Sem limites pra sonhar

18/05/2011

Por Marcos Pierry
Quase nada pode ser dito com muita certeza sobre Mário José Breves Rodrigues Peixoto. Nos acostumamos a pensar assim, não obstante caminhar às dezenas o número de livros dedicados a ele e ao seu único filme realizado: Limite. A primeira projeção teria acontecido no Cinema Capitólio, Cinelândia, Rio de Janeiro, há exatos 80 anos, em 17 de maio de 1931. Ou teria sido, apontam outras fontes, em quatro de maio? E o próprio Mário, a quem se atribui 1908 como ano de nascimento, teria deflagrado a produção mal completara os 18 ou somente após 20 anos?

O diretor nasceu na zona norte carioca ou na Bélgica? Teria logrado o êxito duradouro que acompanha o filme sem as fundamentais participações do fotógrafo Edgar Brasil, os amigos Raul Schnoor e Brutus Pedreira, o produtor Adhemar Gonzaga, o cineasta Humberto Mauro, o crítico Octávio de Faria e a atriz Carmen Santos? Limite foi visto e elogiado por Eisenstein, Graham Greene, Scorsese, Orson Welles e David Bowie? A revisão crítica de Glauber teria mesmo detonado o filme sem o baiano tê-lo assistido? A recuperação de seus negativos permanece realmente inconclusa após inexplicáveis cinco décadas de tentativas?

Parole, parole, somente palavras. A elas, o saudável contrabando de imagens da internet responde com o filme a ser baixado na íntegra e de graça, ou um DVD pela oferta de 25 reais. Somos tomados, ao vê-lo, pelo impacto, o descentramento, as imagens chacoalhando na mente, o córtex decidindo se persegue o fiapo de história a ser reconstituída ou se cede à estesia, ao domínio do reptiliano. Seus 120 minutos de imagens são em filme 35mm branco e preto, mas como brilham, reluzem em sobretons e fazem a retina palpitar! O pancromatismo altamente sensível para as escalas de cinza era inédito por aqui. Edgar Brasil operou diferentes tipos de câmeras e se antecipou ao steadycam com uma singela estrutura de madeira.

A sinopse de Limite informa a errância em alto mar de três náufragos (Mulher No. 1, Mulher No. 2 e Homem No. 1) em um pequeno barco. O improvável enredo traz, por meio do flashback, os fatos que antecedem a condição adversa a unir os três. Alguém ali fugiu da cadeia, alguém amou errado, alguém cometeu um crime. Pouco importa, a própria sintaxe forjada a partir dos elementos da representação cinematográfica despreza esses ganchos dramáticos e busca outros níveis de envolvimento. O olho clínico do analista especializado vê influência e diálogo com nomes da plêiade vanguardista da época, de Eisenstein a Flaherty, de Dovjenko a Man Ray, de Dulac a Epstein; com a ocorrência de um Satie na banda sonora.

Há, de fato, uma prática formalista a presidir a narrativa – e Peixoto tinha morado em Londres e circulado por Paris. Mas não se pode dizer que esse exercício sacrifica a expressão de sentimentos e lirismo. Pelo contrário, toda a intenção com o regime de planos, justapostos em perfeito equilíbrio com um timeline rigoroso da trilha musical de franca melancolia, único áudio a ser ouvido, conduz a uma manifestação limpa que expõe a fatalidade da vida como destino apenas, e não como tragédia.

Em quadro, somente uma tesoura em primeiro plano com o fundo preto; a depender de como se mostra o próximo objeto a integrar a cena, ela poderá render uma eficiente solução de continuidade, uma articulação de sentido (dramático, diegético, composicional). Fluência aqui é a palavra. A expressividade da montagem, dos enquadramentos e movimentos de câmera não deixa de ter relevo em nenhum momento, mas eclode transparente, sem a opacidade característica dos procedimentos reflexivos na arte de vanguarda.

Cercados de água, confinados no bote, os protagonistas jamais apelam ao melodrama. Provocam a sensação de executarem (e não de estarem submetidos a) a inércia, a paralisia, os olhares fixos que não buscam resgate, a assertividade na movimentação mínima e limitada dos corpos que não levará a nada. De modo a brotar do conjunto uma prospecção becketiana que dota o vazio de sentidos. Agora o horizonte continua ermo, torna-se porém fecundo. A natureza é selvagem, mas se constitui enquanto organismo erótico a conferir vida, em um possível rebatimento dramático de sua força e exuberância habilmente exploradas na plástica, de resto irretocável, de Edgar Brasil. Fluência volta a ser a palavra.

A precisão do fotógrafo, ao deter-se num galho, ao percorrer uma relva, ao compor o mar em simetria com as linhas do barco e o céu, aparece sob medida ao corte e ao ritmo de Mário Peixoto, ele mesmo o responsável pela montagem, gerando o duplo efeito de exasperação e recolhimento a quem se põe ante a tela. Estamos a um passo da filosofia, basta segurar a lágrima. O culto à beleza da forma, quando não estéril, tende a superar qualquer comiseração do drama humano.

Apesar de ambientado no bucolismo de Mangaratiba, litoral sul fluminense, fugindo, assim, ao recorrente aspecto urbano das sinfonias visuais em voga no período, Limite não perde o posto de nossa mais potente obra do gênero. Incomparável, como disse outro Mário (o de Andrade) ao seu deparar com os poemas do xará, um visionário febril que jamais voltaria a dirigir um filme, mas soube (e pôde) bancar o próprio sonho.

marcospierry@yahoo.com.br

Anúncios

3 Respostas to “Sem limites pra sonhar”

  1. Patrícia Santana Says:

    Também vale ver ‘Onde a terra acaba’, de Sérgio Machado…

  2. Valéria Says:

    Deu vontade de assistir!

  3. Hamilton Oliveira Says:

    Maravilha, Pierry!

    Num país sem memória, como o nosso, esse texto é uma grande homenagem ao belíssimo Limite. Quase nada foi publicado na imprensa para relembrar essa dada. E vc fez uma belíssima homenagem:

    “Somos tomados, ao vê-lo, pelo impacto, o descentramento, as imagens chacoalhando na mente, o córtex decidindo se persegue o fiapo de história a ser reconstituída ou se cede à estesia, ao domínio do reptiliano. Seus 120 minutos de imagens são em filme 35mm branco e preto, mas como brilham, reluzem em sobretons e fazem a retina palpitar!”.

    Talvez, a melhor síntese-descrição do filme, que eu já li. Mas sou suspeito…Limite é um dos meus “filmes de cabeceira”. Você é o responsável por eu ter parado tudo o que estava fazendo e assistir pela enésima vez o filme. E reler, pela enésima vez, o “scenario”, manuscrito, publicado pela Editora Sette Letras, em 1996. Obrigado.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: