Filmes feitos por amor ao Brasil

12/05/2011

Cineastas brasileiros apresentam seus filmes documentais em Madri

Por Ana Lorick, El Pais, | Madri.

Madri acolhe esta semana (06 a 15/05)  cineastas brasileiros que “propõem um novo paradigma da linguagem”, nas palavras do veterano diretor Geraldo Sarno (1938), que apresentou ao público espanhol, na segunda-feira, o documentário “Viramundo” (1964), ponto de inflexão na transformação do gênero documentário no Brasil. “Quando comecei não havia câmeras portáteis e capazes de gravar sons sincrônicos com a imagem. O documentário era outra coisa”, diz o diretor.

O Festival Internacional de Documentários – “Documenta Madrid 11″ – dedicou seis dias ao documentário brasileiro. Cinco diretores reuniram-se com a imprensa e refletiram sobre os processos de criação de suas obras e todos coincidem, direta ou indiretamente, que o caminho, a busca levam à transformação e como os personagens ou as histórias que retratam podem mudar definitivamente a idéia e o roteiro pré-estabelecidos.

É o que ocorre com “Andarilho”, de Cao Guimarães (1965), uma película sobre pessos que caminham, sobre a relação entre caminhar e pensar, sobre o movimento constante das coisas que não são fixas.  Ou com “A falta que me faz”, de Marília Rocha (1975), que encontrou as mulheres protagonistas de seu filme buscando documentação para fazer uma película sobre colecionadores de flores que, apesar de anos de investigação, acabou não fazendo. Mas o grupo de adolescentes da Serra do Espinhaço, que busca superar a solidão e encarar o futuro, inspirou-se para fazer o filme numa historia de despedidas e de transição.

A mesma coisa aconteceu com a jornalista Luciana Burlamaqui (1970), com o documentário Entre a Luz e a Sombra. Queria fazer um filme sobre violência, a partir da história da atriz Sophia Bisilliat, que dedicou sua vida para humanizar o sistema prisional. A diretora seguiu durante sete anos a atriz, dois rappers e um juiz que acreditam numa forma mais digna para reabilitar prisioneiros. Seus destinos se cruzam no Carandiru, maior presídio da América Latina.

A diretora insiste que sua tentativa de discutir a violência vivida num processo pessoal é tão importante quanto o assunto sobre o qual ela trabalhava. “Descobri que eu estava cheia de preconceitos”, afirma. “O trabalho do documentário é um trabalho solitário, a única manipulação que existe é aquela do olhas do autor”, diz a jornalista.

Flávia Castro (1965) apresentou Diário de uma busca, que parte da trágica morte de seu pai, o jornalista Celso Castro, de longa história de militância de esquerda, que foi encontrado morto em 1984 no apartamento de um ex-oficial nazi. A polícía falou em suicídio. A autora apresenta uma viagem no tempo e no espaço, sob a visão subjetiva da menina que viveu no exílio, a menina orfã.

Geraldo Sarno apresentou também Tudo isto me parece um sohno, sobre a vida do general Abreu e Lima, pernambucano que participou com Simon Bolívar das batalhas que libertaram a Colômbia, Venezuela e Perú da Coroa espanhola. “Queria fazer uma película de ficção, porém a empresa que financiou o filme queria um documentário. Isto me levou a fazer um documentário sobre a impossibilidade que eu tinha de fazer um documentário sobre este tema”. O filme une o processo de pesquisa histórica ao de investigação do fazer o próprio filme.

“Eu fiz o meu filme no Brasil, para o bem do Brasil, no entanto, tem sido mais visto no exterior do que no meu próprio país”, disse. Sarno afirmou que os partidos de esquerda no Brasil “não incluem a questão da imagem, do audiovisual. Nós não temos nenhuma verdadeira televisão pública. A que existe hoje persegue a linguagem da televisão comercial e isso é um desastre total, não há como competir.”

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