Woody Cinderela Allen

11/07/2011

Por Nilson Galvão*
Cinema, claro, é outro galpão deste sítio – mas desde quando Woody Allen é cinema? Desde quando é possível classificar “Meia noite em Paris”? Desde quando se pode sair incólume do mundo paralelo onde nos metemos pelo tempo de projeção? E desde quando filmes voltaram a nos fazer sentir essa espécie de estado de suspensão? E os de Woody Allen em particular: desde quando?

Explico: desde sempre impliquei com um certo caráter, digamos, pouco cinematográfico dos filmes desse velho conhecido – pra mim o mais íntimo, talvez, dos  diretores, cujas obras tenho visto ano após ano desde meados da década de 80, quando me entendi por gente.

Não sei lhufas de cinema e a afirmação do parágrafo acima, claro, é antes de tudo um tremendo atestado da minha própria falta de simancol, e da falta de pulso dos editores desse Bahia na Rede, dispostos a aceitar esse tipo de coisa por aqui. Mas a vida é mesmo uma questão de escolher uma narrativa e estar disposto a bancá-la, como vai descobrir o protagonista da historinha fantástica de “Meia noite…”

Pouco cinema, sim, porque nos filmes de Allen é como se eu enxergasse antes de tudo o contista, sempre em busca do efeito literário no leitor, ops, espectador. Mas devo entrar em contradição logo de cara, uma atitude aliás saudável para quem se arvora a assinar uma coluna sem saber ao certo aonde quer chegar: sim, há cenas e seqüências belíssimas em quase  toda a sua vasta, caudalosa obra literária, ops, cinematográfica, e nesse agora não é diferente, novesfora as tomadas de cartão postal de Paris, mas incluídos evidentemente todos os ângulos felizes enquadrados com falsa displicência, suprema poesia dedicada à cidade arrebatadora.

E lá vai pelas ruas tortuosas o nosso singelo aspirante a escritor, sonhando com os anos 20 quando a cidade era como uma lâmpada a atrair os gênios de todos os quadrantes. De repente, qual Cinderela às avessas – sugestão sagaz de Emília –, após a meia noite Gil Pendler é tragado por um calhambeque novo em folha e vai parar numa festa onde se esbaldam Cole Porter, Scott e Zelda Fitzgerald. Logo haverá encontros com Hemingway, Picasso, Dali, Gertrude Stein, Buñuel, a materialização daquela época de ouro para embalar mais esse americano em Paris.

Não, nem perca tempo imaginando uma sucessão de caricaturas num roteiro chapado. Em certo sentido é mesmo uma sucessão de caricaturas, mas só lendo, ops, vendo o filme você terá a dimensão de como o velho Woody consegue fazer de uma ideia engenhosa – tributária, sim, de “A rosa púrpura do Cairo”, mas muito mais densa – um pequeno e brilhante tratado sobre a nostalgia, e sobre como só a mais escancarada fantasia pode nos salvar dos inúmeros desencontros reveladores de nossas vidas ordinárias.

Devo colocar o trecho “dos inúmeros desencontros reveladores” entre parêntesis ou suprimi-los no parágrafo anterior? Pra fazer justiça a “Meia noite em Paris”, talvez. Mas desde quando temos tanta certeza assim sobre nossas escolhas? Desde quando deixamos, nós os leitores, ops, espectadores, de ser como o desavisado detetive particular encarregado de espiar as viagens de Gil Pendler pelos tempos embaralhados da cidade simultânea?

* Nilson Galvão é poeta e jornalista. Enquanto procura cronópios, faz poesia no Blag.

2 Respostas para “Woody Cinderela Allen”

  1. Virgínia Says:

    Seu texto despertou a vontade adormecidade de ver o filme. Vou falar com Nino. Bjs

  2. Bípede falante Says:

    Meus nadas de patavinas juntam-se aos seus, que eu não entendo nada de nada, exceto que não entendo, o que me deixa bem a vontade para entender a meu modo e estender a minha liberdade até os limites do que me inquieta nas doze badaladas desse filme que é a chance de deixar de lado quem me aborrece para ir jogar conversa fora com quem me fascina.
    Beijoss


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