Sua majestade, a Rural!

24/05/2011

Por  Valdenberg Trindade

“A primeira Coca-Cola foi, me lembro bem agora, nas asas da Pan Air.” (trecho da música Conversando no Bar, de Milton Nascimento).

Sem querer copiar o genial compositor mineiro, tomei a primeira Coca-Cola, na verdade uma tubaína, numa empoeirada e lotada Rural. Mas vamos ao que interessa…

Até onde sei, a Rural, feiosa e inimiga da aerodinâmica, foi resultado do saldo tecnológico da Segunda Guerra Mundial. Um aperfeiçoamento mal ajambrado do Jeep e uma ideia esquisita que deu certo!

Nos Estados Unidos era chamada de Statio Wagon. Aqui no Brasil recebeu o sugestivo nome de Rural, fabricada pela Willys Overland, a partir de 1956. Depois, passou às mãos da Ford, que deixou de fabricá-la em 1977.

Não vou entrar em detalhes técnicos, pois disto nada entendo. Quero mesmo é recordar das muitas vezes em que viajei empoleirado numa vistosa Rural. São lembranças da barroca Rio de Contas, bela e orgulhosa cidade baiana, encravada na Chapada Diamantina.

É importante esclarecer que a Rural prestou um valioso serviço para integração entre as cidades do interior de todo o Brasil, desafiando as péssimas estradas e suprindo a carência do transporte público em zonas mais remotas. Por décadas a Rural resistiu bravamente, sendo depois substituída por ônibus, Kombis e pelas vans (aquelas caixetas sem o charme e sem a bossa da Rural).

Em Rio de Contas a Rural transportava gente para cidades e distritos mais próximos: Brumado, Livramento, Furna, Santo Antônio, Umbuzeiro, Casa de Telha, Rio da Caixa, Mato Grosso e Jussiape. Vez ou outra aconteciam jornadas maiores para Vitória da Conquista, Seabra ou Salvador. Alguns heróis chegaram a fretar Rurais para ir a São Paulo!

Fui algumas vezes com meu avô à fria Piatã na sua Rural vermelha e Branca. Também viajava com ele para Livramento, descambando pelas tortuosas curvas da Serra das Almas. Meu saudoso avô não era um mestre ao volante, mas inspirava muita confiança, mesmo rigorosamente calado e indiferente aos caronas.

Era tempo de estradões de terra vermelha e de muito cascalho. Quando chovia era um desespero, mas a Rural não se intimidava… Passava solene diante de caminhões, picapes e ônibus atolados nos barreiros.

Dentro da Rural existiam espaços distintos: o lugar do motorista (que, por autoridade, podia até mesmo fumar ou soltar gases tranquilamente); o banco do carona, ocupado geralmente por três pessoas (era o assento preferencial de mulheres prenhes e idosos); o banco traseiro, espaço amplo que acomodava um número infinito de pessoas; e o bagageiro, local para malotes, fardos, bichos domésticos e, mais recentemente para um botijão de gás.

Viajar colado à porta do banco de carona, com o braço na janela, era um privilégio, muitas vezes disputado a sopapos. As janelas do banco traseiro também eram cobiçadas. Viajantes sagazes argumentavam que vomitavam durante as viagens, com a sórdida intenção de ocupar o valioso espaço. Já o bagageiro podia ser adaptado para o chamado “galinheiro”, um assento de tábua para comportar passageiros extras e meninos.

Devido ao aperto no seu interior, a Rural era um espaço de convivência democrática. Assim, a interação acontecia na marra. A Rural levava de tudo: políticos, soldados, raparigas, mulheres direitas, gente pobre, gente rica, doentes, senhoras na hora de parir, doidos, bêbados e, em situações especiais, até defuntos.

A juventude farrista de Rio de Contas costumava fretar Rurais, nas sextas-feiras, para “descer” para Livramento, com a intenção de “pegar festas” e encher a cara de pinga. Lembro de um caso de uma destas caravanas etílicas, que, ao retornar a Rio de Contas, lá pela madrugada, deixou cair um bêbado da Rural, no meio da serra, sem que ninguém notasse. Felizmente a vítima sobreviveu…

Denominada lotação ou carro de praça, a imponente Rural tinha a pintura no padrão “camisa e saia”, com a parte inferior sempre em branco e parte superior em outra cor (azul, amarelo, cinza, verde, vermelho ou laranja). Seu teto branco lembrava as estrias da barriga de um jacaré.

O condutor da Rural era pessoa de prestígio nas comunidades da região. Na maioria das vezes sem documentos de habilitação, desfiava conversas intermináveis e envolventes durante as viagens. Alardeavam quaisquer temas: fuxicos de roubalheiras políticas, doenças de vizinho, menina que foi “tirar” o filho em Conquista, jovem tirada de casa, adultérios, previsões do tempo e até mesmo aconselhamentos médicos.

Destes motoristas, lembro de Carlim de Lai (figura boa praça e de boa prosa) e de Gilberto, um “ruralista” de Livramento, mascador de um interminável palito de dentes. Gilberto ficou famoso pela “papagaiada” da sua Rural, completamente adornada com espelhinhos, cordinha de periquitos plásticos, lampadinhas coloridas e aquelas mãozinhas de molas balouçantes.

Existiram muitos outros pilotos de Rural. Uns caladões, outros desaforados e alguns poucos chegados à “marvada”. Mas todos eram figuras que marcavam a rotina de Rio de Contas, timoneiros sempre disponíveis a transportar gente para todos os lugares, a qualquer hora do dia ou da noite (era só bater à porta de casa e acertar a viagem).

Das gloriosas Rurais ainda restam algumas poucas por aí. A maioria em frangalhos (queria ter dinheiro pra comprar um meia dúzia delas!). Mas tem gente que as conserva e até mesmo instala motores de Opala (um sacrilégio). Mas Rural é Rural, com aquele perfil de caixa de sapatos, volante com folga de duas voltas e muito, muito fascínio!

Valdenberg – Designer, cartunista, artista plástico e pesquisador cultural.

Veja mais no http://www.valdenberg.blogspot.com

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