Cinema popular e pontes com a nossa história

03/04/2012

Foto: Davi Caires

Os dois filmes baianos selecionados para o 17o. Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, Cuíca de Santo Amaro, de Joel de Almeida e Josias Pires, e Ser Tão Cinzento, de Henrique Dantas, são obras que colaboram para jogar luz na memória de um país e de uma Bahia que precisa ser minuciosamente conhecida e reconhecida. Estamos fazendo filmes de memórias sobre personagens que souberam enfrentar as circunstâncias do seu tempo com criatividade e coragem.

Personagens como Cuíca de Santo Amaro e Olney São Paulo nos ajudam a fazer a ponte com histórias e tempos que, de alguma maneira, sofreram a tentativa de aniquilamento, soterramento, de apagamento de aspectos poderosos dessa memória cultural.

A estreia do Cuíca de Santo Amaro no É Tudo Verdade foi uma experiência benfazeja. O filme foi bem recebido pelo público e pela crítica e contou com a audiência plural, incluindo os baianos cineastas Geraldo Sarno, José Araripe, Sergio Machado, Henrique Dantas, o ator Lázaro Ramos, críticos como Carlos Alberto Mattos, Nelson Hoinef, Luiz Zanin e Marcos Pierry.

A presença de Cuíca de Santo Amaro entre os sete longas selecionados pelo Festival é mais um indicador seguro de que a produção de longa metragens de documentários está viva ainda na Bahia. Como notou a pesquisadora Maria do Rosário Caetano, a Bahia tem feito documentários que buscam um cinema popular. Filhos de João, de Henrique Dantas; e Bahea, Minha Vida, de Marcio Cavalcanti são filmes que caíram no gosto do público.

Cuíca de Santo Amaro é um personagem gigantesco do ponto de vista popular. Apesar de irrelevante para os ciosos do status quo. Personagem que pode ser lido e relido de muitas maneiras. Afinal, alcançou a dimensão do mito: é o defensor do povo, o grotesco crítico, o diabo solto nas ruas. Herói e anti-herói. O viramundo.

Num certo sentido é um tipo aparentemente incomparável. Daí a expressão do ilustrador Sinézio Alves de que Cuíca de Santo Amaro foi um personagem que todo romancista gostaria de ter criado. Devido à multiplicidade de faces. Inclusive por praticar a pequena canalhice inspirada nas grandes hipocrisias de jornalistas, radialistas e outros marreteiros granfinotes.

Um pequeno rei das encruzilhadas atuando na mesma seara dos donos da mídia. Documentários fundamentais são feitos com personagens aparentemente menores – é o que insiste em dizer o mestre Eduardo Coutinho.

Durante o festival tivemos a oportunidade de ver a primeira exibição pública da cópia restaurada do filme “Cabra Marcado para Morrer”, o mais importante documentário brasileiro de todos os tempos, filme que retoma um filme interrompido em 31 de março de 1964 que estava sendo feito com personagens reais das ligas camponesas do Nordeste.

O Cabra faz a ponte com o passado, retirando aquelas memórias da “lata de lixo da história”, como aponta o crítico de cinema Jean-Claude Bernadet. Ao fazer isto, o filme também faz a personagem, Elizabeth Teixeira reerguer-se da clandestinidade que passou a viver depois do golpe militar. A readquirir a sua própria identidade. O filme, aponta Coutinho, faz a ponte com a história daquelas pessoas e com a história do país.

A tragédia brasileira numa obra prima, como definiu Carlos Alberto Calil, na mesa dos debates do Festival.

O Cabra, Olney São Paulo, Cuíca de Santo Amaro são pontes com a nossa própria história.

Uma resposta to “Cinema popular e pontes com a nossa história”

  1. carmattos Says:

    Incluam-me também entre os baianos.
    Sobre o filme, escrevi em O Globo:
    “O poeta de cordel que fez a crônica social e política de Salvador nos anos 40 a 60 era um Malasartes nativo, um ‘canalha modesto’ no dizer aproximado de Millôr Fernandes. Sua trajetória entre escândalos, propinas e a picardia dos versos é contada com gosto no filme de Joel de Almeida e Josias Pires. Há poucas imagens de Cuíca, mas seu perfil está na tela pelas vias de um bom relato.
    Carlos Alberto Mattos


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