Por mim tudo bem, desde que não seja obrigatório

19/05/2011

Por João Aslan

Há mais ou menos uns 15 anos perguntaram a um médico e político baiano chamado Ursicino Queiroz, hoje falecido, se seria contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A resposta saiu misturando simplicidade e ironia: “Eu não, desde que não seja obrigatório.”
Estou assistindo à divertida polêmica sobre o tal livro didático que “autoriza” a escrita de frases como “Os aluno está na biblioteca” e pensando em Ursicino. Será que escrever assim vai se tornar obrigatório? Um longo texto sem um deslize na concordância poderá, em breve, ser considerado pedante? Quem sabe?
A língua é viva, tudo bem, mas precisa se mexer tanto?

⬚⬚⬚

O humorista Bussunda foi o primeiro a perceber e registrar o nascimento, nas praias cariocas, de uma língua própria dos surfistas. Sua principal característica é dispensar o uso de consoantes. Exemplo: um grupo está contemplando o mar e um amigo chega agitado, falando alto. O que se diz? “Ê, ó o auê aí ô!”. Tradução: Você, que chegou fazendo confusão (ou “auê”), está nos incomodando!
Minha preocupação é apenas prática. No limite, muita liberalidade com a gramática pode tornar textos ininteligíveis.

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Lulu Montaigne, minha amiga, pegou pressão. Já disse que se escrever algo errado e aparecer um porreta qualquer apontando seu dedo acusador, vai reagir com energia. Não aceitará, nunca mais, ser vítima de preconceito lingüístico. Se a coisa apertar e ela deixar de pagar algum imposto, também não vai levar desaforo pra casa: preconceito tributário, a partir de agora, será inaceitável. E aquele gerentezinho de banco que anda ligando pra ela com ar de cobrador? Que vá com seu preconceito financeiro pra casa da p…

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A concordância subiu no telhado, mas a tirania continua incomodando crianças e adolescentes quando se trata de interpretação de textos. Minha filha me apresentou uma questão do vestibular. Quase poesia, subjetividade total. Mostrei a pergunta a meu pai, que estava ao meu lado. Não sei se aconteceu porque somos de diferentes gerações, mas é fato que cada um dos três interpretou o texto de um modo. Qual o certo? O autor, morto há décadas, jamais poderá esclarecer. Talvez nem ele soubesse dizer o que o professor acha que ele quis dizer. Mas vale a complexa e imprevisível interpretação do mestre, que precisa ser adivinhada pelos alunos.

4 Respostas para “Por mim tudo bem, desde que não seja obrigatório”

  1. Josias Pires Says:

    Esta ninguém pode desconhecer.

    Exposição “Menas – O certo do errado e o errado do certo”, curador Eduardo Calbucci, Museu da Língua Portuguesa, junho de 2010.

    http://mariafro.com.br/wordpress/2011/05/19/menas-norma-culta-menas-quero-ser-um-poliglota-em-minha-propria-lingua/

  2. Francisco Lessa Says:

    Joao Ubaldo, que nem de tirania gosta, ja escreveu que viu um texto seu numa questao de vestibular, e o proprio detentor da interpretacao autentica errou a questao, rs. Mas vestibular tambem ja praticamente nao e obrigatorio… PS: acentuacao no teclado do celular tambem parece proibida.

  3. Marco Aurélio Says:

    Di qui livro é qui cê tá falando, Jão?

  4. Paty Fontes Says:

    Através da linguística, aprendi que não há certo ou errado quando se trata da língua falada, pois o mais importante é que haja compreensão, entendimento e respeito aos dialetos, idioletos etc, etc, etc, contudo essa aceitação não deve implicar em abandono ou substituição da norma culta. O mais assustador talvez seja justificar a falta de concordância com a possibilidade de o falante sofrer preconceito lingüístico. É bem como escreveu, João: será que em pouco tempo o “escrachado” será aquele que fizer uso da norma padrão?

    Δ

    Através da teoria da Literatura aprendi que pedras são plumas e plumas são pedras, duro é saber diferenciar quando a pluma é pedra e quando a pedra é pluma…aí é que, muitas vezes, entra a tirania que comentou em direcionar a subjetividade para o caminho que o “mestre” acredita ser o certo.

    Tenho lido e gostado muito dos seus textos. Parabéns João!

    Abçs.


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