Mondo Cannes devora Von Trier

24/05/2011

Foto: blogs.diariodepernambuco.com.br

Por Marcos Pierry

Final dos anos 30. Orson Welles em depoimento à polícia e às câmeras: “estamos profundamente chocados e lamentamos muito as consequências da transmissão de ontem; eu não imaginava que fossem achar que era verdade, fiquei terrivelmente chocado quando fiquei sabendo o que causou”. Tentava o futuro diretor de Kane justificar a ainda hoje incrível pilhéria sobre um ataque extra-terrestre levando horror aos lares norte-americanos, que, à força de uma verossímil dramaturgia jornalística, conseguira emplacar nas ondas da CBS Radio em uma tarde de domingo.

Março de 74. Glauber Rocha em carta para Zuenir Ventura publicada pela revista Visão: “acho Delfim Netto burro, idem Roberto Campos. Chega de mistificação. Acho o General Golbery (chefe do Serviço Nacional de Informações) um gênio – o mais alto da raça ao lado do professor Darcy”. Tentava Glauber forjar um discurso de (e um ambiente) de aproximação entre o bloco político de esquerda e os militares, então no poder, que conduziria o país à (re)democratização.

Quarta-feira da semana passada. O dinamarquês Lars Von Trier em entrevista no Festival de Cannes: “entendo Hitler e sinto um pouco de compaixão por ele; é claro que gosto muito dos judeus, mas nem tanto porque os israelenses são um pé no saco”. A organização do festival expulsou Von Trier do evento e exigiu do cineasta uma retratação pública. “Peço desculpas sinceras, não sou antissemita ou racista, muito menos nazista”, declararia mais tarde o autor de Melancholia, filme que o levara ao festival este ano.

Mas então o estrago já estava feito, deixando cicatrizes de incidente diplomático em um festival que é vitrine de tudo o que os festivais de cinema representam hoje no mundo, inclusive o desgaste dos próprios festivais. Cannes há tempos anda longe da sanha engajada de um maio de 68, quando um cineasta do porte de François Truffaut retirava um filme seu de competição como protesto à política cultural do Malraux ministro. Quem mais poderia reunir glamour e militância do que Truffaut naquela época? Os tempos, porém, são outros.

A ousadia de exibir e premiar um Taxi Driver (76) ou um Pulp Fiction (94) parece ter aberto, por outro lado, um caminho sem volta para o tapetão hollywoodiano na croisette. A Palma de Ouro 2011 foi para A Árvore da Vida, de Terence Mallick, e o prêmio de direção, para o também dinamarquês formatado nos EUA Nicolas Winding Refn (pelo longa Drive), a quem Von Trier mandou se f…. após suas infelizes declarações. Detalhe: o pai de Refn é montador e parceiro de Von Trier.

O seu Melancholia faturou apenas o prêmio de melhor atriz (para Kirsten Dunst), o que equivale dizer que Von Trier, nome dos mais cotados no cinema autoral contemporâneo desde o tocante Ondas do Destino (96), permanece estacionado na cotação de Cannes. Charlotte Gainsbourg levou a mesma estatueta há dois anos pela atuação em Anticristo, filme anterior do diretor, vencedor da Palma de Ouro no ano 2000 por Dançando no Escuro. Fica chato argumentar a partir da contabilidade de troféus – afinal, um festival não deve ser resumido ao destino de seus prêmios. Mas o fato é que as duas láureas principais, a concluir pelas resenhas, garante um belo dois a zero à estética comercial dominante na peleja dos cinemas nacionais contra Hollywood. A conferir.

A gafe do cineasta, que sugeriu ter sido irônico ao responder a uma pergunta sobre suas origens alemãs, falou bem mais alto que os possíveis desajustes da seleção e do júri presidido por Robert De Niro, o Travis Bickle de Taxi Driver. De qualquer modo, a punição dada a Von Trier reflete uma vez mais as incongruências do festival. Ao manter seu filme em competição e bani-lo do palácio, optou-se por censurar a pessoa e respeitar a obra? Mas ele não pediu desculpas logo em seguida, afirmando tratar-se de um mal-entendido? E se a entrevista fosse concedida fora dos domínios de Cannes? Von Trier poderia, então, desfilar no recinto com o seu fuck tatuado nos desdos?

Faltou também ao diretor, por interesse também comerciais, aposto, a coragem de se retirar levando o seu filme. As coisas se acomodaram em um improdutivo ponto morto, com um prêmio de melhor atriz que, malgrado a importância e tal, não dá camisa a ninguém. Alguém se lembra de Sandra Corveloni, que ganhou o mesmo prêmio por Linha de Passe (98), de Walter Salles? Quando Rubens Ewald Filho, presidente do júri de Gramado 2004, declarou que os kikitos atribuídos a Filhas do Vento o foram por comiseração à causa negra, o diretor Joel Zito Araújo e equipe devolveram os oitos troféus que haviam ganhado.

Paul McCartney pergunta em When I’m Sixty Four: “você ainda vai precisar de mim? Me dará comida?”. Se o festival, que completa 64 em 2011, fizesse a mesma pergunta, a melhor resposta seria um cartão vermelho a Von Trier e um amarelo do mesmo tamanho a Cannes. Voltemos a Welles: “quem tentou fazer isso em outros países, foi preso; eu consegui um contrato em Hollywood”. E Glauber:quando dei aquela declaração, achei que estava declarando o óbvio”, avaliou o realizador de Terra em Transe, que nunca convenceu a opinião pública de que não havia pirado e que acabou se marginalizando ainda mais a partir do episódio da revista.


Marcos Pierry é jornalista, professor e crítico de Cinema

marcospierry@yahoo.com.br

Anúncios

2 Respostas to “Mondo Cannes devora Von Trier”


  1. Mais um vez, é um prazer ler um texto tão bem urdido e leve ao mesmo tempo. O ponto nevrálgico que vc tocou tão bem;
    Pisou feio na bola o festival quando puniu Lars. Nazista ou irresponsável, o cineasta é maior de idade – e bem premiado no festival – para arcar com as consequencias de suas palavras.

    abrc

    Araripe

  2. Fábio Rocha Says:

    CONCORDO COM ARARIPE….gafe ou não….o FESTIVAL parece tratar com criança….vigiar e punir….não chegue perto do hotel…..não volte mais aqui..vou falar com sua mamãe……na hora do debate…chamar o cara pra xinxa…..perde-se a oportunidade de violentar ainda mais com a exposição da doxa…..cada um que enterre seus mortos….

    O ÓBVIO: EXCELENTE TEXTO PIERRY


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: