Por que o Cinema da UFBA não exibe o filme Menino Joel?

19/04/2012

Professor da UFBA e membro do Movimento Desocupa. Ícaro Vilaça escreve carta aberta para a reitora Dora Leal cobrando providências para que o Cinerma da UFBA possa exibir o filme.

Por Ícaro Vilaça

Magnífica Reitora Dora Leal Rosa,

Na qualidade de professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia, mas sobretudo na qualidade de cidadão, gostaria de solicitar alguns minutos de sua preciosa atenção para o problema posto a seguir.

Na noite de ontem, tive a honra de assistir ao filme Menino Joel, exibido no Cinema da UFBA em sessão bancada pelos próprios realizadores do filme. Dirigido pelo italiano Max Gaggino e produzido por Rodrigo Cavalcanti, o filme foi realizado de forma completamente independente, sem nenhum tipo de apoio.

Trata-se de um documentário sobre o caso do pequeno Joel, que sonhava em ser mestre de capoeira, mas foi morto em 2010 enquanto dormia em sua casa no bairro Nordeste de Amaralina por uma bala disparada a esmo por policiais militares que não apenas assassinaram o garoto como também se recusaram a prestar socorro à vítima. Uma infeliz coincidência marcou este caso, fazendo com que ele deixasse de ser apenas mais uma estatística: o menino Joel teve sua vida roubada pelo mesmo estado que se utilizou de sua imagem encantadora alguns meses antes para fazer propaganda turística ao melhor estilo “Bahia, terra da felicidade”.

Nesse sentido, o filme problematiza aspectos extremamente relevantes da realidade brasileira que certamente são objeto de interesse e pesquisa nesta Universidade: segurança pública, planejamento urbano, ausência do estado em bairros com população de baixa renda, ausência e/ou ineficácia de determinadas políticas públicas, apenas para citar alguns exemplos.

Apesar da contribuição que o filme traz para a problematização desses aspectos fundamentais à compreensão de nossa realidade, até agora nenhum dos cinemas da cidade se disponibilizou a exibi-lo, nem mesmo o Cinema da UFBA, atualmente administrado pelo Circuito Sala de Arte, empresa que se beneficia da concessão de equipamentos públicos – como é o caso do Cinema da UFBA – para estabelecer sua rede de salas exibidoras.

É sabido que o Circuito Sala de Arte concede alguns benefícios à comunidade acadêmica, a exemplo do desconto que é dado aos alunos da UFBA. Entretando, quando nos deparamos com um caso dessa natureza, em que o cinema independente, em que pese seu potencial questionador, não é considerado suficientemente atraente para ser exibido, não seria o caso de refletirmos seriamente sobre os benefícios reais que esta parceria pode trazer à comunidade acadêmica? Seguiremos apenas assistindo aos dramas europeus ou mesmo de países africanos e asiáticos, sem a oportunidade de refletir sobre os dramas de nossas cidades?

Acredito que um equipamento da natureza do Cinema da UFBA tem um papel fundamental a cumprir no que diz respeito ao avanço da democracia, a despeito dos interesses comerciais que porventura se façam presentes quando que se estabelece essa parceria com o setor privado.

A partir do que foi exposto, solicito a Vossa Magnificência a viabilização de um diálogo entre os administradores do cinema e a comunidade acadêmica, para que se possa discutir mecanismos de participação na programação do referido cinema. Acredito que o Circuito Sala de Arte, na medida em que se beneficia comercialmente deste equipamento que pertence à Universidade, deve se manter permanentemente aberto ao diálogo com a comunidade acadêmica a respeito da programação deste cinema.

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