Eu e Brigite Bardô

20/06/2011

Por Nilson Galvão*

Começou por volta de 1978 e deve ter durado uns três ou quatro anos: um dia fiquei em dúvida se tinha de fato acordado ou, pelo contrário, se continuara dormindo, e tudo, conversas, acontecimentos, dores e alegrias, em conseqüência não passava de um sonho. Semanas, meses depois, minha cabeça de criança ainda se batia com a dúvida de vez em quando. Tanta coisa acontecendo, pessoas novas dando as caras e de repente podia ser tudo engodo. A realidade me esperava, congelada naquela manhã inalcançável na qual eu finalmente acordaria, e sequer me lembraria de grande parte das cenas vividas naquele enorme, gigantesco intervalo onírico, tão paradoxalmente concreto.

É verdade: foram anos assim, e não sou dado a delírios nem sou doido, pelo contrário vítima de uma espécie de atitude cerebral renitente, razão para minha total insensibilidade para estados perceptivos, experiências extra-sensoriais, quiçá espirituais. Uma cabeça muito ciosa de sua primazia sobre corpo, mente, espírito. Não necessariamente um cérebro privilegiado, genial, nada disso: mas uma cabeça pensando, maquinando, certa de estar fazendo isso por ser a fiadora desse indivíduo aqui, atenta aos descuidos capazes de levar o indivíduo pro beleléu.

Reformulando, talvez eu seja mesmo uma espécie de doido: presciente da insanidade virtual a ponto de entregar os controles ao jugo do cérebro para evitar qualquer recaída. Melhor ser uma porta em se tratando de intuições, essas coisas. Melhor ainda raciocinar cada segundo, fazer de cada segundo uma espécie de minucioso escrutínio sobre o presente, o passado, o futuro.

Mas de volta ao será-sonho, um dia deixei de pensar naquilo. Simples assim: talvez por conta da evidente fragilidade da hipótese de um sonho tão longo, tão rico e variado, multi-sensorial e capaz de inventar um número tão grande de histórias, pessoas, incidentes, novos e intransponíveis cálculos matemáticos na escola, novos amigos, enfim.

O diabo está exatamente nessa maneira negligente como tudo se deu. Não tendo resolvido as coisas num divã de psicanalista ou em qualquer outro escritório de terapias, é como se de fato tivesse recalcado essa incômoda suspeita. E se, como ensinam os especialistas nessas questões desde Freud, a pior solução é jogar os problemas pra debaixo do tapete, então a fragilidade do expediente poderá se revelar a qualquer momento.

Me preparo então para o dia de acordar com a suspeita rediviva, talvez enfim confirmada: terão sido décadas condensadas em uma só noite, num sonho apenas? E terei simplesmente inventado tudo isso, uma mulher e um filho queridos, um gato obcecado por destruir sofás, amigos poucos mas tão presentes, alguns já mortos, chorados, os meus pais ficando velhos cada vez mais velhos?

Terei inventado os fatos do mundo? Se não tinha ouvido falar de Beatles, do comunismo ou de Carlos Drummond de Andrade até os nove anos, então o mundo quando enfim acordar poderá ser muito, mas muito diferente. Nem Fernando Henrique Cardoso nem Luís Inácio Lula da Silva. O maior intelectual: Rui Barbosa. O maior artista, o inimitável: Roberto Carlos. O maior jogador de futebol da história: Zico. A marcha inexorável: a dos hippies, uns caras esfarrapados caminhando aos bandos como se aquilo fosse o futuro da humanidade.

A imagem da transgressão: Brigitte Bardot. Não a atriz da qual jamais tinha ouvido falar, mas a doidinha pelas ruas de minha infância, suja, desgrenhada, nua da cintura pra cima, irresistivelmente perturbadora, cantando, numa melodia indelével e com uma convicção a toda prova: “O meu nome é Brigite Bardô”.

 

Nilson Galvão é poeta e jornalista. Enquanto procura cronópios, faz poesia no Blag.

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