Filme-Arara

05/05/2011

Por Marcos Pierry

No jargão da imprensa, o termo arara costuma designar os jornais que, belos na apresentação visual de textos e imagens, são fracos no conteúdo. E não é que a carapuça ajusta-se direitinho ao blockbuster Rio? A produção da Fox, dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha, de A Era do Gelo, estreou no país no dia seguinte à tragédia de Realengo, que deixou um obituário de 13 nomes pelos corredores de uma escola pública do Rio de Janeiro.

As 1008 salas que projetaram o filme pelo Brasil no fim de semana de estréia (8, 9 e 10 de abril) obtiveram, cada uma, a média de 90 espectadores por sessão. É uma taxa de ocupação, em torno de um terço, bem aquém do padrão prometido por um arrasa-quarteirão.

Mesmo assim, sem dizer muito com seu pífio desenvolvimento dramático e sem arrecadar os milhões esperados na largada, o filme tem rendido um dinheirão. Ainda que ao custo de uma pressão midiática e uma vampirização sem precedentes do surrado circuito exibidor brazuca. Três semanas depois de lançado, Rio bateu os 13 milhões de ingressos vendidos do musculoso Tropa 2, que teve, registre-se, uma distribuição 40% mais modesta em número de cópias (ou salas).

O espectador, entretanto, não deve se tornar refém dos números nem do assédio promocional. Se procurar digerir Rio criticamente, ele não engolirá a película sem tropeçar em algumas questões flagrantes expostas na tela. E isso antes mesmo de levantarmos todo o jogo de interesses que alia capciosamente as metas de lucro de uma major ao projeto político do poder público brasileiro, o estado de ânimo da população (a pátria de chuteiras instada a ver no filme de Carlos Saldanha um gracioso trailer da Copa e dos Jogos Olímpicos vindouros) e, por fim, o saldo de carisma, deveras envolvente, acionado pela origem do diretor: “se liga, Brasil! Eu sou brasileiro!”, declama Bell Marques em uma velha canção da lavra chicleteira.

Técnico competente, criatividade cevada nos softwares hollywoodianos de computação gráfica, Saldanha é daqui, mas venceu over there. Dirigiu, ao longo da última década, quatro sucessos do cinemão – os três episódios de A Era do Gelo e Robôs – e ainda foi indicado ao Oscar pelo curta Gone Nutty (2002). Com o leão da vitória sob os pés, ele está fazendo a América e zé-ketiando pra todo mundo ouvir: “eu sou o samba; a voz do morro sou eu mesmo, sim, senhor”. E então, devidamente alienados, vamos ao multiplex ver as graciosas mentirinhas sobre os nossos quintais tropicais. Tudo em 3D.

O roteiro é uma mal alinhavada maçaroca de 96 minutos que torna enfadonho o já anêmico argumento segundo o qual a arara nerd Blu retorna ao Brasil para procriar com o único equivalente fêmea de sua espécie, Jade. Só que os dois, de comportamentos distintos, não se bicam e, de quebra, vão parar na gaiola de traficantes de animais silvestres. Daí pra frente, veremos a história de auto-superação de Blu, que precisa deixar para trás os hábitos domésticos (e humanos) adquiridos com a vida pacata que levava no Minnesota para livrar Jade do mal e conquistá-la para o seu ninho.

No universo ficcional de Rio, o samba é um fluxo contínuo, que, se ajuda a disfarçar a frouxidão do roteiro, altera drasticamente o modus vivendi das aves em prol de clichês visuais em voga desde Fantasia, uma produção da Disney de…1940! Por mais palatável que seja, o baticum permanente do filme também altera o cotidiano carioca com nociva distorção. No longa, a vida da cidade é forjada completamente em função do corre-corre nas escolas de samba para fazer bonito na Marquês de Sapucaí. Até o funcionário do hotel tem seu desempenho profissional comprometido pela compulsão aos rebolados.

Sérgio Mendes, indiscutivelmente um dos maiores músicos brasileiros, já foi mais de uma vez acusado de pasteurizar os ritmos nacionais com sua pegada world music nos arranjos. Seus beats não fazem feio em Rio e podem ser considerados o que de melhor o filme oferece, assim como a presença de Carlinhos Brown, Bebel Gilberto e Will i Am. Mas quem assina a trilha original é John Powell, ficando Mendes, Brown e companhia com créditos secundários.

O samba só dá trégua no momento mais romântico de Blu e Jade. Os produtores desconhecem Cartola e Batatinha (ou mesmo uma Astrud Gilberto ou Sarah Vaughan cantando samba, digamos, estilizado) e, para garantir o intimismo, mandam a garantida Say You, Say Me, do bom e velho Lionel Richie. Acontece que o uso de canções do universo adulto para gerar um subtexto cômico em filmes de animação “para toda a família” atingiu seu apogeu com Madagascar (2005). Ou seja, é uma fórmula diluída, em desgaste há seis anos.

Say You, Say Me enquanto as ararinhas tentam se entender no teto de um bondinho em Santa Tereza? Será que é pra rir mesmo? Eis uma cena que deveria tomar como referência o primeiro encontro de Barbie e Ken em Toy Story 3. Mais patético (do que o efeito da balada de Richie), somente Ivete Sangalo, “retrato fiel da Bahia”, a cantarolar um convite para irmos todos… à cidade maravilhosa enquanto sobem os créditos finais.

Além dos tambores, há em Rio a deliquência urbana carioca, representada por um bando de macaquinhos trombadinhas. Volta e meia eles surgem na tela e, cheios de ginga, afanam relógios, carteiras, colares. A sequência de furtos acrobáticos é antecedida por um número de capoeira, em outro exemplo de seqüestro instantâneo de um símbolo verde e amarelo que, francamente, pouco agrega à narrativa, mas deixa um belo estrago nos brasões caboclos.

Depois de décadas sem legitimidade, e mesmo de criminalização, a capoeira passa por momento de reconhecimento e reparação no ambiente institucional do país, moral que não impede a polícia de baixar a madeira durante o carnaval de Salvador quando avista uma roda. Foi assim há alguns anos ante o trio da banda mineira Berimbrown. Pode parecer militância descabida; o fato, porém, é que custa muito em termos de imaginário coletivo a porrada subliminar dos símios ladrõezinhos capoeiristas. Por que não fazem seu arrastão dançando um sapateado?

Ainda assim a mácula maior é o personagem Fernando, um garoto com pinta de Ronalducho no início da carreira, fase pré-Cruzeiro, que traja a camisa da seleção e presta serviços aos traficantes de aves. Fernando tem cara de bom moço mas é um contraventor. Lá pelo meio da trama, se arrepende, chora e diz aos seus futuros preceptores (Túlio, o ornitólogo brasileiro, e Linda, dona de Blu e de uma livraria no Minnesota) que rouba pra comer. Ao final, o menino se redime, abandona o lado escuro da força e é adotado.

O epitáfio de Fernando acaba se tornando bem mais constrangedor que os piores lances de Blame On Lisa, o famoso episódio brasileiro dos Simpsons, por atualizar colonialismos e reforçar preconceitos de forma deslavada, apesar de edulcorada na chave do melodrama, sobre quem somos, as nossas carências sociais, nossas habilidades, nossa beleza, como nos safamos de uma dificuldade. O Fernando de Rio justifica o percurso errático dos zé-pequenos da vida real que encontramos ao sair do multiplex.

Ele também traz a mente o guia mirim de Você Já Foi à Bahia, Nega?, documentário de Paulo Alcoforado, produzido há dez anos, que busca discutir alguns emblemas da cultura baiana por meio de um insólito passeio por pontos turísticos soteropolitanos. Contra-tipo sob medida ao Você Já Foi à Bahia? original, lançado por Walt Disney nos anos 40, tempos da política da boa vizinhança de Roosevelt e Getúlio. Frente a Rio, decantadas as necessárias análises do discurso, o longa de 1944 tende a sobreviver a um julgamento ideológico graças a algo de força expressiva do traço, das cores, da musicalidade.

De algum modo havia ali, ainda que na base do engodo, uma estampa de (pseudo-)respeito, uma exaltação à nossa alegria que, se não resulta em nada produtivo, basta-se em si mesma; não causa males, não pavimenta desvios de caráter. E temos nos créditos um Ary Barroso (Na Baixa do Sapateiro), um Aloísio de Oliveira, uma Aurora Miranda. Bem, o Zé Carioca não deixa de ser um malandro, mas, na trama, conhecer a Bahia é um presente que chega para o Donald no dia de seu aniversário.

A perversão irá sempre persistir nas animações enlatadas que nos chegam desde há muito, com seus monstrinhos sorridentes condenando às culturas periféricas à pantomima estéril, ao preconceito dos clichês, à condescendência autoritária. Para baixar a guarda, se for o caso, convém o espectador se perguntar o que leva em troca. Um pouco de diversão? (Auto-)Conhecimento? Cultura de almanaque? Estesia visual? Ou apenas pipoca no estômago?

Rio deixa muito a desejar nesses quesitos. Sua violência não nos lega quase nada, nem mesmo o tal entretenimento de qualidade. Um dos poucos personagens que se salvam é Nigel, uma cracatoa de alguma originalidade nos trejeitos de vilã. Sem fôlego, porém, para não nos fazer lembrar de personagens marcantes de outras animações quando os protagonistas humanos aparecem. Por exemplo: Helena (Incríveis, Disney/Pixar) ou Vanessa (Bee Movie, DreamWorks) quando vemos Linda; ou Ted (George – o Curioso, Universal) quando vemos Túlio. Assim, a produção da Fox/Blue Sky cristaliza uma impressão de não passar de arremedo de criações de outros estúdios.

Mesmo a beleza fotográfica do Rio, destacada por muitos como ponto alto do filme, está por demais estilizada e não soma a favor do conjunto. Nesse caso, se for para apreciar os logradouros, a paisagem natural carioca, melhor seria encomendar a livreira Linda um exemplar de A Cidade Maravilhosa e seus Arredores, que a Livraria Kosmos publicou nos anos 40 e 50, com imagens incríveis da cidade destituída de presença humana.

Se a peleja mirar a cinematografia dos pássaros, o menu é melhor servido com documentários de canais de TV paga, na linha Discovery ou NatGeo, ou filmes com penas de relevo, a exemplo de Paulie ou os memoráveis Migração Alada e Fernão Capelo Gaivota. Há nesses títulos uma bela aula de fisiologia animal, emoção, aventura, entretenimento, filosofia e belas aves voando. Habilidade que Blu não possui. Mas coitado dele. Sequer sabe que pertence a família dos psitacídeos azuis que habitam o Raso da Catarina, mais raros e ameaçados que o pássaro de plumagem similar, e de maior porte, presente na Amazônia.

3 Respostas para “Filme-Arara”

  1. edgardnavarro Says:

    Achei o texto Filme-arara de Pierry sobre RIO excelente! Trata-se de um banho de informação bem contextualizada e refinada argúcia, além de ironia e inteligência… E como nosso cinema anda carecendo de tudo isto! Acho que seria muito proveitoso pra o universo cinematográfico bahiano que esse cabra se dedicasse a análises mais numerosas de filmes. Considero o autor, enquanto produtor de textos de crítica de cinema, o mais destacado entre os tão escassos que a Bahia tem produzido desde Orlando Senna e Caetano Veloso – estamos falando de 5 décadas atrás.

  2. FATIMA AMORIM Says:

    Excelente, Pierry. Vi o filme e, de fato, é uma soma de clichês surrados e com olhar depreciativo sobre nossa cultura.

  3. Fábio Rocha Says:

    Concordo com Navarro…Pierry é o(a) CARA da verdadeira Crítica de Cinema….


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