Cassino do Vladimir vai além da nostalgia ploc e revela uma geração

26/10/2011
Por Marcos Pierry*
Quem tinha 15, 17 ou uns 30 e poucos anos na década de 80 há de facilmente se identificar com os depoimentos e, mais ainda, as músicas que aparecem em Rock Brasília – Era de Ouro. O novo filme do documentarista paraibano Vladimir Carvalho põe o espectador na ante-sala de uma baita nostalgia, a superar com folga o repertório de qualquer festa ploc, no melhor sentido da expressão. Estão na tela, em generosas e reveladoras entrevistas, os heróis que colocaram a capital federal no mapa da música popular jovem brasileira: Renato Russo e sua Legião Urbana, Dinho e o Capital Inicial, Phillippe Seabra e a Plebe Rude, além de um carioquíssimo Paralamas do Sucesso, em fins dos 80, graciosamente reivindicando antepassados e filiações candangas.
Brasília foi mais naquele período e assumiu a dianteira de um gênero (o chamado rock Brasil ou BRock) que, sim, inundou o dial nos rincões de norte a sul e transcendeu, porém, as FMs e prateleiras para se converter no discurso, no comportamento, vá lá, no mais bem acabado modelo-e-síntese-de-experiência-de-uma-geração. Havia Blitz e Lagoa 66 no Rio, Titãs e Golpe de Estado em São Paulo, Camisa de Vênus e Elite Marginal em Salvador. Mas os caras de Brasília tinham um “negócio”, reconhece, em breve presença no documentário, Caetano Veloso.

Mesmo que o comentário do baiano se volte especificamente ao líder da Legião, ao relembrar a participação da banda de Renato no programa que o tropicalista dividia com Chico Buarque na Globo, podemos tomá-lo como uma espécie de moldura geral com que Vladimir Carvalho deseja nos conduzir por sua abordagem cinemática de um fenômeno, também mas não somente, musical. Menos pelo teor quase ingênuo das declarações, mais pela aparição do medalhão bacana a legitimar, a imagem de Caetano não deixa de dar um tom (que seja o de certa exaltação nos transcurso do doc, beirando o piegas mais adiante) e se instituir, em termos de mensagem no plano simbólico-ideológico, como linha de força a contrapontear as querelas de um general pijamão como o Newton Cruz. Essa é apenas uma forma de ver, mas ela remete a um nível da narrativa que confere indisfarçável tridimensionalidade à saga das super bandas do Planalto Central: trata-se do jogo de aproximações e relações internas entre fatos e aspectos relevantes da cena de Brasília que a geração coca-cola freqüentou e movimentou.

Grosso modo, eles idolatravam Lennon enquanto bomdardeavam Kissinger, de passagem pela cidade, com ovos. Dominaram os três acordes do punk rock – e toda uma cultura psicotrópica, é verdade – numa era pré emenda Dante de Oliveira. O lacrimogênio e as algemas podiam acontecer a qualquer momento na sede do governo de um país pobre, tenso e de indecisão democrática. Até aos campos de guerra tiveram de enviar um dos seus, o sul-africano André Pretorius, primeiro baterista da Legião Urbana. Trata-se de um contexto tão rico que Vladimir Carvalho não o retém na escala de pano de fundo, vide os exemplos do parágrafo anterior, todos elencados no filme sem uma vírgula de pedantismo, no compasso da sutileza e linearidade características do diretor.

E, mais que ebulição política, vamos encontrar no filme ainda o agito das artes tangente à ferveção roqueira de então: o flerte com o teatro no depoimento do encenador Jesus Pingo, a perfeita cine-tradução do movimento em filme Super-8 no relato do cineasta Jimi Figueiredo, a pixação como interdito aos próprios ídolos. E ainda a gestalt urbana do Distrito Federal, a rondar os olhos e ouvidos aqui e ali, ao longo dos 111 minutos, até explodir na emocionada hipérbole do vocalista do Capital relembrando um show para milhões no cenário da Esplanada dos Ministérios e outras edificações icônicas.
Personagens importantes e de estampa pouco conhecida do grande público também vêm à tona, como o produtor musical Mayrton Bahia, o arranjador Carlos Trilha e o jornalista José Emílio Rondeau. São presenças que mais uma vez materializam e, de algum modo, aguçam o sentimento de descoberta que o gênero documental precisa ter para se constituir.
A sangue frio, é fácil apontar em Rock Brasília uma ou outra divagação. Insistindo na análise, veremos que, longe disso, as eventuais sobras mantêm o filme vivo, trazem um quê de errático bem ao gosto dos gigantes da não-ficção – que podemos recuperar, por exemplo, em Ariano Suassuna no doc anterior do cineasta paraibano (O Engenho de Zé Lins).
Somente Vladimir, íntimo farejador da epiderme brasiliense há tempos (Barra 68, Conterrâneos Velhos de Guerra etc.), para abrir o microfone com tamanha generosidade àquela tchurma, de quem escorre um romantismo muitas vezes burguês, e ainda assim legar uma reflexão sobre a cidade, sua juventude, sua música, sua cultura. Se fosse somente um filme de rock, o fã-clube pediria menos familiares e exigiria mais bandas (o Raimundos tinha de estar ali). Mas, enquanto filme de geração, Carvalho vai seguramente para o trono, mesmo se arriscando em investidas quase inéditas em sua longa trajetória, como os inserts de imagens encenadas que pouco acrescentam.

* Crítico de Cinema

marcospierry@yahoo.com.br
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