A Orla de Salvador entre o sonho e a realidade

06/07/2011
Do Observatório da Copa Salvador 2014 
Por Daniel J. Mellado Paz
Ali era o primitivo Morro do Cristo; abaixo, uma praia de banhos. O que fizemos com esse lugar?

Em Salvador a história tende a se repetir. E desde a primeira vez como farsa. Uma dessas repetições acontece em grandes obras públicas, num dueto entre o Poder Público e a imprensa, revelada pela leitura dos jornais ao longo das décadas. A Copa do Mundo em Salvador tem dado margens a uma nova repetição em linhas gerais, quando não em detalhes. O litoral atlântico da cidade pode ilustrar essa farsa.

Primeiro, peço que esqueçam a nossa “vocação praiana”. O uso recreativo do litoral de Salvador não é inato, mas seguiu, como as demais capitais costeiras do Brasil, um processo mundial. Salvador embarcou até mesmo com atraso, depois e mais vacilante do que o Rio de Janeiro, seu modelo até a primeira metade do séc. XX. Essa “vocação” foi descoberta pelos guias turísticos oficiais da cidade, a partir de 1937, quando as praias comparecem num cardápio eclético de razões para se visitar a Boa Terra. Naquele momento era mais uma intenção que um fato. A existência da matéria-prima, e não de um bem final e seu consumidor. Faltavam ainda os turistas. Para que eles viessem, nos tornamos o reverso de uma Terra da Promissão. Em vez de irmos a um lugar bem-aventurado, já estamos nele e o enfeitamos para pessoas em êxodo.

Nesse constante desejo de alguém por vir, situa-se o Projeto Orla. Realizado de 1984 a 1985 pelo Governo do Estado, foi, após as avenidas Oceânica e Otávio Mangabeira, a maior obra pública na Orla Atlântica de Salvador do séc. XX, com um conjunto de parques públicos com quadras e equipamentos de ginástica, calçadão e ciclofaixa da Pituba até Itapuã, ao longo de 10 quilômetros. Os jornais repetiram ao pé da letra os releases enviado pelo Governo. Ainda mais curiosa foi a total ausência de um projeto como nós, arquitetos e urbanistas, entendemos, sem plantas ou perspectivas de qualquer espécie, até a inauguração da obra. O que chamavam de projeto era apenas uma lista dos espaços e atividades desejadas, com constantes alterações. Situação similar acontecera no episódio do “Cemitério de Sucupira”, como repetiu-se logo depois no chamado Parque Aeroclube.

Mais grave, porém, era a conversão do turista hipotético num número inapelável, com estranhos cálculos. Estimavam que, aos primeiros três anos do projeto, o aumento de arrecadação com o crescimento da taxa média de permanência do turista em 0,2 dias ao ano, e o fluxo de 905.035 pessoas, os 6.738 empregos diretos e 26.000 indiretos previstos para 1990, justificaria o investimento. O orçamento da obra se transformava numa fatura a ser paga por um visitante futuro. Gostaria de ressaltar esse papel mágico dos números, ao substituir a realidade que visavam representar. Não espanta a falta de verificação empírica do cumprimento da profecia, ou pelo menos a sua difusão. Ao fim, ninguém soube se o bom freguês veio e pagou a conta, ou se ela foi creditada ao contribuinte.

Pior, a própria obra decepcionou. Projetos falados são incontestáveis porque contam com a colaboração da imaginação do ouvinte. Na falta de imagens, ela pode correr livre. A realidade é, nesse aspecto, sempre inexorável. Ela é o que está aí. Ademais, consumada a obra, a imprensa se dava conta que as objeções técnicas, eclipsadas pela euforia anterior, tinham razão de ser. A realidade é sempre inferior à fantasia.

Acredito que Salvador, mais do que outras cidades, vive sob uma falsa consciência de si mesma, dentro de uma espécie de sonho muito particular. Somente isso explica esse processo e sua repetição, apesar dos resultados infelizes. Essa falsa consciência se manifesta no litoral urbano de maneira singular. Enquanto no Rio de Janeiro o novo litoral urbano era a matéria-prima das canções e do bem-viver, na Bahia os seus artistas, desde Xavier Marques, elogiavam um litoral primitivo. Numa contradição insustentável, quanto mais a cidade crescia, mais se cantava sua feição arcaica, de saveiristas, jangadeiros e puxadas de rede, em coqueirais e praias de areia branca. Esse era, até bem pouco tempo, o nosso sonho feliz de litoral, apesar da urbanização crescente. E o que aconteceu?

A contradição implodiu, com a construção desmedida e de baixa qualidade. Por iniciativas de particulares, em ocupações regulares e irregulares, de moradias a hotéis e clubes sociais, estes com sanção legal, ainda que ad hoc. Talvez Itapuã seja o caso mais dramático, decepção para o visitante embalado nas canções de Caymmi e Vinicius de Moraes. O Poder Público foi parceiro na tarefa, com as vias beira-mar e suas sucessivas ampliações, a substituição do talude natural por contenções, e a urbanização constante das áreas verdes remanescentes, como os coqueirais de Piatã, da foz do Rio das Pedras e de Ondina, no antigo circo Toca do Segredo. Raras foram as iniciativas em contrário. O Projeto Orla foi um ápice daquilo que Ronan Cayres chama de visão equipamentosa do ambiente, a construção como única maneira de se pensar uma área pública.

Nisso, a imprensa manifestava um comportamento ciclotímico, alternando da fuga alucinada para idealizações ufanistas dos coqueirais de outrora à súbita percepção da sua franca destruição. Pois, sim, destruímos sistematicamente aquilo que dizemos amar. Não toleramos a cidade de nossos cartões-postais. Como as estrelas distantes, propagamos imagens do que já não somos, até sua completa extinção. Nesse momento, a fantasia se desloca para outro lugar. Notem que repentinamente deixamos de falar daquele litoral primitivo. Ele agora está em Arembepe, Jauá, e lugares que não são hoje exatamente primitivos. E o que resta das dunas na cidade? Em Armação resta uma faixa, antes assediada por invasões de baixa renda e o dejeto dos motéis e, agora, pelo surto imobiliário do bairro. Abaeté mingua. Que fim levarão?

No entanto, nessa marcha aparentemente irreversível, aparecem oportunidades. Os clubes sociais estão em franco declínio. Isso inclui suas sedes litorâneas. E o que estamos fazendo com elas? O Clube Costa Azul se tornou um parque público, de alguma qualidade. O mesmo não pode ser dito do Clube Português, talvez a pior obra do gênero nas últimas décadas. O Clube Espanhol nem esse fim teve: deu lugar a um empreendimento imobiliário, mais um dentre muitos edifícios residenciais da cidade. A questão não se esgota com o fato consumado. O que acontecerá à sede de praia do Esporte Clube Bahia?

Encerrando por ora, acredito que a Copa do Mundo pode e deve ser interpretada com base nas experiências anteriores desta cidade. E isso inclui esse insólito gap entre a auto-imagem do baiano e a realidade em que vive. O comportamento bipolar entre a euforia servil aos anúncios de obras que finalmente porão a cidade ao compasso do mundo civilizado e a depressão profunda com seus resultados mesquinhos. E a estranha obsessão que manifesta em depredar aquilo que faz de sua própria cidade um lugar bom e único.

Daniel J. Mellado Paz: Professor Assistente de Representação e Linguagem no Processo do Projeto de Arquitetura na Faculdade de Arquitetura da UFBA. Mestre pelo PPGAU-UFBA desde 2008, com dissertação sobre o uso e ocupação recente da orla atlântica de Salvador, e é doutorando desde 2009 no mesmo programa com tese sobre a história da ocupação do litoral de Salvador.

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Uma resposta to “A Orla de Salvador entre o sonho e a realidade”

  1. Neyde L Says:

    Excelente análise da trágica realidade urbana de Salvador!


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