Nicolelis e a sinfonia dos neurônios

06/07/2011

O próximo passo na trajetória do neurocientista Miguel Nicolelis será a construção da primeira prótese cortical, que visa restaurar a mobilidade de pessoas que sofrem as consequências da perda dos movimentos de membros superiores e inferiores. O projeto é do Grupo Internacional Andar de Novo, que reúne cientistas e universidades dos Estados Unidos, Alemanha, Brasil e Suiça.

A informação foi dada ontem à noite, em Salvador, por Nicolelis, durante palestra no palácio da Reitoria da UFBA, que estava completamente lotado para ouvir o cientista, um dos vinte mais influentes do mundo, segundo a revista Scientific American. O cientista afirmou também que estão em pesquisa os “simuladores virtuais”: usando impulsos elétricos captados do cérebro, controlam-se avatares de corpo inteiro; e controlam também entes robóticos que se movem segundo os impulsos do cérebro do paciente, como um “whole body exposed”, um corpo inteiro exposto.

O cientista começou afirmando que o cérebro e todo o sistema nervoso deveria ser assunto melhor compreendido por todos, pois tudo aquilo que o ser humano realiza emana do universo do cérebro, onde há tantos neurônios quanto galáxias no universo.

Nicolelis apresentou uma série de sons e imagens captados dos neurônios durantes as chamadas “tempestades de idéias”, quando o indivíduo está tomando decisões que resultam em movimentos/ações. Ele  passou dez anos estudando o comportamento de macacos com o uso de sensores implantados nos cérebros, que registram os sons – as tempestades elétricas –  produzidos pelos neurônios.

Nicolelis treinou uma macaca para jogar videogame com joystick e captou com os sensores no cérebro todas as emoções de centenas e centenas de partidas da macaca, que adquiriu um índice de vitória para mais de 90%. Os impulsos elétricos foram decodificados e transformados em movimento, ou seja,  os impulsos cerebrais e corporais da macaca foram a base para a criação de um braço robótico movido por esses impulsos e emoções da macaca!

Os sensores, a decodificação dos sons e sua transformação em movimentos são o que Miguel Nicolelis chama de “interface máquina-cérebro”, feita para entender como o sistema nervoso funciona.

Nicolelis e seus companheiros compreenderam e comprovoram no comportamento dos macacos que do cérebro do primata emana todas as tentativas de entender o mundo ao redor.  “Das tempestades cerebrais emerge a natureza humana”, afirmou.

O estudo dos sons, das variações sonoras no interior do cérebro permitiu aos cientistas conhecerem e decodificarem uma espécie de “sinfonia neural produzida pelos sons gerados durante a transformação da idéia em ação”, explica Nicolelis. Os sensores captam a sinfonia neural que se transforma em movimento e móveis robóticos.

“A prótese cortical ou neuroprótese vai levar os sinais das tempestades cerebrais, que são decodificados em programas matemáticos e transformados os desejos motores e as emoções do corpo visando um corpo artifical, robótico”, sintetizou.

Assim como todos os aparelhos inventados são extensões de sentidos humanos, também o braço robótico que aparece na pesquisa funciona como extensão do corpo da macaca. Os cientistas tiram o joystick das maos da macaca e obrigam-na sutilmente a jogar sem o joystick, porém movendo, pelas emoções, o braço artificial.

Um dos aspectos inovadores da pesquisa, segundo ele, é que durante 70 anos a análise da neurociência era feito a partir do estudo do comportamento de uma única célula/neurônio; enquanto que os experimentos de Nicolelis são feitos com cerca de uma centena e mais de neurônios. Explica que o cérebro funciona como uma sociedade de neurônios. Apesar de haver especialistas, todos eles são responsáveis por todas as áreas do cérebro.

Nicolelis afirma também que os estudos comprovam que o cérebro possui o que ele chamou de “ponto de vista, visão de mundo, que são testados continuamente”. Depois da aula-palestra, ocorreu o lançamento do livro “Muito além do nosso eu – A nova neurociências que une cérebros e máquinas e como ela pode midar nossas vidas” (Cia das letras).

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