Campanha de trânsito, também tenho a minha

29/04/2011

Por João Aslan

De vez em quando o Jornal Nacional nos mostra que os membros de alguma ONG do Rio de Janeiro, revoltados diante de alarmantes índices de violência, resolveram fazer um protesto colocando cruzes nas areias de Copacabana ou coisa parecida. Dito isso, pensem na seguinte cena: um comboio levando uns vinte bandidos armados até os dentes, dispostos a promover uma chacina na área dos rivais, passa pelo tal protesto e, de repente, o chefe do grupo se sensibiliza com aquelas cruzes, reflete sobre a vida e o amor, desiste da carnificina e dá meia volta. Faz sentido pra alguém? Um protesto desse tipo pode até gerar notícia, mas resultado prático… Admitamos: quem promove violência diretamente não se sensibiliza com coisas desse tipo.

Exageros à parte, penso que uma seguradora está cometendo um erro parecido atualmente – ou um acerto, se a idéia é apenas ficar bem na foto. Digo isso porque recebi da tal empresa, há alguns dias, encartados em diferentes publicações, dois adesivos de uma campanha bonitinha e cara chamada TRÂNSITO + GENTIL. Coisa do tipo “faça sua parte”. Mas será que justamente aqueles motoristas estúpidos ou aprendizes de assassinos que empestam nossas ruas vão se sensibilizar? Vai ser difícil! Acho mesmo que só refletirá sobre o assunto quem já é educado e o ganho para o trânsito tenderá a ser zero!

Mas, como ando me policiando para ser um cara que critica e ao mesmo tempo “constrói alternativas”, pensei bem e estou lançando um movimento que também se propõe a melhorar o trânsito, sem artistas e sem dinheiro, mas muito mais direto e, penso eu, mais eficaz. “TRÂNSITO MENOS BURRO” será o título de minha campanha. Levando a imitação aos limites do intolerável, vou até usar o sinal matemático no lugar da palavra menos. A marca, acabo de desenhar: duas orelhas de burro em uma placa típica de proibições.

Antes que me acusem de ignorar que os problemas do trânsito em Salvador são muito complexos, que tudo tem origem na falta de transporte de massa decente etc., devo dizer que também acho tudo muito complexo, mas, enquanto as grandes soluções não chegam, por que não agir para diminuir o caos?

É claro que não sou um especialista em engenharia de tráfego, mas, como creio que não há ninguém com essa formação na prefeitura de Salvador, me julgo no mesmo patamar de conhecimento técnico das autoridades municipais (quase nenhum) e vou dar meus palpites à vontade.

Fato é que a burrice está muito presente no trânsito de Salvador, seja na atitude do motorista que durante o engarrafamento faz do acostamento pista – e piora a situação de todos –, seja na disputa agressiva por metros de asfalto, promovida pelo animal que fecha o cruzamento e atrapalha o fluxo inteiro. Mas quero me concentrar, até pela restrição de tempo e paciência dos leitores, no inaceitável desprezo que os gestores municipais têm por um problema que me parece evidente: os gargalos em avenidas importantes como a Luis Viana Filho (Paralela) ou a Mário Leal Ferreira (Bonocô). É só desses pontos que hoje quero falar. Pontos de engarrafamento que coincidem com pontos de ônibus mal localizados, ou seja, burrice oficial.

Otacílio, meu amigo politicamente correto, me explicou que ninguém cogita deslocar ou criar grandes recuos para os pontos de ônibus porque essa atitude seria entendida como uma concessão burguesa aos usuários de automóveis particulares em detrimento do glorioso transporte coletivo. O mesmo Otacílio só não soube me dizer quem foi que formulou a tese segundo a qual os enormes engarrafamentos não prejudicam também, e de modo mais intenso, os usuários dos ônibus, que muitas vezes viajam em pé.

Em outras palavras, no vácuo de uma política séria para o transporte de massa em Salvador, criou-se a inacreditável “teoria da intocabilidade dos pontos de ônibus”. Eles estão muitas vezes mal localizados, prejudicam a população inteira, inclusive seus próprios usuários, mas, literalmente, ninguém se mexe. São praticamente vacas sagradas.

Alguns exemplos: 1) na Paralela, quase em frente ao posto de combustíveis nº 1, há engarrafamentos nos dois sentidos. Depois que se consegue ultrapassar os pontos de ônibus, que estreitam a pista, o trânsito volta a fluir, exceto quando há outros problemas mais à frente. Há espaço para construir recuos e já existe até uma pista auxiliar não aproveitada, poucos metros adiante, no sentido Aeroporto-Iguatemi; 2) na mesma Paralela, quem sai do CAB atrapalha todo o fluxo, pois precisa desviar do ponto de ônibus localizado no encontro das pistas. Há muito espaço para construir um bom recuo ou até um pequeno terminal; 3) na Bonocô, quem vem do Ogunjá também precisa desviar do ponto que fica bem na confluência das duas avenidas, estreita a pista e engarrafa tudo. Há espaço para recolocar o ponto mais à frente. 4) ainda na Bonocô, há um ponto próximo ao Posto Mataripe, exatamente onde desemboca o fluxo vindo de Brotas. Ali os motoristas precisam desviar do ponto invadindo a pista já estreitada, com o agravante de que muitas vezes os ônibus em fila fecham completamente a passagem. Já há um recuo poucos metros antes desse ponto de ônibus, livre de obstáculos, mas creio que a “teoria da intocabilidade” impede que seja aproveitado. Até uma antecipação do local onde as pistas se encontram, mudança simples, sem tocar no ponto de ônibus, poderia ser a solução.

Em todos esses casos, as paradas de ônibus estão colocadas exatamente no ponto de confluência de avenidas importantes, em nome de uma suposta comodidade para seus usuários que, no fim das contas, pagam, sob a forma de engarrafamento, atraso e cansaço, o preço dessa irracionalidade.

Enfim, minha humilde campanha “TRÂNSITO – BURRO” já terá sido um sucesso se conseguir apenas que se reconheça que uma parte dos engarrafamentos é causada por irracionalidades oficiais, a exemplo da má localização de pontos de ônibus, que se estude com seriedade o assunto e que, pelo menos, se tente resolver o problema.

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4 Respostas to “Campanha de trânsito, também tenho a minha”

  1. Chorik Says:

    Tomei a liberdade de linkar essa postagem à minha. Espero que não se incomode.
    Nota da Redação: VTNC dona Detinha… (lembra?) Falar nisso, Aslan tem um pé em Jequié.

  2. Amarildo Says:

    Esta situação é parte da cultural política brasileira, pois é com o caos que se consegue vultos de dinheiros para as grandes obras, é após a solução do caos, que os governantes surgem como salvadores da pátria.
    Recuos de ônibus ajudam a população, mas não dão votos e os grandes volumes de dinheiro, que financiam os políticos e enriquecem os empresários tranqueiros. Triste Brasil. Sds.

  3. Sergio Afonso Says:

    As sugestões apresentadas demonstram que as soluções para o trânsito de Salvador são simples. Chega de projetos mirabolantes que não saem do papel. Vamos fazer o feijão com arroz pessoal!!!


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