A peleja de Bakunin e Proudhon na terra do Poleirão

01/05/2011

Por Nilson Galvão

Ouvi falar em anarquismo pela primeira vez em Brumado. Tinha uns 16 anos. Meu amigo Rogério Palmeira, dois anos mais velho, já era um cabeção. Bakunin, Proudhon & Cia foram apenas parte dos personagens reais ou literários a entrar em minhas preocupações nerds – ou freaks, ou talvez mais propriamente CDF’s, como se rotulava na época –, por conta das longas conversas com Rogério enquanto, junto com o resto da galera, percorríamos as ruas e praças da cidade na tentativa, quase sempre vã, de ‘pegar mulher’.

Mas virou carnaval, como não poderia deixar de ser na Bahia: daria tudo pra assistir como espectador, com os olhos de hoje, àquele bando de ETs na paisagem árida e saturada de axé music, todos vestindo camisetas brancas toscamente pintadas em silk-screen com o ácrata, o símbolo do anarquismo. O nome do bloco: Depravado. Nada mais, nada menos. Os nomes lembrados agora: além de mim e de Rogério, Roberto Palmeira, Jorge Ésperma, Jorge Valério, Gugu, Roberto Audi, Zé Hélio. Uma ou outra namorada circulava por ali, claro, mas não lembro se uma delas se aventurou a participar daquela agremiação momo-revolucionária.

Detalhe importante: Ésperma ganhara o apelido após sustentar, numa discussão, ser esta a pronúncia correta para a palavra designativa do líquido seminal. Ele foi taxativo e se ferrou. O argumento infeliz: afinal de contas, é só ver como se pronuncia espermatozóide: ésperma, meu caro Watson! Éramos ou não um bando de depravados? Mas, no duro e sem trocadilhos, tenho minhas dúvidas se alguém mais além de nós se lembra daquele lúbrico desfile.

Era o verão de 1986, e a então regionalmente célebre folia brumadense estava completamente dominada pelos blocos Germes da Era e Poleirão, ambos com centenas de integrantes, centenas de gatas e cada um com sua respectiva mortalha, ancestral do abadá, além das indefectíveis mamães-sacodes e do imponente, barulhento, irresistivelmente sedutor apelo do trio elétrico.

Tudo custando caro e representando um espúrio esquema burguês pra conspurcar o clima da festa igualitária, do verdadeiro espírito do carnaval. Tudo, evidentemente, conspirando pra tornar irrelevante a nossa trupe de uma dúzia, no máximo. Onde ninguém pagou além dos vinte ou trinta contos pra comprar a camiseta e rachar a tinta e a tela de silk.

Mas e daí? Onde estavam as dezenas, centenas de gatas? Todas no Germes ou no Poleirão, claro. Ficou evidente desde o início: Bakunin e Proudhon não iam ajudar a gente a comer ninguém. E, pra piorar, um vizinho reacionário ficou chamando a gente de depravados donzelos. Tudo por culpa do meu irmão mais novo, Joãozinho, agregado ao bloco e flagrado a cochilar numa calçada em plena festa, mal passava das dez da noite.

Indiferença vá lá. Mas ser alvos de uma ironia fascista como aquela era uma sacanagem com a revolução. Era preciso uma resposta à altura, e ela veio na forma da mais definitiva das vinganças: o desprezo. Dali em diante não se falaria mais em anarquismo em território brumadense.  As ruas e praças da cidade não veriam mais o Depravado, não teriam a chance de vislumbrar a verdade sobre os males do Estado e de toda forma de poder. A revolução estava cancelada naquele quadrante. Para sempre.

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28 Respostas to “A peleja de Bakunin e Proudhon na terra do Poleirão”

  1. Katia Regina Borges Says:

    Que delícia de texto, Nilson. Sabia que militei num movimento anarquista, com outros propósitos que não o seu (rs), no final da década de 70 e cheguei a escrever no jornal que publicávamos – O Inimigo do Rei? Remando contra a maré, qdo o cult da época era ser comunista?! E isso durou alguns carnavais…!

    • Nilson Says:

      Oi, Kátia, em 86 cheguei a ir a uma reunião do pessoal do Inimigo do Rei, não sei bem se era o mesmo, mas fui. Mas não voltei. Nem sei por que. Talvez falta de empatia. E quanto a não ser comunista, o espírito em meu caso era esse também. Falando de hoje, isso parece não fazer sentido!!!

  2. Diorgenes Xavier Says:

    Ésperma foi o melhor. Muito bom! kkkkkkkk

  3. Toni Vasconcelos Says:

    Adorei o artigo, Nilson. O título já me fisgou, pois também fui dos “simpatizantes” do anarquismo, justo nessa época sua de Brumado. Conheci o Inimigo do Rei (lá militavam os colegas jornalistas Alex Ferraz e Tony Pacheco) e a revista Barbárie. Parabéns, rapaz, seus textos são ótimos.

  4. neyse Says:

    Sem querer ofender, e desde o mais profundo respeito pelo anarquismo (e pela nerdice!), “depravados donzelos” é ótimo! Mas, enfim, a pergunta que não quer calar: depois que acabou o anarquismo em Brumado, deu pra comer alguém? Ou o único que, de fato, morou na filosofia foi o Joãozinho? Ai Pedrola…

  5. Márcio M. Says:

    Ficou ainda melhor o causo que escutei na mesa do Póstudo. Grande verve de cronista, poeta!

  6. Marcelo Barros Says:

    A recordação que o artigo me traz não é anarquista, só foliã: eu pulei no Poleirão em 83 (ou 84, não sei). Excelente recordação!! Parabéns pelo artigo.

  7. artur carmel Says:

    Nilson, forever young !!! Valeu, companheiro. Na minha rua tinha um tal de Zé Esperma. Apelido ganho por conta do dito cujo afirmar insistentemente de que o esperma era bom para curar espinhas.
    Grd abrç,
    ac

  8. Katia Regina Borges Says:

    É Tony,

    Tinha tb o Ricardo (prof. História) euzinha e vc; se for o Tony que tô pensando. Mas, isso, como diz Nilson, parece fazer parte de um mundo tão distante…!

  9. Rogério Palmeira Says:

    Ri demais com o texto. Acho que serve como dica aos adolescentes: ser intelectual ou anarquista não “rende”mulher. Belo texto!

  10. Jorge Valério Gomes Says:

    Nilsinho, amigo donzelo de outrora:

    NAQUELE VERÃO DE DONZELICE DEPRAVADA EU JÁ ESTAVA NAMORANDO, DEPOIS DE UMA PAQUERINHA DE INVERNO. E EU LEMBRO QUE NAQUELE INVERNO VC HAVIA ARRUMADO UMA NAMORADINHA, MAS LOGO DEPOIS RESOLVEU VOLTAR PARA O REDUTO DOS DONZELOS.
    BONS TEMPOS AQUELES… EU VIVIA OUVINDO ROCK’N’ROLL, SENTINDO PAIXÃO PLATôNICA, MAS LOGO TOMEI CORAGEM PARA SENTIR AS MENINAS.

  11. Nilson Says:

    Pois é, velho Jorge: coisa boa mesmo – e libertária de vero – é ‘sentir as meninas’!!

  12. Jorge Valério Gomes Says:

    Amigo Nilsinho e demais comentaristas:

    O artigo Peleja de Bakunin… me despertou saudade e também reflexão sobre a importância do Anarquismo. Lembro q qdo conheci a anti-doutrina, soube dos fracassos das rebeliões dos seus seguidores e conclui q o Anarquismo tinha mesmo um caráter utópico p ser intransigente com a revolução processual _ derrubar a burguesia, se apropriar do Estado e depois extingui-lo.
    Mas, o q é válido mesmo no Anarquismo é a sua preocupação com a auto-gestão em todas as dimensões da vida. E aí, se não é possível consolidar a revolução libertária, mobilizando as massas de uma só vez, pelo menos pode-se viver o Anarquismo em grupos de amigos, entidades sociais, comunidades alternativas, etc. Por sinal, a Anarquia se realiza p meio de comunidades federadas e autônomas.
    Enfim, nos pequenos meios em q vivemos, há a possibilidade de viver a Anarquia. E aí vai uma informação importante do lugar onde surgiram os Depravados: em Brumado existem duas organizações não governamentais que são geridas por um colegiado e tudo é decidido de acordo a vontade da maioria. Estou fazendo referência ao MODERA e aos ABRACADABRA.
    A Anarquia deve ser construída, a partir da ação discreta e gradativa dos anarquistas dentro de um sistema explorador, excludente e opressor.

    Muita paz e saúde a todos(as).

  13. Roberto Audi Says:

    Meu caro Nilson

    Anarquistas. Graças a Deus… Hoje em dia nem tem como ser. É o sistema.
    Parabéns pelo dom da escrita. Fiz uma verdadeira viagem no túnel do tempo. Que bom que eu pude participar dessa e outras tantas aventuras. Quero que saiba que é uma honra muito grande fazer parte do seu seleto grupo de amigos. “

  14. Nilson Says:

    Velho Audi, faltou dizer que, naquela época, você já tava bem mais pra depravado que pra donzelo!!

  15. Roberto Palmeira Says:

    Na verdade só tinha donzelo mesmo.. a unica excessão era eu ,que me aproveitava da semelhança de um dos menudos ( febre das adolescentes na epoca ) e pegavas algumas … o resto era, gugu donzelo,rogerio “o Virgem ” ,Nilson ” boca Virgem ” . he he.. uma pergunta ..Ruy Lobo não saiu nesse bloco não ??

  16. Roberto Palmeira Says:

    jORGE VALÉRIO, VELHO IRMÃO DE GUERRA JÁ NAMORAVA NESSA ÉPOCA ??? LEMBRANDO UMA EXPRESSÃO DA CAPITAL DO MINERIO : QUÁ

  17. Jorge Ribeiro Says:

    Nilsinho
    Honra-me cumprimentá-lo, ao tempo em que manifesto minha alegria em dividir com meus filhos (Cássio, com dez anos de idade e Kaique, com quinze) mais um dos seus deliciosos textos (em verdade preferi pular o “Detalhe importante” concernente ao terceiro parágrafo). Agradeço por nos encantar mais uma vez, desta feita, com “A peleja de Bakunin e Proudhon na terra do Poleirão”. Outrossim, reverencio as Deidades: Jorge Valério, Roberto Palmeira e Rogério Palmeira, pela oportunidade de sabê-los nesta página.

    Abraços.

    • blag Says:

      Oi, Jorge, só agora vi seu comentário – não tinha mais entrado neste post, voltei porque é carnaval e lembrei de postar no Facebook. Bacana, velho, bom falar com você. Caso leia essa resposta, me ache lá no Facebook. Lhe procurei e não encontrei. Abração!


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