Traços do tempo do progresso

17/05/2011

Por Alberto Cordiviola, do Observatório da Copa Salvador 2014

Comparar os Jogos Olímpicos de Verão e a participação numa Copa do Mundo de futebol é tão problemático quanto comparar Barcelona e Salvador. Mas o fato de ter vivido “Barcelona’92”, e estar vivendo “Salvador 2014”, me anima a fazer alguns comentários a respeito.

Quando Marco Aurélio contou que na derrubada da Fonte Nova estava rodeado de pessoas aplaudindo e que se sentiu solitário nessa multidão de aprovação, lembrei do nosso sentimento em Barcelona 92.

Destaco dois aspectos vividos em Barcelona entre 1988 e 1992: 1 – a cidade em transformação; e 2 – a feliz expectativa das pessoas, enfatizando como os “Grandes Eventos Urbanos” fazem parte de um sistema de inserção da população no tempo linear do poder hegemônico.

Selecionei um pequeno filme divulgado em Barcelona com a certeza de que veremos filmes semelhantes daqui a três anos no Brasil. http://www.youtube.com/watch?v=FfwauvXvc-E E ele, como podem ver, começa com uma demolição, tal qual a Fonte Nova começou a “materializar” a nossa Copa. http://www.youtube.com/watch?v=ZgvHQCifcc4

Por que a demolição? Porque torna o oráculo irreversível. O desígnio do poder está lançado e contamina tudo e todos. Até nós, neste Observatório da Copa. Tudo gira, agora, em torno de um futuro obrigatório. É evidente que serão as empreiteiras a tirar o maior proveito de tudo que se fizer – e se deixar fazer – durante os trabalhos da Copa. Como também serão os políticos a tirar o maior proveito de tudo que se fizer e se deixar fazer.

Mas, o que é certo, é que a maioria absoluta dos baianos sentirá, desde já, a satisfação de estar participando de um Grande Evento Urbano na escala mundial. Eventos que não estão inscritos, exclusivamente, nas conveniências das grandes empreiteiras nem na propaganda política – embora sejam largamente utilizados por ambos – mas que pertencem a uma estrutura sistêmica da nossa sociedade: o Tempo do Progresso.

O TEMPO DO PROGRESSO

Vivemos numa simultaneidade improvável num espaço único igualmente quimérico. Sua compreensão depende de estruturas construídas ao longo de toda uma civilização. Chamemos essa civilização de “ocidental”, “européia” ou “judaico-cristã”.

Nosso tempo é um conceito de alto teor de síntese, de síntese socialmente construída. E, apesar das evidências, linear e homogêneo. Manter vivo este conceito é substancial para manter vivo o sistema social que o impõe: a sociedade do progresso. Não a “sociedade capitalista”, mas a sociedade do progresso. O capitalismo é apenas a fase atual da sociedade do progresso.

Falei de civilização “ocidental” ou “judaico-cristã”, difíceis de incluir, nas suas origens, na da sociedade do progresso. Mas podemos fazer a operação inversa: incorporar a sociedade do progresso na civilização judaico-cristã.

Bury[1], identifica que a superação do conceito cíclico do tempo, próprio das sociedades “primitivas”, foi fundamental para o surgimento da idéia do progresso. A idéia do progresso necessita de um tempo linear. Tempo linear que se inaugura com a idéia da Criação até o Juízo Final, ou a chegada do Messias.

O progresso é impossível sem a idéia de existência de um futuro não cíclico. Futuro que, para existir, deve ser conhecido. Ou em palavras de Santo Agostinho:

“(…) Quiçá seria mais exato dizer que os três tempos são: o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes e o presente das coisas futuras. (…). O presente das coisas passadas é a memória. O presente das coisas presentes é a visão. E o presente das coisas futuras é a espera.”

Exemplificando com uma canção: o que já cantei é o passado, o que estou cantando é o presente e o que falta cantar é o futuro. Para isto é necessário conhecer a letra da canção. É o tempo da Divina Providência, cujo futuro nos é revelado pelos profetas.

Esta concepção de tempo sobrevive à fé religiosa e se perpetua na sociedade laica mediante a fé no progresso, agora científico, social, histórico. A atualidade é melhor do que o passado e o futuro é a projeção dessa melhoria. O juízo final e a redenção dão lugar a um futuro cada vez melhor.

A profecia é substituída pelo “plano”; seu profeta: o Estado. Necessita-se do grande relógio e do grande calendário deste tempo, com prognósticos e efemérides. É neles que se situam os Grandes Eventos Urbanos[2].

OS GRANDES EVENTOS URBANOS

Benjamin notou para sempre que as Exposições Universais são lugares de peregrinação ao fetiche mercadoria:

“As exposições universais idealizam o valor de troca das mercadorias. Criam um quadro no qual seu valor de uso passa para o segundo plano. Inauguram uma fantasmagoria a que o homem se entrega para divertir-se. A indústria de entretenimento facilita isso elevando-o ao nível da mercadoria. Ele se abandona às suas manipulações ao desfrutar a sua própria alienação e a dos outros. – A entronização da mercadoria e o brilho da distração que a cerca é o tema secreto da arte de Grandville.” [3]

As exposições universais inundaram o século XIX e ingressaram triunfantes no século XX. Foram-se transformando e, à medida que a indústria do entretenimento se consolidou, explodiram em dezenas de grandes eventos em que o valor de troca dispensa o valor de uso: as competições de todo tipo, mercadoria que é puro valor de troca.

Cidades e países disputam o privilégio de abrigar estes eventos protagonizando durante todo o período da expectativa um papel de destaque universal. Para isto se engalanam com seus melhores esforços e vivem seu momento de glória durante toda a preparação.

BARCELONA 92

Barcelona entregou-se de corpo e alma a esta festa adiantada. O surpreendente crescimento econômico do país durante mais de uma década deu o fôlego necessário à empreitada. E o nacionalismo catalão, a vibração cidadã suficiente para transformar a cidade numa entidade mítica. Barcelona’92 foi mais que um slogan, foi uma devoção.

A cidade transformou-se, literalmente, num desfile de modas dos arquitetos famosos do “star system” da época.

Os argumentos “urbanísticos” para todas estas transformações foram os mesmos de sempre: a “visibilidade” e a “imagem” da cidade para o mundo, a infra-estrutura adequada a uma metrópole européia. Destaque-se a competência dos catalães na empreitada. Uma Barcelona NOVA que emoldura uma gloriosa história com a modernidade. Existe modelo mais perfeito de progresso?

Barcelona transformou-se em paradigma de desenho urbano e planejamento durante décadas e disseminou uma deletéria “barcelonização” pelo mundo afora.

E SALVADOR 2014?

Salvador 2014 não se transformará em paradigma de nada nem haverá uma “bahianização” de intervenções pelo mundo afora.

Falta-nos para isso protagonismo no evento da Copa, onde seremos sede secundária; faltam-nos recursos, nosso desempenho econômico é inferior ao da Espanha da época; e quanto à competência….

Sobra, no entanto, a voracidade das nossas empreiteiras e a desfaçatez dos políticos.

Mas, na construção de um mítico futuro somos mestres e temos larga experiência. A novíssima Bahia continuará a “construir o seu futuro sem destruir o seu passado”, como no slogan de Antônio Carlos Magalhães na década de 70.

Mal realizado, com custos exorbitantes, inacabado e desorganizado, com arquitetura e construção de péssima qualidade, deixando mais um esboço de transporte urbano a atrapalhar qualquer solução decente; reiterando o desrespeito ao cidadão, Salvador 2014 terá cumprido a sua missão: a de operador cultural da sociedade do progresso.

Durante anos de preparação o futuro se agiganta no cotidiano das pessoas. O oráculo apontando para umas medalhas ou jogos de futebol.

Ao fim, depois do oráculo cumprido, após a contagem das medalhas e as vitórias, terá finalizado este pedaço de futuro e sentiremos uma profunda melancolia, um vazio que tentaremos preencher com visitas “às obras”, com “replays” da tv ou do youtube, com filmes da “transformação de uma cidade”.

Mas, irremediavelmente, um vazio tomará conta de nós: a esse vazio insuportável chamamos liberdade.

[1] BURY, John. La Idea del Progreso. Madrid: Alianza Editorial. 1971
[2] Não são os únicos marcos do Tempo do Progresso, há os planos qüinqüenais, os planos urbanísticos. Mas o Grande Evento Urbano se apresenta muito mais evidente frente à população.
[3] BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte; São Paulo: Editora UFMG; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. 2007. p. 44. (Grandville ou as exposições universais).

Alberto Cordiviola é Arquiteto e Professor titular aposentado da FAUFBa. Conselheiro e Coordenador de Ensino do Instituto Brasileiro de Tecnologia do Habitat.

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