É preciso tirar os automóveis das ruas

02/05/2011

Veículo leve sobre trilho em Recife

Por Gilmar Santiago (PT), vereador de Salvador, presidente da Comissão de Planejamento Urbano e Meio Ambiente da Câmara Municipal.

Decisão relevante para o futuro de Salvador está sendo tomada nestes dias: qual será o sistema de transportes a ser implantado que atenda às demandas de aumento do fluxo de passageiros provocada pela Copa 2014; e, simultaneamente, ajude a resolver os graves problemas de mobilidade urbana, que vivemos neste momento, e que serão ampliados nas próximas décadas.

Os especialistas lembram que a questão é mais complexa do que o debate entre BRT ou VLT. O mais importante não é a tecnologia, mas o sistema de transportes que queremos. É estabelecer uma rede integrada, plural, que utilize diversos modais. A questão não é o projeto, mas o que está por trás dos projetos.

Os sistemas viários determinam os modos de ordenamento e ocupação do solo. A maior concentração de renda e serviços da cidade do Salvador está na região do Iguatemi, Pituba e Orla, que é bem servida de infra-estrutura viária/urbana. Os bolsões de pobreza constituem a maior parte da população da cidade – uma cidade à margem de muitos benefícios daquela em que vivem os bens aquinhoados.

Acredito não restar dúvida que o sistema ferroviário, de transportes sobre trilhos, é a melhor opção. Os veículos leves sobre trilhos são muito mais baratos que os metrôs e tem muitas vantagens em comparação ao sistema de ônibus sobre rodas. Os veículos são leves e isto reduz o consumo de energia e o desgaste das vias; favorecem a maior acessibilidade – esta fica facilitada por pisos baixos e rampas de acesso para pessoas em cadeiras de rodas. Não poluem e não fazem barulho, são mais rápidos do que os ônibus e, numa emergência, são mais fáceis de evacuar do que outros meios de transporte metropolitano.

O projeto de nação baseado na indústria automobilística, que levou à falência as nossas ferrovias, foi quem estruturou o capitalismo brasileiro nos últimos sessenta anos. A indústria automobilística no Brasil tem centralidade na economia do país. Mobiliza milhões de pessoas, alimenta diversos segmentos de produção e serviços e gigantesca e poderosa cadeia produtiva que começa no petróleo e nos pólos petroquímicos. O Pólo tem como principal cliente os fabricantes de acessórios de automóveis e outros automotores. Os automóveis são embalados como objetos do desejo da população no horário nobre da tevê comercial. Mas o transporte individual não é o melhor transporte nas metrópoles. É preciso tirar os carros das ruas.

Devemos investir nas bicicletas; em condições propícias para deslocamentos a pé; nos veículos leves sobre trilhos, trens, bondes e ônibus. Concluir o metrô (e punir os culpados pela situação atual) até Pirajá, transformar o trem do subúrbio; investir em 150 Km de ciclovias, criar um sistema cicloviário e estimular outros comportamentos na relação das pessoas com a cidade.

Os transportes sobre trilhos compõem os sistemas estruturantes nas principais cidades do mundo. Os ônibus são alimentadores deste sistema. Infelizmente, em Salvador, o metrô virou piada. Ou criamos alternativas corretas agora ou esta piada se prolongará por muitos e muitos anos.

A única vantagem alardeada pelos defensores do BRT é que o seu custo de implantação é menor do que o VLT e o tempo de construção da infra-estrutura seria menor. É verdade que o custo de implantação do BRT é menor. Porém, este sistema não tem vida útil tão longa quanto a vida útil do VLT. Se implantarmos o BRT agora, daqui a alguns anos teremos que fazer novos investimentos vultuosos para adequá-lo às necessidades do crescimento da cidade. Enquanto a implantação do VLT é modular, progressiva, contínua e definitiva.

Quanto ao tempo de implantação da infra-estrutura é preciso concentrar esforços e competências para fazer a coisa certa em tempo hábil. A Copa será momento privilegiado de exposição da cidade para o mundo. Deveremos intensificar o debate agora, esclarecer todas as dúvidas, ouvir os estudiosos do assunto, fazer a concertação da sociedade soteropolitana (e não apenas das elites) e tomar a decisão acertada sobre o que é melhor para Salvador e a maioria da sua população.

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