Canto da Praça: 9h30 às 12h30 deste domingo, no Largo de Nazaré

10/09/2011

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Impressões Exteriores

Por: Maya Manzi*

Há quase sete anos, todos domingos, de 9h às 12h30, o Grupo Cultural Canto da Praça bate ponto em Nazaré, levando chorinho e outras alegrias a este tradicional bairro de Salvador.

No último dia de julho, tive a oportunidade de assistir pela primeira vez a esse evento musical singular. Nascida no Canadá, mas brasileira de coração, me deixei comover por essa paradoxal alegria melancólica que caracteriza o Choro.

Antes de prosseguir meu relato dominical, recorro à sabedoria de botequim, ou melhor, ao google, para apresentar algumas notas sobre a história do choro. A elas.

Considerado como a primeira música popular urbana do Brasil, o Choro se inspira em músicas de origem europeia (schottische, tango, mazurka, valsa, e principalmente polca) e em ritmos e práticas provenientes da cultura afro-brasileira. Nasceu nas biroscas e nas festas de quintais dos grandes centros metropolitanos brasileiros por volta de 1870, depois da abolição do tráfico de escravos, quando surgiu uma nova classe média-baixa urbana composta por pequenos comerciantes e funcionários públicos, geralmente de ascendência africana. Esse gênero musical tem muita semelhança com o Jazz (embora o tenha precedido em cinquenta anos!), principalmente no virtuosismo e na importância da improvisação.

Pois muito bem.

Apesar de não ter uma relação histórica e culturalmente íntima com o Chorinho por não ter nascido nessa terra maravilhosa, pude compartilhar as emoções e imaginar as lembranças que este som aconchegante trazia ao público presente, formado essencialmente por pessoas idosas. (Aliás, o projeto é voltado especialmente para esta faixa etária). Consegui criar esse imaginário através do olhar brilhante e revelador dos participantes. Escavados por tantas imagens gravadas e sedimentadas ao longo duma larga vida, esses olhares profundos me falavam daqueles tempos. A vida ampla que aquelas pessoas compartilhavam no último domingo, lhes permitiam viajar com o som do Chorinho, em múltiplos lugares do passado, transcendendo espaço e tempo.

Refletindo sobre a condição dos idosos nos nossos tempos bárbaros, me permiti também transcender aquele contexto espacial e temporal para voltar à minha terra por alguns instantes. Canadense de nascimento, cresci numa sociedade onde as famílias são cada vez mais fragmentadas, onde os valores tradicionais de cuidado e apoio aos idosos não fazem mais parte duma consciência coletiva do cotidiano. Nas nossas sociedades de capitalismo avançado, onde o valor de um ser humano é principalmente determinado pela sua produtividade em termos econômicos, os idosos são sistematicamente desvalorizados, excluídos, discriminados por serem representados como um estorvo para o bom funcionamento e desenvolvimento da vida urbana.

Relegados às instituições para pessoas da terceira idade, muitos idosos no Canadá, como em vários países do Norte global, terminam a vida   presos num espaço que não escolheram, um espaço que não é deles. Passam os últimos momentos da vida numa grande solidão que o cuidado dos enfermeiros e trabalhadores sociais não consegue aliviar. Nessas sociedades desumanizadas, a maioria dos idosos enfrentam duas mortes; a da alma primeiro…

Geógrafa de formação, a minha consciência do espaço social produzido naquele domingo matinal também me fez pensar em Henri Lefebvre (1901-1991), filósofo e sociólogo marxista francês (importante inspirador do célebre geógrafo brasileiro Milton Santos), que escreveu sobre a produção do espaço e o direito à cidade. Ele concebia a cidade como uma obra na qual todos cidadãos participam. Criticava a sociedade burguesa capitalista que expropria o direito de certos indivíduos de participar dessa obra. O direito à cidade, como explica Lefebvre (1991) no livro do mesmo título, é o direito de uso dos espaços urbanos sem a dominação do mercado, como lugar de encontro e de troca que não sejam determinados pelo comércio e pelo lucro. Esse direito de apropriação (e não de propriedade) do espaço urbano se manifesta na necessidade de informação, de simbolismo, de imaginário, de criar e de brincar.

Nestes belos domingos, a cidade de Salvador, naquele momento e espaço particular, se transforma em uma obra. Uma obra na qual todos são incluídos e bem-vindos a participar. A praça pública do Jardim de Nazaré se torna efetivamente um lugar de encontro e trocas artísticas, simbólicas, criadoras e lúdicas. As pessoas da dita terceira idade ocupam orgulhosamente a praça pública. Elas se apropriam dum espaço urbano e transformam o lúgubre destino de tantas praças públicas num lugar de encantamento. É uma boa forma de combate, especialmente nestes tempos em que os shoppings se enchem de compradores sedentos e confusos e as praças públicas se esvaziam de vida. E este infeliz processo continua crescendo até mesmo numa cidade como Salvador, que é reconhecida pela sua riqueza sócio cultural.

Então, minha alegria maior foi ver e saber que há 7 anos, a cada domingo, o grupo Canto da Praça com o seu Chorinho encantador vem encher um dos espaços públicos de Salvador com música, dança, sorrisos, e lembranças. Nestes instantes, as pessoas podem ser cidadãos de Salvador com plena dignidade, com pleno direito a participar da obra. Eles mesmos criam a obra, uma obra deles, não feita para eles mas feita por eles. Um espaço com valor de uso, não com valor de troca mercantilista. Isto é uma das lições que nos ensina o Grupo Cultural Canto da Praça e seus leais frequentadores.

Neste domingo, eu vi tantos sorrisos naqueles rostos usados pelo tempo, e de nenhum deles emanava uma morte iminente. Ao contrário. A vida gritava poderosamente fora desses corpos cansados, arrebentando a praça duma energia pura e renovadora. Estes idosos eram muito mais vivos do que muitos de nós.

Ao final do evento, com a alma nutrida, os pés aquecidos, o coração leve e os ouvidos contentes, me acerquei de Euvaldo Carvalhal Britto, um dos fundadores e coordenadores do grupo Canto da Praça, para conhecer um pouco da historia do grupo. Eis o que ele compartilhou comigo:

Tudo começou quando eu (Prof. Universitário Euvaldo Carvalhal Britto) fui morar no Bairro de Nazaré e conheci, na Praça Conselheiro Almeida Couto, Jardim de Nazaré, no final de outubro 2004, o Dr. João Dias, morador antigo do bairro e advogado conhecido no ambiente forense como João “Bandola”, pela sua habilidade com o bandolim.

Uma semana depois desse encontro resolvemos tocar juntos pela primeira vez, eu tocando o violão e João o bandolim. Percebemos que havia entre nós dois uma boa afinidade de pensamentos e entrosamento musical. Então, surgiu a ideia de estabelecer os domingos, pela manhã, como o momento de encontro para tocar na praça, com os seguintes objetivos: diminuir o stress da semana, criar na Praça Conselheiro Almeida Couto – Jardim de Nazaré, um ambiente de entretenimento familiar, alegre, agradável, onde seus frequentadores pudessem ser presenteados ao escutar uma boa música, inteiramente grátis.

Assim sendo, em 03 de novembro de 2004 foi fundado por Euvaldo Carvalhal (violão) e João (bandolim) o Grupo Cultural Canto da Praça, de natureza filantrópica. Inicialmente os encontros passaram a ser de forma acústica, aos domingos, das 09:30 às 12:30, horário em harmonia com as atividades das igrejas, biblioteca, hospitais e aceito pelos moradores do logradouro. As apresentações iniciam com Hino do Senhor do Bonfim e são finalizadas com o mesmo hino e mais a Ave-Maria.

Em março de 2007, o Adm. Sr. Elivaldo Moradillo – “Mora” tornou-se o terceiro componente efetivo do grupo, contribuindo com voz e marcação no timbal. No mesmo ano, a quantidade de ouvintes já passava de 300 pessoas, tornando necessária a amplificação do som através de caixas acústicas. A iniciativa que antes começou como uma brincadeira se transformou aos poucos em um projeto social de entretenimento gratuito, especialmente para pessoas da terceira idade. O repertório basicamente formado dos gêneros Chorinho, Jovem Guarda, Sambas, Bossa Nova, Internacionais (das antigas), contribuíram para definir a faixa etária dos admiradores, muito embora, atualmente, uma parcela considerável de jovens esteja frequentando as apresentações.

Os organizadores do Grupo Cultural Canto da Praça, bancam financeiramente o projeto, que já possui marca registrada no INPI. Os músicos são voluntários. Pelo reconhecimento do trabalho social, a convite, o grupo tem se apresentado gratuitamente em outras atividades religiosas, educativas e filantrópicas do bairro, a exemplo das festividades da paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, programas culturais da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, do Colégio Salesiano, nas missas de Natal da Igreja Nossa Senhora Auxiliadora. Tem sido alvo de reportagens das emissoras de radio e TV, como exemplo de projeto social, pela conduta ética dos seus músicos e pela disciplina nas apresentações. Possui um Fã-Clube organizado, com mais de 90 fãs cadastrados.”

Em junho de 2009, a Sra. Eliete Dias Carvalhal Britto, assumiu a tarefa de Coordenadora de Eventos, ficando responsável pela apresentação visual, pela comunicação entre o grupo e seus admiradores, bem como acompanhamento social. No decorrer da história, outros músicos tiveram passagem pelo grupo, mas, permaneceram aqueles que aceitaram cumprir as orientações de conduta estabelecidas por seus coordenadores.

A Formação atual do Grupo Cultural Canto da Praça é a seguinte:
Coordenadores componentes : Euvaldo Carvalhal (violão 6 cordas), João Dias (cavaquinho), Elivaldo Moradillo (voz).
Coordenadora de Eventos: Eliete Britto.
Demais componentes: Antônio Rabelo (bandolim), Roberto Ribeiro(violão 7 cordas), Chico (violão 7 cordas), Maia (pandeiro), Roque (pandeiro), Roberto (maracas), Alexandre (voz), Edinho (timbal).

Em pé da esquerda para a direita: Roberto Ribeiro, Antônio Rabelo, Maia, Edinho, Roque, Chico e Roberto. Sentados, na mesma ordem: Moradillo (Môra), João Dias, Carvalhal e Eliete Britto. Alexandre não está na foto porque não pode comparecer no dia. A foto foi tirada no dia 03/11/2010, aniversário do grupo, com o traje de gala. Por esse motivo os coordenadores estão com o blusão branco e demais componentes de azul. As cores oficiais de apresentação do Canto da Praça, são o azul e branco.

PS: Gostaria de agradecer a Franciel Cruz, que me ajudou na edição deste texto.

* Doutoranda em Geografia
Clark University, Worcester, MA

Texto publicado no site  Bahia na Rede

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Uma resposta to “Canto da Praça: 9h30 às 12h30 deste domingo, no Largo de Nazaré”

  1. Mirian Says:

    Muito bom esse evento que aconteçe aos domingos na praça, é uma boa oportunidade para pessoas de todas as idades se conhencerem e se entrosarem, já fiz boas amizades lá, e espero fazer muito mais.


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