mais suscetíveis com os seus filmes de violência, o salário desemprego que faz com que algumas pessoas não queiram mais exercer um ofício. Os antigos estão morrendo e os jovens não estão mais aprendendo com eles, acho que nunca mais comerei um caruru de verdade, ninguém mais sabe como é. Quando criança, um manjar africano era uma experiência… As pessoas sabiam fazer muitas coisas. Hoje ninguém mais sabe fazer um embrulho para presente com papel de presente, coloca-se tudo naquele saquinho de plástico horrível, made in China e pronto! Estão todos conferindo o orkut, ouvindo mp3 ou incomodando os outros, com som altíssimo, grosseria e opacidade intelectual. Falo de todas as classes sociais. Nobres e plebeus, enfim somos todos iguais! Mais uma vez direi: “Tragam a cicuta!”.


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