Ser Quilombola e identidade de quilombos

09/06/2011

Por Alberto Freire *

Quilombola é o quê? A jornalista Jaqueline Barreto resolveu responder a esta instigante pergunta com o documentário Ser Quilombola. O filme expõe a realidade das comunidades de São Francisco do Paraguaçu e Porteiras, localizadas nos municípios de Cachoeira e Entre Rios, no Recôncavo baiano. Na terça-feira, dia 6 de junho, o vídeo foi lançado na Assembléia Legislativa da Bahia para uma platéia repleta de integrantes das localidades onde o filme foi rodado. Muitos deles exibiam o nervosismo e a ansiedade pelo instante mágico de se ver na tela pela primeira vez.

Ao longo dos 27 minutos, o filme aborda os vários aspectos que configuram a afirmação identitária dos descendentes de quilombolas. A produção se originou de um trabalho de conclusão do curso em jornalismo no ano de 2010, na Faculdade Social da Bahia, e o resultado ultrapassa os limites de um trabalho acadêmico. Diante da tela se sucedem depoimentos de remanescentes das comunidades, alternados com outros, de representantes da academia, como os historiadores Ubiratan Castro e João Reis. O diálogo fílmico entre essas duas realidades é muito bem costurado pela direção segura da jovem diretora Jaqueline, que faz sua estreia como se fosse o trabalho de gente grande por trás das câmeras.

Ela revela que sua motivação para o filme nasceu do desejo de “desmitificar os estigmas do significado de ser Quilombola, que vai além dos elementos mais visíveis como ser negro, o samba de roda, o pilão e a casa de farinha”. Estes sinais, associados à referência de comunidades paradas no tempo, contribuem para reafirmar uma visão equivocada da dinâmica social e cultural, que estão presentes na realidade cotidiana.

Com muita sutileza, o documentário discute temas que configuram a identidade Quilombola. Os depoimentos, as imagens e uma edição competente,  constroem reflexões sobre os laços de parentesco, a violência real e simbólica do racismo, e a complexa relação com a terra, que ultrapassa a posse do espaço físico e traz para discussão a transmissão da territorialidade como uma história de resistência étnica e cultural, numa sociedade que faz um trabalho secular de desconstrução da autoestima dos afrodescendentes.

Ao final do filme, Jaqueline Barreto consegue captar e expor na tela a força e a resistência dos Quilombolas de São Francisco do Paraguaçu e Porteiras, que reafirmam sua condição ancestral com o brado de resistência, “sou Quilombola”. O olhar firme para a câmera é como se mirassem novos tempos, uma nova escrita da história, memória e outros modos de vida, sem perder os vínculos com o passado. Após a estreia no espaço urbano, o documentário, a partir de agora, vai percorrer as comunidades remanescentes de quilombos na Bahia, para exibir o real significado e a força do que é Ser Quilombola.

Ficha Técnica:
Roteiro: Jaqueline Barreto e Mídiã Santana
Direção e Edição: Jaqueline Barreto
Produção: Deraldo Leal
Edição de imagens: Charles Del Rei e Sandro Lucena
Cinegrafistas: Edilson Lima e Paulo César

* Jornalista e doutor em Cultura e Sociedade (Ufba)

3 Respostas para “Ser Quilombola e identidade de quilombos”

  1. jaqueline barreto Says:

    A matéria ficou muito boa! Agradeço a atenção de vocês e importância dada a um assunto de extrema relevância para a sociedade contemporânea.Atenciosamnete, Jaqueline Barreto.

  2. Paty Fontes Says:

    Apesar de não ter assistido ao documentário, parabenizo Jaqueline pela iniciativa e a Alberto pela divulgação. Tenho certeza que quem assistiu ao vídeo teve a possibilidade de resgatar um pouco da cultura dos descendentes de quilombolas que vivem no Recôncavo, uma vez que essas comunidades costumam conservar muito das suas raízes, como o samba de roda, hábitos alimentares e ainda a linguagem dos seus antepassados. Acredito ainda que conhecer uma dessas comunidades seja muito interessante para estudiosos de diversas áreas pelo vasto material que, com certeza, encontrarão. Mais uma vez, parabéns aos envolvidos.

  3. ltleiro Says:

    Gostaria de entrar em contato com Jaqueline Barreto.


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