Eu só quero entrar em minha casa com dignidade

02/05/2012

Por Sandro Santana, jornalista, escritor e mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA

Esta frase do filme Pistoleiros do Entardecer (1962), resume a carreira de Sam Peckinpah, o último dos grandes diretores de western. Peckinpah fez o atestado de óbito, ressuscitou o gênero e o transformou. Vamos falar de Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia (1974), um dos seus filmes mais pessoais, reflexo do inferno pessoal regado a álcool e drogas que o diretor mergulhara.

Peckinpah é um mestre, uma marca. Ficou famoso pelas cenas de violência numa época que isso não era comum e influenciou gerações, de Clint Eastwood a Tarantino, passando por Scorcese, Robert Rodriguez, John Woo, Cronemberg, e até Antonio Banderas na sua incursão como diretor em Loucos do Alabama (1998), onde Melanie Griffith dirige o seu carro ao lado da cabeça do marido que ela mesmo matou. A morte em câmera lenta e a estetização da violência são apenas algumas das marcas mais evidentes de um estilo que mudou o modo de fazer cinema. A Guerra do Vietnã, o fim do sonho americano, a contracultura, o gênio detectou o momento de crise de valores americanos e exacerbou no ecrã. Peckinpah foi o narrador da transição do que a América foi e se tornou. Ele transformou o calvário dos perdedores em epopéias heróicas. O futuro é vortex!

Bennie é um perdedor. Um músico decadente que vive de gorjetas, traído pela sua amante e sem esperança. A cabeça de Alfredo Garcia, um mexicano que teve uma breve aventura com a sua mulher, é sua última linha de fuga. Bennie só queria uma chance e ele não queria muito. Warren Oates, ator que vive o personagem, tomou emprestado os óculos e a as roupas do mestre, fez a via crucis de terror e voltou para casa com dignidade. Peckinpah estava falando dele mesmo. Mas porque querem a cabeça de Alfredo Garcia? Porque querem a cabeça de Peckinpah? Garcia engravidou a filha de um latifundiário mexicano, que o “tinha como um filho” e oferece 1 milhão de dólares pela sua cabeça. Peckinpah apenas não se adaptou aos “novos tempos”. Autodestrutivo, vivia a vida nas telas e a ilusão fora delas.

Sexistas, sádicos, violentos, amorais, compulsivos, traiçoeiros, redentores e desesperados, seus filmes falam do humano. Seus personagens eram como pessoas que conhecemos, com seus destinos inevitavelmente traçados. Podemos sentir os odores, as dores, a poeira e os conflitos. Em Alfredo Garcia o cheiro de sangue pútrido e fétido exala pela tela. Humano, demasiado, humano. O que interessa ao diretor não são os vencedores, mas sim aqueles que estão fadados ao fracasso, que já não tem nada a perder e que só podem reverter essa situação com a indignação, revolta, mas, sobretudo, pelos laços que ligam os homens, pela amizade e confiança. Bennie apenas não agüenta mais, sai do seu desespero amoral em busca da redenção, primeiro através da cobiça e do dinheiro, para depois reagir e poder voltar para casa com dignidade.

Longe dos grandes estúdios e na faixa territorial que ele trafega com extrema intimidade, a fronteira entre os Estados Unidos e o México, Peckinpah prepara o seu testamento. O grande ator Warren Oates, o eterno coadjuvante, é finalmente seu protagonista. Um ex-soldado que acredita que trazer a cabeça de Alfredo Garcia é um trabalho fácil, rápido e lucrativo que garantirá a sua aposentadoria e uma vida conjugal tranqüila com sua amante, a prostituta Elita. Mal sabe ele que uma simples escolha pode representar a venda ou a salvação da sua alma. Tal qual um Hércules às avessas, Bennie mergulha numa jornada de terror, romantismo, ódio e paixão.

Os críticos detestaram, execraram o filme, segundo Roger Ebert, que o colocou entre os melhores filmes do ano, de 0 a 100 a crítica norte-americana o nivelaria em 5. Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia é um filme único, um faroeste-road movie do terceiro mundo, desesperado, violento e sujo, deslocado no tempo como seu diretor. Um western em essência, feito por um realizador que amava o gênero e realiza duas vezes o seu canto do cisne – a primeira de forma clássica, com Wild Bunch imprimindo indelevelmente a sua marca para sempre, e com Alfredo Garcia agoniza a sua dor.

Se o futuro é vortex (pimball dos anos 80 que previa um futuro catastrófico), tão caótico e desesperador o que fazer do seu trabalho? Alfredo Garcia fala de um homem que não se compromete e perde tudo que lhe é mais sagrado, importante e que oxigena a sua vida. Daí, ele tem que tomar uma atitude porque simplesmente ele não tem mais para onde ir. Ele tem que completar a sua tarefa. É melhor morrer de pé do que viver ajoelhado. A cena final lembra a chuva de tiros em Bonnie and Clyde (1967), de Arthur Penn. Uma curiosidade: Peckinpah homenageia outro famoso e genial rebelde de Hollywood, John Huston, ao colocar em um dos caçadores de recompensa o mesmo nome do personagem vivido por Humphrey Bogart, Freddy C. Dobbs, em Tesouro de Sierra Madre (1948).

3 Respostas to “Eu só quero entrar em minha casa com dignidade”

  1. PIERRY Says:

    Direto e eficiente como uma bala, o texto faz jus à conhecida admiração de SS por Peckinpah. Gostaria apenas de saber do escriba: se SP teria o título de reinventor do gênero, qual o lugar de um Sergio Leone na terceira fase da carreira (Era Uma Vez no Oeste) ou do próprio Clint já como diretor nos anos 70?

  2. Josias Pires Says:

    Leia a resposta do autor, Sandro Santana, para Marcos Pierry:

    Pierry, obrigado pelos comentários e leitura atenta.

    Peckimpah foi o responsável pela transição do western clássico para o moderno. Podemos dizer que John Ford passou para ele o bastão. “Pistoleiros do entardecer” (1962) é o próximo passo depois de “O Homem que matou o fascínora” (1962), de Ford, o ultimo dos grandes westerns clássicos. Em “Pistoleiros …”, ainda que tenha ingredientes do western clássico, Peckimpah inaugura o realismo, a densidade psicológica no gênero e até o “anti-americanismo” dentro do gênero mais americano, ao retratar e louvar a epopéia dos fracassados, glorificar o perdedor.

    Ao escalar dois ícones do western dos anos 50, já em decadência, Randolph Scott e Joel Mc Crea para viverem dois ex-agentes da lei acabados, sem dinheiro nem perspectivas, vivendo fora do seu tempo, Peckimpah já analisa e aponta para o fim de um gênero numa simbologia crepuscular. Em “Meu ódio será sua herança” (1969) ele vai mais longe. Além de trazer definitivamente para o gênero mítico um mundo real, personagens reais e destruir a mitologia do gênero, o que seria ainda mais evidente em “Pat Garret & Billy the Kid” (1973), a estetização e o realismo das cenas de violência é uma revolução não só no gênero, mas no cinema.

    Quanto a Sergio Leone, com “Era uma vez no oeste” (1968) e “Quando explode a vingança” (1971) ele marca seu nome entre os grandes diretores de western, dialoga com as raízes do gênero, mas para mim, ainda assim, é um olhar estrangeiro, o que necessariamente não é ruim. Assim como Django Reinhard no jazz, Leone foi o primeiro a influenciar cineastas americanos num gênero que é sinônimo e mito fundador da cultura americana. Em relação a Clint, cabe pontuar que quando me referi a Peckimpah como o “ultimo dos grandes diretores de western” me referia ao período cronológico áureo do western. Indiscutivelmente Eastwood é um dos maiores de todos os tempos e com “Os Imperdoáveis” (1992) fez um epitáfio à altura do gênero que produziu alguns dos maiores filmes da cinematografia mundial.

  3. PIERRY Says:

    Prezado Sandro,
    Instigante o que você pontua.
    Está fora de questão as qualidades do grande cinema praticado por Peckinpah nos filmes citados. O que me parece descabido é atribuir ao diretor um papel inaugural em aspectos como realismo e densidade psicológica em plenos anos 60, sem contar que o anti-americanismo é um elemento, se formos buscar, presente já em clássicos fordianos como Stagecoach, uma produção do final dos anos 30: dentre outras passagens, o filme termina com o Dr. Boone, o médico alcoólatra, dizendo ao casal incomum formado pelo forasteiro Ringo e a prostituta Dallas que somente depois da fronteira, no México, os pombinhos estarão a salvo das bênçãos da civilização; isso depois de comerem o pão amassado pelo demônio numa caravana que cruza o país.
    Não acho útil, porém, reivindicar pioneirismos; fatalmente iríamos esbarrar nos iniciais Edwin S. Porter ou Thomas H. Ince, dois dos mais recorrentes pais da criança (digo do western) no registro dos historiadores. Nesse ponto, é preferível ter em conta André Bazin, a quem o western fez formular, ainda lá nos anos 50, toda uma teoria da imagem a partir de minuciosa descrição e interpretação do gênero como a própria essência da cinearte. Ali, Bazin já advinha nuances e fases que perfazem um corpus a contemplar os pontos de nossa discussão, e, de algum modo, mesmo aspectos que viriam mais consolidados na produção seguinte. Por exemplo: quer algo mais estetizante que os enquadramentos e o balé aéreo de chapéus cometidos por Leone? No entanto, os Cohen, com o seu remake do Bravura Indômita, nos mostram quão longe o quesito da estetização pode chegar trilhando também um diálogo interno com o filme matriz a partir de rigorosa pesquisa histórica.
    Divago nos autores, penso em Hawks, Hughes e, num salto pra frente, no Altman prodigioso e metacrítico de títulos como Oeste Selvagem e Quando os Homens São Homens (desglamourizando o mito do western e desdobrando um outro patamar do tal realismo em pauta). Sabemos que, em dado momento, balas, perseguições e goles de uísque são deixados pra trás. Trata-se agora de pensar uma nação retirando as máscaras e festins de seus próprios mitos. E quanto cinema nos lega sir Altman ao propor essa reflexão.
    Portanto, em termos de western, assim como no jazz, sou partidário de um recorte que, sem fugir dos reconhecimentos e trajetórias individuais, desvele o fenômeno da linguagem, da beleza etc. Veja o caso do blues na Inglaterra: como puderam se igualar a Chicago ou mesmo ao Mississipi em praticamente uma década? É um processo de reapropriação de refrências e recolonização cultural extremo e surpreendente. E sei que essa é também a sua praia, daí o exemplo. A propósito, já ouviu o recente Play The Blues de Wynton Marsalis & Eric Clapton? Nessa linha de pensamento, é algo vigoroso.


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