Primavera Baiana: reflexões gramscianas para entender os obstáculos por vir

19/01/2012

Foto: Marco Aurélio Martins, Agência A Tarde

Por Felippe Ramos, http://framos.wordpress.com/

É famosa a frase de Che de que os poderosos poderão deter algumas flores, mas jamais a primavera. Levando em consideração o caso de Salvador, no qual a população começa a esboçar um fôlego de esperança e mobilização contra a destruição de sua cidade, é necessário questionar: a primavera baiana pode ser detida pelos poderosos?

Com o uso livre da expressão de Gramsci, eu digo que minha razão pessimista pensa que sim – os poderosos podem deter a primavera baiana – ainda que o otimismo da minha vontade me leve às ruas junto com o povo. Ora, o pessimismo da razão nada mais é do que um senso radical de realismo crítico, uma ferramenta importante àquele que deseja transformar a realidade, posto que permite enxergar a correlação de forças em dada conjuntura a despeito da própria vontade.

Exemplo: eu quero o fim da fome no mundo. Há neste exato momento no qual escrevo este post uma possibilidade factível de que a minha vontade, ainda que transformada em protesto nas ruas, se transforme em realidade? O pessimismo da minha razão diz que não. Isso não deve levar-me à resignação de defender que a fome é positiva ou, no mínimo, inevitável.

Continuarei defendendo o fim da fome no mundo, mas posto que compreendi como está a atual situação política, tentarei criar espaços para a promoção deste ideal, a fim de conquistar outros para a causa e, quem sabe, um dia ter forças para mudar a realidade estrutural.

Portanto, é fundamental àqueles que querem transformar a realidade ter um senso crítico a despeito da própria ideologia, de modo a permitir um melhor planejamento tático e estratégico que cause impacto no mundo real e não apenas no ego daqueles que, por pensar a revolução, acharam que já fizeram demasiado. Enfim, um movimento de mudança tem que pensar não apenas a sua utopia, o seu mundo ideal, mas também os limites que serão postos à sua causa pelos atores sociais, econômicos e políticos que lhe fazem oposição, que defendem interesses antagônicos.

Meu convite é, deste modo, à uma reflexão sobre a composição ensaiada pelo belo movimento cívico da Primavera Baiana. Está claro que, para fazer frente à destruição planejada da cidade por alguns grupos de interesse que dela se apropriaram e transformaram em propriedade privada, faz-se mister uma ampla coalizão de forças que mobilize os setores culturais vanguardistas, os militantes de ultra-esquerda, os estudantes secundaristas e universitários, os professores, o movimento sindical, os jornalistas não-vendidos, os partidos de oposição e, por incrível que pareça, até mesmo certos grupos e indivíduos oportunistas que, por interesse ocasional, advogam a queda do prefeito.

Nenhuma destas forças sociais e políticas isoladamente pode alcançar o seu objetivo, taticamente convergente, de derrotar o projeto simbolizado pelo prefeito João Henrique. O purismo, deste modo, faz o indivíduo que não se mistura com aqueles que considera sujos se sentir bem, mas João Henrique permanecerá destruindo a cidade. Então, uma frente popular é necessária. Mas simultaneamente é necessário que cada grupo que compõe a frente permaneça atento a seus objetivos estratégicos de mais longo prazo.

Enquanto alguns querem o fim da fome no mundo através de uma redistribuição de renda que garanta a todos a possibilidade de ir à padaria, outros defendem apenas que a ajuda humanitária distribua sacos de comida jogando-os aos famintos pelas portas de um helicóptero. Estas diferenças não devem desaparecer pelo simples fato de haver a composição de uma coalizão. Será justamente a disputa entre as distintas concepções no interior da coalizão que garantirá a dinamicidade da discussão política democrática dos projetos, levando à vitória ocasional de um grupo ou outro a depender da correlação de forças constituída.

Ora, esta análise que tão bem serve para analisar as contradições dos governos Lula/Dilma, também me parece adequada para investigar quais os empecilhos que aparecerão à vitória da Primavera Baiana. E, neste sentido, me vem à cabeça duas dificuldades fundamentais: o silêncio/ausência do governador Jaques Wagner que parece ignorar a existência da crise e, em segundo lugar, a blindagem que os partidos políticos que lhe sustentam tentam construir à figura do governador.

A crise da capital de um estado administrada por um prefeito que contou com o apoio do governador (e até do presidente) para ser eleito não pode ser entendida como crise simplesmente municipal ou, pior, do indivíduo João Henrique. Se o prefeito decidir se exilar, a crise permanece.

O problema é estrutural e advém da desorganização política causada pela desagregação do sistema carlista sem o surgimento de um novo projeto claro para o estado. Para os que têm memória curta, basta ler matéria do A Tarde que mostra a presença do governador Wagner no lançamento da candidatura de João Henrique. Na ocasião, o governador afirmou ter dois palanques na Bahia, o de Walter Pinheiro, do seu partido, e o do prefeito agora satanizado pela crise municipal. Afirmou que, caso o candidato do seu partido não fosse ao segundo turno, apoiaria o prefeito ora na mira.

A política de múltiplos palanques é o meio do iceberg, do qual a crise municipal é a ponta e a deterioração do sistema partidário ideológico é a base. A bigamia do governador na campanha municipal é exemplo da decadência do projeto político para o estado, pois vale dizer que tanto faz um como outro; assim, diluem-se as diferenças que deveriam ser discutidas e disputadas com o eleitorado – os cidadãos.

Se tal sodomia política é compreensível (ainda que não necessariamente justificável) pelos limites impostos pela correlação de forças no poder e pela assim chamada necessidade de governabilidade, haveria, ao menos, que se buscar uma política anti-concepcional para se evitar os filhos bastardos gerados: os partidos políticos que perdem sua capacidade de discutir os passos táticos e estratégicos a fim de avançar rumo a constituição de uma hegemonia em vistas a um novo bloco histórico. Ou seja, os partidos políticos passam a ser meros reprodutores do sistema de poder ao invés de pressionarem a correlação de forças existente à uma mudança. Os filhos bastardos não combatem o pai; querem apenas a herança, o espólio. O poder congela-se, posto que já não há quem o pressione.

É por isso que a blindagem ao governador Wagner, que vem sendo ensaiada pelos partidos que o sustentam, é maléfica para a Primavera Baiana. Sem a discussão profunda da sodomia política e da bigamia eleitoral, qualquer Primavera será semi-Primavera, uma Primavera de flores de plástico, que duram, mas não tem cheiro nem o brilho das flores de verdade, que não inspiram poetas.

Caso estes partidos (e digo, suas bases militantes) tomem o precioso passo de contestar as redes do poder, ao invés de transformarem-se em escudos dos que ocupam os altos cargos, a Primavera ganhará e, em última instância, inclusive o Governo, que terá forças renovadas para colocar em execução um projeto político mais próximo ao Estatuto do seu partido e desvencilhar-se do emaranhado do status quo que lhe aprisiona. Do contrário, teremos uma blindagem eficaz do Governador, o qual tem apoio de grande parte dos que antes nós chamávamos de carlistas, mas sob o preço de manter uma sujeira embaixo do tapete.

A estratégia tem funcionado, posto que o IBOPE demonstra que a população considera o prefeito péssimo e o governador bom/ótimo. Mas e a Primavera? Faremos uma Primavera preocupados com o IBOPE ou com o nascimento das flores? Queimaremos o Judas para salvar o César?

Com a palavra, os militantes, os partidos e o Governador. O povo vai às ruas.

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