Barcelona y El ’92: Animus e Regras

31/05/2011

Ânimos e Regras. Fragmento de cartaz da Festa de La Mercé 92 e esquema das operações urbanísticas de Barcelona 92

Por Xico Costa, do Observatório da Copa Salvador 2014 / FAAUFBA

Vista de forma esquemática, as operações olímpicas que estruturam a cidade de Barcelona são quatro: a Vila Olímpica, que veio ocupar uma parcela decadente e doentia do tecido urbano da cidade; o Anel Olímpico, que recupera para a cidade o parque urbano da montanha de Montjuich; a zona da Diagonal, que aproveita equipamentos esportivos existentes, como o estádio do Futebol Club Barcelona; e o Vale d’Ebron, que estende as operações urbanísticas aos limites de uma das áreas periféricas com mais demanda de infra-estrutura. Aproximando – ou articulando – estas áreas, uma infra-estrutura viária impressionante formada pela Ronda de d’Alt, que aparece hoje muito mais como uma grande costura de 40 km de vias e viadutos acompanhados de um impressionante legado de galerias técnicas. Esta costura, que articula bairros antes periféricos, também destrói em nome de uma cidade que se quer grande e competitiva; quer ser a capital do Mediterrâneo. Esta costura é, para alguns, a melhor obra arquitetônica de Barcelona 92.

Debaixo da poeira e mesclando-se aos ruídos das obras, os barceloneses demonstravam, através da fala e do semblante um grande orgulho de fazerem parte deste projeto olímpico… e os promotores se aproveitavam assim do grande orgulho que sentem os habitantes de serem barceloneses. Mas não podemos negar certo peso da história: os anos `80 foram um período de retomada de um projeto abortado pela Guerra Civil em 1939, quando as tropas do golpista Francisco Franco ganham, com ajuda da Alemanha nazista, a guerra que pôs fim ao sonho de modernidade que foi a II República Espanhola.

Tudo poderia parecer uma questão estratégica capaz de fazer convergir capacidade técnica, financeira e política na concretização de um grande projeto urbanístico que desse visibilidade a uma capacidade de redenção baseada numa energia vibrante e insistente e no estabelecimento de regras claras como fundamento para se fazerem as coisas.

No primeiro aspecto, a energia, o que chama a atenção é a forma como a sociedade – os moradores, mas também os técnicos e os políticos – na concordância, mas também na discordância, pareciam envolvidos com o projeto de cidade para o 92. Vejam que não estou aqui colocando em juízo os méritos e deméritos do projeto porque eles me parecem aqui menos relevantes para os propósitos que nos reúne.

O segundo aspecto diz respeito ao consenso: não havia consenso sobre o que fazer e como fazer, mas havia consenso em que era necessário fazer, enfrentar o compromisso assumido, e que a única maneira de concretizá-lo seria através do estabelecimento e cumprimento de regras claras de jogo.

Parece uma tonteira falar de estado de ânimo e de regras de jogo, mas nenhum compromisso pode ser alcançado sem os dois.

Ânimos

A questão dos ânimos diz respeito a algo que configura os grandes traços do plano; tem a ver com uma idéia de cidade que transcende o tempo; não é possível conseguir a cumplicidade de técnicos, políticos e da comunidade sem este estado de ânimo – ou como possamos chamar esta condição básica. Não se trata ainda de planos estratégicos, nem de planos diretores ou projetos específicos… nem mesmo de orgulho profissional, muito evidente na cidade. As realizações para a Barcelona `92 devem, ao meu ver, serem entendidas enquanto parte de uma estratégia de construção de País e como uma prática herdada pela realização de grandes eventos, como a Expo Universal 1888, a Expo Universal 1929, os Jogos Obreros de 1936, o Congresso Eucarístico Internacional de 1952, as Olimpíadas de 92, o Congresso da União Internacional de Arquitetos em 1996 e o Fórum Universal das Culturas de 2004, para citar os mais importantes.

A Expo 1888 foi realizada onde, no início do século XVIII, Filipe V de Borbón, rei da Espanha, havia construído uma fortaleza para manter a cidade sob seu controle. Era um odiado símbolo do poder central sobre a Catalunya. O estádio olímpico de Montjuïc, construído para a exposição universal de 1929 e onde seriam realizados os jogos republicanos de 1936, era uma referência triste da Guerra Civil Espanhola. O estádio foi o principal cenário dos Jogos Olímpicos de 1992 e recebeu o nome de Lluis Companys, em homenagem ao presidente da Catalunya fuzilado pelos franquistas em 1940, em suas proximidades. A Vila Olímpica dos jogos de 1992 foi construída numa área abandonada à especulação pela indústria, mas também no lugar da antiga prisão do Campo de la Bota, utilizada pelas tropas franquistas para o fuzilamento de 1.717 republicanos entre 1939 e 1952.

Pensando no significado social e político destas intervenções lembremos que Salvador há sido incapaz, até agora, de resgatar a nobre referência ao 2 de julho que levava seu aeroporto, e que a patética política de transporte público pode ter mais um exemplo de incompetência – além daqueles notórios 6 km de metrô que nunca funcionaram – e que seu VLT, ou que modalidade seja adotada na acanhada proposta viária, acabe ficando paralisado em meio a uma avenida, detido no meio do caminho por uma estátua e um ramo de flores.

Regras

Finalmente gostaria de abordar o segundo aspecto deste meu olhar sobre a Barcelona `92 e que diz respeito ao que chamei de regras.

No caso de Barcelona, vendo-se aqueles grandes eventos realizados a partir do final do século XIX, fica claro que esta parece ser uma estratégia para colocar em movimento mecanismos de especulação capitalistas, mas também formas de modernização da cidade. Sendo assim, o apoio aos grandes eventos seria uma espécie de regra a ser respeitada pela estrutura administrativa do Estado independente das correntes partidárias. Ou seja, a decisão por realizar o evento é parte de uma regra geral que determina a utilização de grandes eventos para impulsionar a modernização da cidade, entendendo-se modernização como um processo de atualização da cidade às reais necessidades de sua população. No âmbito mais específico, estas regras tratam de plano, de projeto urbanístico, de normas e especificidades de maneira que o capital oportunista, os profissionais incompetentes, as empresas desonestas e os políticos corruptos, não atropelem os interesses públicos.

Por fim, talvez devêssemos observar menos estes exemplos paradigmáticos da arquitetura mundial e procurar referências locais de ânimos e regras, como na maneira como se organizaram as escolas de samba no Rio de Janeiro para o carnaval 2011, depois de um espetacular incêndio.

Xico Costa – Arquiteto e urbanista, professor da Faculdade de Arquitetura da UFBA, onde coordena o Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Viveu em Barcelona entre 1988 e 2003, período em que se doutorou na Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona e trabalhou no Centro de Cultura Contemporánea de Barcelona.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: