Jornada de Cinema: filmes debatem a ação de agrotóxicos

10/09/2011

Com 5,2 litros/ano por habitante,  o Brasil é o
país que mais consome agrotóxicos no mundo

Por Sandro Santana, do Jornal da Jornada

Ao longo de quatro décadas, a Jornada mantém seu compromisso enquanto trincheira de resistência e independência. Suas mostras, seminários, debates e exposições atualizam a cada ano essa tradição e afirmam a singularidade desse festival onde o cinema é o meio e a proposta por um mundo mais humano o fim. Em 2010 a Jornada apresentou como tema central “O Cinema na Defesa do Meio Ambiente”. Este ano, as palestras, debates e a exibição de filmes que transversalizam sua programação e tem como tema principal os agrotóxicos, esses “inimigos invisíveis” que cada vez mais são aceitos como “mal necessário” para o desenvolvimento econômico e o progresso nos chamados países emergentes. De acordo com dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Agrícola, mais de um milhão de toneladas de venenos foram jogados nas lavouras em 2010.

Na abertura da Jornada, às 19 horas da sexta-feira passada (9), no Cine Glauber Rocha, foi exibido pela primeira vez nas salas de cinema o filme “O Veneno está na mesa”, com a presença do diretor, o premiado documentarista e velho conhecido da Jornada Silvio Tendler. No dia seguinte, ocorreu outra estréia importante, o filme “O Veneno nosso de cada dia” (2011), da diretora francesa Marie-Monique Robin, também às 19 horas, no Cine Glauber Rocha. Antes da exibição, Robin, Tendler, João Paulo Stédile, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra  (MST), e o médico Fernando Hoisel compuseram uma Mesa na qual debateram sobre o tema com o público.

No domingo (11) será lançado oficialmente na Bahia a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, a partir das 15h, na Sala Walter da Silveira. O evento será gravado e exibido como programa especial pela TVE. O “Veneno nosso de cada dia” ainda terá uma segunda exibição no dia 13 de setembro, às 14 horas, na Sala Walter da Silveira.

Completando a “trilogia do veneno”, no dia 13 de setembro, às 20h, na Sala Walter da Silveira será exibido “Em Busca da terra sem veneno”, uma co-produção da Jornada de Cinema, do Clube de Cinema da Bahia e Imagine Filmes, dirigida por Noilton Nunes. O documentário de 15 minutos foi realizado a partir da conferência de João Pedro Stédile, na XXXVII Jornada, durante o simpósio “O Cinema em Defesa do Meio Ambiente”. O título é inspirado na eterna busca do povo guarani pela Terra sem Males.

O Veneno nosso de cada dia

Três anos depois do lançamento do livro e documentário que denuncia a ação da multinacional norte-americana Monsanto no ramo da indústria de organismos geneticamente modificados, Marie-Monique Robin volta às suas lentes para os agrotóxicos. “O Veneno nosso de cada dia” é um documentário investigativo que procura desvendar a ligação existente entre a contaminação da cadeia alimentar, substâncias químicas e as novas epidemias de doenças crônicas surgidas no mundo. A pesquisa revela não só a realidade cruel dos efeitos que pesticidas, aditivos, corantes e alimentos e embalagens têm sobre nós, como também as mentiras e maquiagens da indústria alimentar, as políticas oficiais e a falta de transparência de órgãos regulatórios que ignoram estudos científicos que denunciam estes problemas.

Em “O Veneno nosso de cada dia”, a documentarista alerta para o verdadeiro coquetel de produtos tóxicos que estão nos nossos pratos e para a necessidade de repensar a nossa alimentação diária.Todos os dias somos confrontados com três tipos de produtos tóxicos: pesticidas, os aditivos alimentares e o plástico das embalagens”, afirma a cineasta e aponta essa combinação como possível causa para as epidemias de câncer, disfunções reprodutivas e doenças neurológicas que se disseminam em países industrializados.

Outro ponto importante destacado pela diretora é a cumplicidade de cientistas e estudiosos ao manipular e camuflar resultados de pesquisas que não se coadunem com os interesses comerciais e políticos de empresas e governos que se beneficiam com a utilização de agrotóxicos. Segundo Robin, “Cientistas corruptos, estudos enviesados, conflitos de interesse entre industriais e políticos. O exemplo do aspartame (aditivo alimentar utilizado para substituir o açúcar comum) mostra como a indústria química manipulou as agências de regulamentação para comercializar os produtos perigosos”.

Marie-Monique Robin –Filha de pequenos agricultores, sempre dedicou o seu trabalho a questões ligadas a direitos humanos e agricultura. Jornalista, escritora e documentarista com diversos prêmios no currículo, Robin nunca se esquivou de temas polêmicos e inimigos poderosos. Em 1995, realizou “Ladrão de olhos”, documentário sobre o tráfico de órgãos, pelo qual recebeu o importante prêmio Albert London. Em 2004, causou frisson na Europa ao dirigir “Esquadrões da Morte: a escola francesa”, que trata da Operação Condor e denuncia táticas do sistema secreto francês e suas conexões com as ditaduras da América do Sul na década de 70. Publicou seis livros, entre eles “O Mundo segundo a Monsanto”, que vendeu mais de 80 mil exemplares na França e levou a escritora a analisar durante cinco anos mais de 500 mil páginas de documentos e a viajar à Grã-Bretanha, Estados Unidos, Índia, México, Brasil, Vietnã e Noruega. 

No documentário homônimo ao livro, exibido no Brasil pela primeira vez na Jornada de 2008, Robin chega a conclusões alarmantes em relação às atividades da Monsanto, líder mundial no ramo da indústria de transgênicos que responde por 90% dos Organismos Geneticamente Modificados (OGM) mundialmente cultivados, principalmente soja, milho, algodão e canola. Suborno de entidades sanitárias, contrabando de sementes transgênicas e manipulação de dados são apenas a “ponta do iceberg” detectado por Robin.

Segundo a documentarista, o mundo segundo a Monsanto é um mundo impregnado de pesticidas e mentiras. “Cerca de 70% dos alimentos geneticamente modificados são feitos para serem plantados com uso do agrotóxico Roundup. Ao comer um transgênico, a pessoa está praticamente ingerindo Roundup. E, ao contrário do que propagou a Monsanto, esse pesticida não é bom ao meio ambiente e muito menos biodegradável. Ele é muito tóxico. Tenho certeza de que nos próximos cinco anos ele vai ser proibido no mundo, tal como aconteceu com outro produto da companhia, o DDT”.

A diretora francesa ainda alerta para o poder de opressão e monopólio da empresa, que detém a patente de mais de 647 plantas, a maioria delas originárias da América do Sul, e mantém uma “polícia genética” que visita os campos, colhem amostras e exigem que os agricultores apresentem as notas fiscais de compra de sementes e herbicidas da Monsanto, e caso eles não as tenham, são processados. “O mundo segundo a Monsanto também é dominado por monoculturas. O que é um problema para a segurança alimentar, pois concentra a produção de alimentos na mão de poucos. Também considero arriscado deixar a alimentação mundial na mão de companhias que no passado produziam venenos e armas químicas, como o agente laranja despejado por tropas americanas no Vietnã”, alerta Robin.

O Veneno está na mesa

Segundo Silvio Tendler, a idéia do documentário surgiu a partir de uma conversa com Eduardo Galeano, quando o escritor uruguaio chamou a atenção para o fato de o Brasil ser o país que mais consome agrotóxicos no mundo. A assombrosa marca de consumo 5,2 litros/ano de agrotóxicos por habitante justificada por critérios economicistas, como observou Galeano, na América Latina se dá uma contradição porque governos com políticas progressistas, em nome da produtividade, “aceitam os agrotóxicos como se fossem uma necessidade inevitável”.

A importância do tema é tamanho que a proposta inicial era de um documentário de 26 minutos, mas ficou com 50 minutos e ainda tinha muito a ser dito. O filme foi realizado em parceria com a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, movida por diversas entidades. Formado por mais de 30 entidades da sociedade civil brasileira, movimentos sociais, entidades ambientalistas, estudantes, organizações ligadas a área da saúde e grupos de pesquisadores, a Campanha tem como principal objetivo conscientizar a sociedade sobre a ameaça que representam os agrotóxicos e denunciar e responsabilizar as empresas que produzem e comercializam agrotóxicos.

O filme nos mostra como nos alimentamos mal e perigosamente, consumindo herbicidas, fungicidas e pesticidas nocivos à saúde e proibidos em diversas partes do mundo, por conta de um modelo de agronegócios perverso e baseado estritamente em interesses econômicos. Para que o filme circule independente das salas de cinema e difunda essas informaçõespara o maior número possível de pessoas, está saindo com o selo “copie e distribua” e disponível para download gratuito na íntegra, através do site http://www.soltec.ufrj.br/index.php/noticias/149-o-veneno-esta-na-mesa, e não será vendido. “De cara você tem 20 mil cópias para serem distribuídas. E depois nós temos os estudantes, os movimentos sociais e sindicais, os professores. Vai ser uma discussão no Brasil”, conclui Tendler.

Temos que levar esse documentário para o Brasília, para a presidente República, para o Congresso, para o ministro da Agricultura, para o Ibama. Todo mundo tem que ver esse filme”, arremata o documentarista que assinou filmes sobre alguns dos mais importantes nomes da história recente do país, como Juscelino Kubitscheck, João Goulart, Carlos Marighela, Glauber Rocha e Milton Santos.

Depois das exibições e debates na Jornada, Marie-Monique Robin, Silvio Tendler e João Pedro Stédile se encontram, no dia 12 de setembro, no Rio de Janeiro, com a direção da Fiocruz, uma das entidades científicas mais sensíveis à problemática e uma das principais organizadoras da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida. No mesmo dia, às 20 horas, no Instituto Casa Grande, será exibido pela primeira vez em telas cariocas “O Veneno nosso de cada dia”, de Robin.  Veja a programação completa da Jornada aqui: http://www.jornadabahia.com/index.html

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