Os deuses errantes numa dessas esquinas

14/05/2011

Por Nilson Galvão

Um: olhos esbugalhados, expressão tensa, barba e cabelos negros encaracolados, invariavelmente em silêncio. Outro: expressão leve de traços delicados emoldurados por longos e lisos cabelos castanhos, barba idem, jeito falastrão dizendo coisa com coisa e expondo, sempre, a boca banguela a tornar ainda mais abobada a sua cara. Sempre juntos, sempre dopados de um jeito ou de outro. Aqui, na cidadezinha qualquer, muita pinga na falta de drogas mais legais.

Pés descalços, calças e camisetas em frangalhos. Os dois perdidos por aí, nem eles lembram mais desde quando. Quanto tempo é o bastante pra se abrir mão de sapatos, sandálias pelo menos? Pra deixar de lado a mochila com uma muda de roupa? Pra deixar de escovar os dentes e renunciar a um diálogo inteligível com as pessoas, com o próprio companheiro de viagem? Depois de quanto tempo, coisa rara até em casais, se pode abrir mão de frases lineares, tipo 2 + 2 = 4, pra se fazer entender pelo outro?

Com certeza não foram os primeiros a ganhar o mundo, isso até já devia ter perdido o sentido original de coisa revolucionária quando eles saíram de casa. Mas eles fizeram isso e nunca mais olharam pra trás. Não decidiram virar monges nem tampouco santos hindus. Era pra fazer aquilo, atender ao chamado e eles foram. No começo havia mais gente como eles, como se fosse uma marcha inexorável e todos estivessem fadados a largar as preocupações mesquinhas, os cinco mil anos de hipocrisia, e entrar no ritmo das estrelas e da natureza.

Muitos daqueles errantes voltaram para a companhia dos lobos, toparam se habilitar de novo a serem lobos de outros homens. Alguns ficaram totalmente caretas, como se nunca tivessem experimentado aquela espécie de errância ritual. Outros mantiveram o verniz, o estilo das roupas, dos cabelos, a atitude, o hábito de celebrar a rebeldia com doses mais ou menos racionais de sexo, drogas, rock’n’roll.

Parte desses peregrinos aprendeu a negociar para eles um lugar no meio da confusão: como uma tribo numa terra estrangeira, a andar em bandos e fixar pontos de referência para onde se pode ir no intervalo entre as andanças. Como se fossem duendes, caiporas, elementais, enfim, a escolha recaindo sempre em cenários naturais, paradisíacos. Sem mais aquela de mudar o mundo: a porra desse mundo não muda assim, e se não tomarmos cuidado ele muda a gente, ou melhor, traz a gente de volta pra velha cansada prostituída Babilônia.

Em casos extremos, a barreira da sanidade foi ultrapassada, e graças à demência já não houve como sequer pensar em dividir o mundo entre nós e eles, o mundo ganhou um aspecto gelatinoso demais pra fazer sentido.

Os dois vagabundos na cidadezinha ficaram a meio caminho entre os bandos em diáspora e os de miolos fundidos. Resistiram, permaneceram na estrada, mas aparentemente sem contato com os seus iguais, com as ideias e mecanismos capazes de fazer uma pessoa se orgulhar de suas escolhas. Perderam as referências, mas não a ponto de renunciar de todo a certas fixações, tipo andar por aí, de cidade em cidade, e fazer artesanato pra sobreviver, e falar gírias de um tempo tão distante.

Como numa cena de cinema, os dois caminham por uma rua comprida de paralelepípedo.  É surpreendente pensar no quanto estão inteiros depois de todos esses anos, se forem relevados os dentes a menos. Sem mais ideias ou sapatos a apertar os pés, caminhando para onde apontam seus narizes. Um circunspecto, outro beatífico. Invisíveis para os transeuntes, como só os mendigos, os proscritos ou os viajantes do tempo.

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* Enquanto busca cronópios, Nilson Galvão também faz poesia no Blag.
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5 Respostas to “Os deuses errantes numa dessas esquinas”

  1. Katia Regina Borges Says:

    Nilson,

    A carga imagética desse belíssimo texto é tão impactante qto ele. Minha alma agradece!

  2. Paulo Galo Says:

    Que delícia de texto, Nilsão.

  3. Gabriela Rossi Says:

    Excelente! Desnuda a alma, tira a limpo a hiprocisia, com intesidade e coragem. Parabéns, Nilson.

  4. Berna Farias Says:

    Descobrindo, quase ritualmente (o texto nos leva a resgatar uma leitura ritual), a prosa poética de Nilson Galvão. Que bela!

  5. Nilson Says:

    Kátia, Paulo, Gabriela, Berna, grato, gratíssimo pelas palavras de incentivo. Desculpem o trocadilho irresistível: assim vocês me deixam todo prosa!


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