Pensamento crítico: cidades e audiovisual

18/04/2012

Foto Mariana Padilha

No artigo “A comunicação nas grandes cidades” a socióloga mexicana Mabel Piccini refere-se às mudanças nos estilos de vida, na percepção do tempo e do espaço e nos usos da cidades, graças às novas tecnologias e técnicas de comunicação com o uso de imagens. Sobretudo nas grandes cidades pós-industriais, ela escreve, notar-se-ia a emergência de diferentes regimes de visibilidade, a construção de lugares híbridos – sem filiação ‘territorial’ – através das tecnologias e dos relatos fundados na primazia da imagem e da velocidade.

Esse novo regime de visibilidade e sociabilidade tem o poder de criação de territórios virtuais caracterizados por aquilo que a autora chama de “Comunidades Abstratas”. Nestas “as redes audiovisuais e os terminais eletrônicos fazem parte de um processo que poderíamos descrever como a proliferação do urbano sobre o tecido social. Redes materiais e imateriais e um conjunto de objetos técnicos põem em circulação um mundo de imagens e informações que transformam os vínculos que as sociedades mantêm com o espaço, com o tempo e com os indivíduos”, acentua.

Acredita a autora que vivemos uma crise do que tradicionalmente se entendeu por vida coletiva, sobretudo nas grandes cidades, “crise de uma forma de sociabilidade ligada às relações no espaço público e às formas instituídas da comunicação social, do intercâmbio político e da ação política em sua máxima latitude”. Na base desta crise da vida coletiva estão as relações entre urbanização e marginalidade, a expansão constantes das manchas urbanas que produzem cidades mosaicos.

Analisando a situação na Cidade do México a partir de pesquisas de campo, Mabel Piccini vai afirmar que “a cidade antiga dos palácios é hoje uma cidade sem centro que, não por acaso, manifesta-se em uma geografia deslocada e em deslocamentos recorrentes. O que fica do antigo esplendor – como espaço de congregação e localização – é o centro histórico, hoje espaço de mesclas – sociais, culturais durante o dia – e uma fantasmagoria noturna quando os turistas, os transeuntes e os funcionários locais desalojam o teatro colonial e pré-hispânico”.

O fim do centro antigo como enclave ordenador, orientador do território urbano, lembra Piccini, estendem-se, sem ordem nem controle, as periferias: o subúrbio como submundo da extrema pobreza e da extrema riqueza, espaço tanto dos marginalizados que habitam os chamados cinturões de miséria, como o lugar escolhido para os novos empreendimentos urbanos, onde imensos complexos comerciais e as torres de espelhos elevam um novo culto à acumulação material, seletiva e exclusiva da modernidade.

Realizando uma bela síntese da fragmentação da vida coletiva na Cidade do México, a professora do departamento de educação e comunicação da Universidade Autônoma Metropolitana-Xochimilco escreve que “poder-se-ia dizer que a cidade fragmenta-se em inumeráveis pontos, apenas sustentados por traçados viários que dão à paisagem uma ideia de continuidade e movimento. Parece que o espaço urbano converteu-se em lugar de trânsito e de passagem entre um lugar e outro, entre zonas de produção e localizações de vida cotidiana, entre um espaço de lazer e o regresso para casa. Talvez não seja exagerado dizer, em certo sentido, que os eixos viários, projetados como rotas velozes para o trânsito rápido, representam a metáfora mais expressiva da circulação da energia urbana: trata-se de chegar, não de se deter; de circular e não de passear ou perambular. Assim, a arte de deslocamento dos habitantes da capital é, no melhor dos casos, ir e vir por rotas pré-fixadas para lugares pré-fixados. A possibilidade de contato com a cidade e com os outros está a tal ponto restrita a rotinas fixas que a “liberdade de mobilizar-se”, o “direito à cidade” e até o simples fato de conhecê-la – e habitá-la – reduzem-se dia a dia.

Como equipamento coletivo, continua Mabel Piccini, a televisão e suas tecnologias representam uma codificação do corpo social: instituem uma maneira de diagramar os espaços coletivos, a vida íntima e a pública, o tempo livre e o tempo de trabalho. Nesse sentido, as novas tecnologias exibem uma tendência marcante a encerrar e a enquadrar os fluxos populacionais em determinados espaços e a fixar e regular os ritmos temporais da vida cotidiana. Esses equipamentos são uma espécie de híbridos sociais, espaços de interseção entre as esferas pública e privada. Submetidos a poderes fortemente centralizados são, ao mesmo tempo, suporte da vida doméstica e da privatização das práticas culturais.

Mais ainda, os novos regimes de visibilidade dos dispositivos audiovisuais instituem, territórios televisivos, aqueles lugares em que as sociedades atuais passam a maior parte de seu tempo. Esses novos territórios formam um círculo sobre as sociedades íntimas – a família, as redes amplas de parentesco, os micromeios – enquanto iluminam com novos matizes as cenas de todos os dias. O objeto técnico – e suas projeções narrativas e simbólicas – muda nossa relação com o espaço e, neste ponto, cabe recordar o caráter móvel dos territórios audiovisuais, sua essência intimamente fragmentária, sua condição perecível que se implanta, precisamente, em espaços de extrema solidez como são os que compõem a vida cotidiana e as relações familiares, com sua perseverança ou sua relativa inércia.

Estamos diante de um quadro de declínio da vida pública que se conecta de algum modo com o ocaso de estilos tradicionais de convivência em vias de diluir-se no anonimato da grande cidade. Neste contexto as tecnologias de comunicação à distância cumprem um papel relevante., afirma a autora. Não é exagero dizer, insiste, que as novas culturas audiovisuais, como dispositivos de múltiplas redes, redefinem em larga medida os traçados modernos de conexão com o mundo a partir da intimidade da casa. Assim como os equipamentos culturais públicos tendem a um declínio mais ou menos irreversível, as auto-estradas da comunicação – espaços onde se manifestam as dimensões econômicas, estéticas e lúdicas da sociabilidade coletiva – começam a converter-se, de maneira crescente, em lugares diferenciais de consagração, reafirmação ou simplesmente sobrevivência, social e simbólica, de diversos segmentos da população.

Regimes de visibilidade e culturas do esquecimento

O mais importante na eletrônica informática será o que se apresenta na tela e não o que se guarda na memória. A frase de Paulo Virilo vem definir a “época da cultura do visual, quando parece que somente o visível é objeto de credibilidade, (…).somente o que se vê (o que fica registrado nos novos campos de visibilidade) se pode esquecer porque os registros da memória já não são os da memória interior, mas os que se guardam na repetição de imagens sempre renovadas, um presente absoluto, na televisão ou nos arquivos eletrônicos da computação. Essas culturas da máxima visibilidade são culturas do esquecimento?”.

Haveria, assim, as “sociedades com memória” (cujo referente é a história lenta como longa duração e densidade cultural) e “sociedades sem memória” (cujo referente seria a comunicação e seu paradigma, a publicidade, o efeito de realidade construído sobre a curta duração)”.. O que se suprime, continua M. Piccini, é a percepção da duração e, por conseguinte, a temporalidade histórica. Tratam-se de culturas efêmeras ou, como alguns preferem chamá-las, de culturas frágeis, projetadas para sustentar sua indeclinável caducidade.

A autora traz o ponto de vista do crítico literário e político marxista norte-americano Jameson que já havia alertado para esses aspectos, quando afirmou que a lógica profunda do capitalismo multinacional radicava no desaparecimento de um sentido da história, na medida em que todo o sistema social contemporâneo, em suas diversas manifestações, começava a perder gradualmente sua capacidade de reter seu próprio passado, vivendo em um presente constante e em uma constante mudança que arrasa tradições de classe, que todas as anteriores formações sociais tiveram de preservar de um modo ou de outro.

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Ontem tive a honra de participar da mesa do fórum do pensamento crítico ao lado da minha querida amiga Silvana Moura e do meu compradre Geraldo Moraes conversando com os presentes sobre cidades e audiovisual. Temas centrais da nossa vida contemporânea, sobretudo no Brasil onde a esmagadora maioria da população passou a viver nas cidades e onde a televisão tem um papel que talvez não tenha em nenhum outro lugar do mundo.

Naturalmente o Movimento Desocupa foi citado, iniciando a minha fala com uma referência à publicação na página do Movimento por Rildo perguntando: quais filmes deveriam ser levados para os bairros e traz a sugestão de Ilha das Flores, de Jorge Furtado; o que me levou a pensar em Luis Orlando de saudosa memória, figura central no cineclubismo de Salvador e do Brasil, num tempo em que os filmes eram exibidos em 16mm, seguidos de debates nos bairro populares e nas universidades.

Era a mesma cidade mas era outra cidade. Naquele tempo a concentração dos meios de produção audiovisual – televisão e cinema – era enorme, hoje ainda é gigantesca mas cresceu exponencialmente as possibilidades de proução audiovisual. Todos podemos ter uma câmara e todos podemos, em tese, fazer filmes.

Geraldo Moraes ressaltou isto. Lembrou que o cinema é contemporâneo da luz elétrica e do crescimento da urbanização. As cidades e o cinema têm relações umbilicais e que o cinema transformou-se com o passar do tempo e hoje estamos imersos no mundo da imagem e todos podemos filmar quase tudo. A imagem está em tudo. Na medicina e na astronomia. Na biologia e na geofísica.

Porém vivemos num mundo de invisíveis, chamou a atenção Silvana Moura. De fato, quem tem realmente visibilidade no mundo das imagens em que vivemos? O que estamos fazendo com todas essa tecnologia e todas as técnicas nas mãos? Sobretudo o que estamos fazendo em nossa cidade que chegou tão fundo na degradação atual. A cidade vendida, como denuncia o Movimento.

Pude viver esta experiência com o filminho curto sobre o quilombo rio do Macaco. É verdade que eles têm câmaras de filmar nos celulares e eles mesmos fotografam aspectos diversos da situação em que vivem. Este material é precioso para a realização de um outro documentárioo sobre a comunidade.

Porém no momento q fiz o doc tinha consciência plena de que estava fazendo uma coisa para servir de instrumento daquela comunidade para denunciar a situação em que vivem – eles mesmos estavam lutando nas ruas fechando a rodovia com pneus e pedras para denunciar os desrespeitos flagrantes aos direitos humanos fundamentais por parte da Marinha.

A minha contribuição está na ação de documentar mas sobretudo de editar uma narrativa, afirmando um ponto de vista fundamental sobre o caso.A ação que fiz com Gabriel Teixeira, o fotógrafo; Tatu, o som; Igor, o editor; André Araújo na produção, e que contou com a colaboração de estudantes da Faculdade de Direito da UFBA sabia do potencial da Internet para fazer a denúcia repercutir com a intensidade necessária, o que efetivamente ocorreu.

Se a pouca ocorrência de debates desta natureza contribui para que a discussão se enecerre no impasse devemos nos esfor;car para tornar os debates públicos mais numerosos e intensos, acompanhados de estudos e pesquisas que ajudem a qualificar cada vez mais as discussões,

Deixo aqui estudo que universidades mexicanas fazem há mais de uma década sobre as relações entre cidades, audiovisual, formação de novos imaginários, crise da vida coletiva nas cidades, onde o desejo necessário da melhoria da mobilidade urbana e da velocidade parecem a todos ser mais fundamental que o direíto ã convivência nos diversos territórios da cidade e ao convívio social.

Debates assim precisam ocorrer com mais frequência para que possamos superar mais rapidamente o desalento frente ao poderio das redes audiovisuais, que no entendimento dos estudiosos acabam por constituirem uma espécie de território virtual que se superpõe ao território real, como se pode ler neste texto da socióloga mexicana Mabel Piccini.

Em tempo: O movimento foi citado também por Silvana Moura, Solange Lima e Patricia Santana e fiz aqui apenas um pálido resumo do que ocorreu. (Josias Pires)

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