Presente de Natal

04/12/2011

Por Edson Miranda, do Bahia Todo Dia

Um grupo de pais de classe média e classe média alta da cidade de Lauro de Freitas tomaram a corajosa decisão de matricular seus filhos numa escola pública do município, a escola Jovina Moreira Rosa. Ao verificarem que a instituição não teria condições de dar uma boa formação para as crianças, foram mais além: arregaçaram as mangas, não ficaram esperando resolver os graves problemas apenas através das já desgastadas reuniões de pais e mestre, e começaram a intervir concretamente na qualificação da escola e do ensino oferecido.Da experiência, criaram o MoVa-tE, Movimento de Valorização da Escola Pública, com o claro propósito de estender para todas as crianças das escolas públicas do município as conquistas e os avanços obtidos na escola Jovina e que não foram poucos ao longo do último ano.

Em parceria firmada com a Secretaria de Educação (Semed) desde outubro de 2010, o MoVa-tE levou à Jovina uma turma de educação infantil, aulas de artes, inglês, capoeira e música.

 

Logo após, criou um programa de capacitação para 20 professores da rede (incluindo as quatro da Jovina), e graças ao apoio de empresários instalou parque infantil, campo de futebol, mobiliário infantil, doou fogão e geladeira à escola.

Ainda não satisfeito, o grupo idealizou, projetou e viabilizou a construção de um pátio coberto e uma sala de aula extra. Bazar, mutirões de capinagem e para a construção de bancos e mesas de madeira foram organizados pelos pais.

Em pouco tempo os pais também descobriram que apesar dos seus esforços e dedicação, a direção da escola e parte do seu corpo funcional, acostumados à cultura do descompromisso com o que é público, não conseguiam acompanhar o novo momento e, assim, não o aproveitavam para o crescimento profissional e fortalecimento de todo o complexo sistema da educação pública.

O MoVa-tE procurou a Semed e a Prefeita do município, Moema Gramacho, que, diante da situação, resolveram fazer alterações nas rotinas administrativas e na direção da Jovina.

A partir desse momento em que resolveram meter a mão no vespeiro do corporativismo e realizar mudanças, a rica experiência educacional dos pais de Lauro de Freitas ganhou uma nova e diferente dimensão: começaram a ser questionados pelo sindicato dos professores locais, que somente agora compreenderam o valioso papel que eles desempenham, e  membros da direção afastada se rearticularam para voltar ao comando da escola e afirmar quem de fato exerce o “poder” no local.

Na última semana, aproveitaram as brechas e as contradições regimentais para as eleições de diretores nas escolas do município e emplacaram uma chapa única para a direção da Jovina. Usando de artimanhas condenadas em qualquer processo eleitoral sério e do fato de que a atual diretora, colocada no cargo a partir de uma negociação com os pais e associados do MoVa-tE, não podia concorrer, pois está há menos de seis meses no cargo, voltaram à direção da escola.

Os pais ainda fizeram um movimento de boicote à candidata única. Eles foram para o corpo a corpo no dia da eleição. Logo no raiar do dia, estavam na porta da escola dos seus filhos buscando democraticamente convencer os eleitores a não votar na única chapa inscrita para o processo.

Os pais não conseguiram lograr êxito na sua empreitada. A candidata única ganhou as eleições com 7 dos 7 votos dos funcionários (100%); 4 dos 5 votos dos educadores (80%); 23 dos 52 votos dos pais (44%) e 2 dos 5 votos de alunos (40%).

A reduzida participação dos pais e dos alunos no processo eleitoral foi resultado dessa campanha contra a candidata única e só não alcançou seu objetivo porque o quórum mínimo exigido para servidores é de 50% dos votantes, enquanto o de pais e alunos é de meros 25%.

Ao ver todo seu esforço e sacrifício de mais de um ano para melhorar a Jovina e dar uma escola digna não só para seus filhos, mas para todos os estudantes da escola, indo por água abaixo, os pais choraram, alguns copiosamente.

O choro não era porque não conseguiram impedir a eleição de uma diretora indesejável, mas porque sabiam da dura decisão que teriam que tomar a partir do resultado: retirar seus filhos da escola e abandonar um projeto ousado, que poucos ainda ousam realizar.

Quase um sonho! Considerando a medíocre sociedade em que estamos vivendo. Essa triste sociedade que não mais consegue acalentar os belos sonhos que os pais sonham para seus filhos!

Mais triste ainda é a postura adotada pela Prefeitura de Lauro de Freitas de lavar as mãos diante da grave realidade.

A postura conservadora daqueles que um dia pregaram uma revolução na educação e agora se acomodam por achar que, simplesmente, ter eleições para direção das escolas já é a própria revolução.

A postura conservadora dos que um dia sonharam com um mundo melhor e agora se acomodam com um ideal de progresso sustentado no concreto, cimento e asfalto, erguendo infernos inabitáveis.

Por que te calas, “poder” público? Por que não tens a mesma coragem e ousadia destes pais de Lauro de Freitas? Por que deixas uma experiência tão rica ser novamente arrastada para a mesma tormenta de mediocridade que resiste e ameaça o futuro e a dignidade de sua gente.

Será porque os atingidos são as mesmas crianças negras e pobres de sempre, filhos e netos de negros e pobres que um dia também já tiveram seu quinhão de infelicidade, que se traduz nesse eterno movimento que nada muda estruturalmente no Brasil.

Será que esse antipedagógico conservadorismo se origina no fato dos filhos e netos das autoridades públicas e dos políticos de Lauro de Freitas não estudarem nas escolas públicas do município? Quanta falta faz a lei proposta pelo senador Cristovam Buarque, que obriga os políticos a matricularem seus parentes nas escolas públicas.

Todos os estudos científicos atuais comprovam o quanto é fundamental a boa nutrição, para a formação da complexa rede de sinapses humana, e da boa formação nos primeiros anos, para um desenvolvimento intelectual e psicológico saudável para o resto das nossas vidas. Não compreendo como, sabedores desse conhecimento, abandonam tanta gente, nessa fase, à própria sorte.

Sinceramente, não compreendo essa posição cômoda de não correr riscos e, assim, contribuir para o que efetivamente possa significar algo diferenciado para toda a vida dos seres humanos. Garantir esse básico, por seu fundamento, já merece nosso engajamento e brigas homéricas.

Sinceramente, as crianças negras e pobres de Lauro de Freitas e a educação pública municipal não merecem essa posição cômoda e egoísta das autoridades locais em relação a uma experiência educacional que poderia impactar positivamente em suas vidas.

Na verdade, as crianças de Lauro de Freitas não merecem ver retiradas de suas vidas esse belo e verdadeiro Presente de Natal!

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3 Respostas to “Presente de Natal”

  1. jacileny Says:

    Parabéns aos funcionários pela eleição, pela demogracia a lei foi cumprida, a prefeitura tambem esta de parabéns. Sei que quando meus filhos estam na escola jovina moreira rosa fico despreocupada pois estam seguro porquê la é sua segunda casa

  2. Amigos da Jovina Says:

    A eleição foi um afronte ao processo democrático. A funcionária Luciene e marize pagaram motoboys para garantir que pais sem consciência do projeto pedagógico votasse,, praticamente obrigados.
    Meu filho já foi aluno da candidata Luciene Francisca e disse que ela gritava o tempo todo em sala e que pegava as crianças pelo abraço para obrigá-las a ficar sentada


  3. Importantissimo melhorar o ensino fundamental, exigir delas um pouco mais para que já se comprometam a aprender sempre, tendo assim uma vida digna, interessante e um EGO super satisfeito.


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