Ladrão de bicicleta

30/06/2011

Por João Aslan
Balançando uma pequena carta, o homem de blazer azul e cabelos cheios de gel gritava ao gerente:
– Acabou-se o respeito? Quem são vocês pra me expor assim diante de porteiros e faxineiros?
– Não estou entendendo o senhor.
– Ah, os burocratas agora são “desentendidos”? Constrangem uma pessoa como eu e agora ficam com essa cara de paisagem?
– Seja mais claro, por favor.
– Mandar essa correspondência pra mim? Pra mim? Eu sou “fulano de tal” e devo mais de 20 milhões nessa porra desse banco!
– Se o senhor deve, recebeu a carta justamente por isso.
– Pois fique sabendo que essa cartinha de merda é coisa que se manda pra devedor de prestação de bicicleta, não pra alguém como eu. Isso não vai ficar assim, seu insolente! Não vai ficar assim!
——————————————
Esse diálogo aconteceu de verdade na área de cobrança de um banco oficial, há mais ou menos uns quinze anos. Cartas de uma empresa de proteção ao crédito foram enviadas a todos os devedores,independentemente do tamanho dos débitos. Atitude correta, acredita você; desrespeito intolerável, pensou o grande inadimplente.
Aquela referência a porteiros e faxineiros, depois me explicaram, teria sido feita porque o magnata supunha que os empregados pobres de seu prédio de luxo já fossem conhecedores das cartas típicas de instituições de cobrança. Coisa de gente que compra bicicleta a prestação, nas palavras dele.
O ponto mais curioso dessa história, contada por um amigo que a acompanhou de perto, é a convicção de superioridade do devedor. Ele de fato acreditava, com toda “honestidade”, que tinha direito a tratamento vip, mesmo falido em circunstâncias suspeitíssimas.
A coisa é fantástica e parece até piada, mas uma reflexão cuidadosa sobre nossos dias pode surpreender. Há mais gente convicta de que tem direito a tratamento privilegiado do que se imagina, e pelas mais diversas razões. Por ser rico ou pobre ou negro ou branco ou jovem ou velho ou isso ou aquilo, todo mundo tende a se enxergar como membro de alguma minoria digna de atenção especial. Acho até que estamos vivendo a época das grandes minorias.
O problema é que para alguém ser vip é preciso que existam os não vips (seriam os ups – unimportant people?). Afinal, tratando-se de uma questão de posições relativas, a existência de seres com direito a tratamento privilegiado pressupõe sua colocação em uma escala onde, no outro extremo, há pessoas que não recebem atenção nenhuma.
Explicando melhor, não condeno o direito de um idoso de furar uma fila qualquer; o que não está certo é a própria fila existir, na maioria das vezes como fruto de descaso, público ou privado. Meu lema é: “Tratamento vip sim, para 100% da população!”
Pode até ser uma visão estranha, utópica mesmo, mas talvez o grau de civilização de uma sociedade devesse ser medido pelo tipo de expectativa das pessoas. Evolução máxima: todos sonham ingenuamente com igualdade, liberdade e respeito. Evolução mínima: a meta de cada indivíduo é conquistar privilégios, de preferência sustentados com algum dinheiro público, para ser, enfim, alguém “diferenciado”.

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4 Respostas to “Ladrão de bicicleta”

  1. Marco Aurélio Says:

    João,

    consulte o link abaixo:
    http://mazelasdojudiciario.blogspot.com/2010/01/soberba-juiza-diz-que-juiz-e-um-ser.html
    vá direto para a fundamentação, do entendimento do juiz.

    Marco Aurélio

  2. Lais Rizzo Says:

    João,

    Lendo o tema abordado por você, comecei a refletir sobre o assunto e concordo quando entende que 100% da população merece tratamento vip, mas acredito que a partir do momento em que a maioria mude sua atitude que é moldada no decorrer dos anos pela educação e cultura, e siga alguns princípios básicos de vida como a ética, a integridade, a responsabilidade, o respeito às leis e aos direitos dos cidadãos é que, acredito e espero, o que hoje consideramos utopia, possa fazer parte da nossa realidade.

  3. Paty Fontes Says:

    Mais do que hábito, acredito que faça parte da nossa cultura essa coisa do “se sentir…”. Em realidade, muito mais que utópica, é hipócrita a máxima da evolução e realíssima e, muitas vezes, vergonhosa a evolução mínima: todos buscam algum título, seja ele qual for desde que lhes garanta, em algum momento ou vários, a certeza da sua diferenciação e superioridade. É a velha história: o meu vizinho é primo do amigo do cunhado do tio de terceiro grau de fulano de tal, por isso, tenha muito cuidado, pois não sabe com quem está falando…rsrsrs.

  4. Katarina Lensk Says:

    João,

    A história é mesmo muito hilária e, ao mesmo tempo, reflete bem a mentalidade do brasileiro: infelizmente estamos no estágio de evolução mínima. E os escândalos que se sucedem sem fim no Planalto Central reafirmam essa dolorosa verdade. Não sonho com tratamento vip para 100% da população. Sei que é utopia. Estou condenada a viver e morrer entre os “ups”. Você fez uma bela e divertida abordagem do tema.


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