De boinas, desimportâncias e uma escolha difícil

07/09/2011

Foto: Iêda Marques http://www.iedamareques.com

Por Nilson Galvão

Boina, barba, casaco jeans. Um cara clichê naquelas paragens, claro: Chapada Diamantina, onde ainda se vivem os sonhos de outros tempos. Mas o tempo é circular, meu caro, disso você pode estar certo. Esqueça o eterno retorno, essas sofisticações, basta ir vivendo e vendo como ele se repete, se repete. O cara lá do outro lado do amplo salão da pizzaria é portanto um clichê e não é. O nosso amigo na mesa conta: ele foi guerrilheiro durante a ditadura, depois foi ser financista. Depois cansou simplesmente e um dia chegou ao vilarejo mágico pendurado no alto de uma montanha, no coração pedregoso da Bahia.

Então o nosso clichê-ou-não vem falar com o nosso amigo, um médico empolgado com o projeto em andamento de construir uma casa incrustada na rocha, nas bordas do povoado. Somos apresentados assim: um casal com queda pro apelo da vida na Chapada, potenciais
compradores, portanto, de um pequeno terreno ainda a preço razoável pra construir uma casa e também se refugiar ali pra fugir do caos urbano, do mundo cada vez mais louco essas coisas.

A reação não é exatamente amistosa. Nada de conversinha. O cara da boina, de fato, só nos dirige uma frase, mas uma frase lapidar inesquecível: – Aqui é preciso ter consciência da própria desimportância, ele diz. E, com a economia de gestos apropriada à cena, nos deixa ali, a nós e a nosso amigo animado com a casa dependurada na quina de um vale de rochas escarpadas.

Voltamos com isso na cabeça, não poderia ser diferente. A cena já tem mais de ano, e de vez em quando me lembro nitidamente da sentença. Não se trata do Dalai Lama, claro, nem de Nietszche ou qualquer outra sumidade no assunto, não há nenhuma evidência da autoridade filosófica ou religiosa daquele barbudo ex-guerrilheiro ex-financista. Mas a cena toda, o friozinho a atmosfera da Chapada o vinho a música o aspecto da figura o tom peremptório, tudo nos remete a profetas, sei lá, Moisés Maomé Maimônides. Somos  compelidos a encarar aquilo como um ensinamento, um vaticínio.

Nada mais óbvio, se você for pensar. Aí voltamos inclusive ao terreno dos clichês: somos nada diante da grande engrenagem do universo, certo? Mas as coisas nunca são simples assim, então meses depois conto a história a um amigo urbanóide e ele desconfiado me apresenta uma outra versão para o papo do barbudo, bem menos idílica, bem diversa do tom reverente do nosso contato original com o enunciado-boina. “Ele é importante e vocês não”, afirma o meu amigo sem religião e sem misticismo e sem essa nossa queda por epifanias.

Não há, evidentemente, como conciliar o profeta desprendido com a criatura ciosa do seu território. Pior é a dificuldade de tomar um partido. Afinal é imensamente mais bacana ter vivido uma espécie de revelação, seja ou não uma platitude. Mas também é legal constatar o
quão básico é o nosso jeito de lidar com as coisas, sempre humano, demasiado humano.

Mas a vida é um lugar-comum, e nem precisamos de mestres, filósofos ou gurus pra nos dizerem isso. Então resta, dessa história toda, um dilema. A) se o cara da boina é um sábio, devemos levar a sério a sua frase e, sim, é preciso ter consciência da própria desimportância. B)
Se o amigo cético está correto e o cara da boina é um tolo territorialista, por outro lado, aí sim, mais ainda precisamos levar a sério a sua frase incontornável: não se pode absolutamente abrir mão de ter consciência da própria desimportância.

Estabelecida a confusão, só você, leitor, pra dirimir a dúvida: e então, com qual das duas opções devemos ficar, A ou B? Por favor se manifeste: temos decisões prementes a tomar, e saber a verdade irá definir tudo a partir daí. Então nos tire desse estado de paralisia, e por favor responda, com a urgência possível. É a opção A, com todas as conseqüências a ela relacionadas, ou a B, e naturalmente as suas evidentes implicações? Não deixe de responder: precisamos urgentemente, desesperadamente, de uma resposta.

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Uma resposta to “De boinas, desimportâncias e uma escolha difícil”

  1. carmel Says:

    Recomendo o livro de Lula Afonso: Bye, Bye Babylônia.
    Tem tudo (quase) a ver com suas indagações.
    Grd abrç,
    ac


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