A Paixão no século XXI

21/04/2011

Por Nilson Galvão

Messias não é quem você pensa: ele tem esse nome mas a sua paixão, por exemplo, é outra. E é, para embaralhar as cartas, uma paixão platônica. Uma não, várias: Messias é apaixonado por muitas mulheres e por homens também. Por isso ainda é virgem: não consegue se decidir.
Ele talvez seja a reencarnação de um cara muito famoso cuja vida e morte está na ponta de língua de milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas, se isso for verdade, os desígnios do universo estão agora muito mais misteriosos porque esse Messias é uma espécie de jovem geração Y: gente boa, multi-tarefa, desapegado das coisas e, por isso mesmo, incapaz de maiores arroubos. Tem milhares de seguidores no Twitter, daí essa história de Messias. Não tem a menor ideia, no entanto, sobre a mensagem a ser transmitida a todo esse rebanho.

Conversei vagamente com esse Messias descolado e ele disse não ter paciência pra religião. Ponto pra ele, pelo menos a meu ver. Não iria se insurgir, por exemplo, contra os vendilhões do templo, até porque considera os tais vendilhões apenas uma nova espécie de empresários. E não vê problema na atividade empresarial, embora pudesse viver ‘de boa’ num ambiente socialista ou numa comunidade alternativa. Talvez estranhasse os primeiros cristãos: muito ideológicos, em sua opinião.

Jamais cogitaria morrer na cruz ou em qualquer atualização desse instrumento de tortura. Acha legítimo o trabalho das garotas de programa, mas também não é a sua ir pra cama com nenhuma Maria Madalena. Não tem a menor ideia, por outro lado, das motivações desse seu celibato aos 20 anos. Poderia transar agora mesmo, com uma mulher ou até com um homem, se lhe desse na telha.

Sobre política, aí sim: também é favorável a ‘dar a César o que é de César’. Embora, contraditório como só ele, ande por aí com a estampa do Che na camiseta vermelha e cultive uma barba de aparência militante. Em termos de estética é mais complexo: gosta de tudo, de Elomar a Bob Marley, de Mussorgsky a Frank Zappa, de Radiohead a Caetano, de Roberto Carlos a Gerônimo. Leitura predileta: Paul Auster. Levaria um quadro de Vermeer pruma ilha deserta.

Sobre drogas e família, tem uma opinião bem curiosa: podem ser, umas e outra, bastante perigosas. Por isso recomenda o uso de ambas com moderação. É contra a violência, mas também acha bobeira levar desaforo pra casa. Resolveria o conflito palestino-israelense convidando os dois povos pruma grande rave de sete dias ininterruptos no deserto, embora ele próprio fique entediado já na segunda hora de música previsível.

Mora em Salvador, mas poderia tranquilamente ir parar em Cabul – mulheres de burka não são o fim do mundo em sua opinião. A humanidade e os bichos não estão assim tão distantes em termos espirituais, avalia, ponderando entretanto sobre suas dúvidas a respeito de haver ou não vida espiritual. Dito isso, considera certos cães e gatos bem mais evoluídos na comparação com as pessoas em geral.

Vá entender esse Messias!

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2 Respostas to “A Paixão no século XXI”

  1. neyse Says:

    pedrola, my hero, não sei do que gosto mais: se da argúcia ou da leveza. e a gente pensava que sabia o que era niilismo, hein?

  2. Nilson Says:

    Pois pois, Neysoca, niilismo é fichinha!!


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