Iêda Marques: a retratista da realidade e da alma sertaneja

04/05/2012

Por Josias Pires

A fotógrafa e militante da natureza e da cultura Iêda Marques, filha da bucólica Boninal, vizinha ao Parque Nacional da Chapada Diamantina refaz, num belíssimo livro, trechos das rotas de sua própria história de vida entre a região onde nasceu; a cidade de Barreiras, onde começou a conhecer a vida moderna; a moradia da juventude na metrópole paulista; o retorno à Bahia, passando a morar em Salvador , até fixar-se definitivamente em Boninal depois da estadia de um ano em Londres, na Inglaterra.

A história vai sendo escrita com os olhos: pinturas singelas e potentes da paisagem humana e natural, dos artefatos, da indumentária, dos instrumentos e criações de homens, mulheres e crianças da zona rural, com quem convive há décadas, de quem ela conhece as histórias e os ambientes íntimos, particularmente as cozinhas exuberantes de fogão à lenha. Cozinhas rurais banhadas de luz natural, decoradas com esmero pelos costumes nativos.

A retratista – sim, retratista, pois parte da sua renda é auferida fazendo fotografias de casamento, aniversário, batizado, 3 x 4 para documentos e até fotos de velório. Porém Ieda retrata mais do que as cenas rituais que se formam aos seus olhos, vai além, fotografando a alma dos seus conterrâneos. Iêda afirma que o seu trabalho é o resultado de uma magia do coletivo, afinal, como escreve o seu filho, o geógrafo Tiago Moreira: a obra fotográfica de Iêda nos traz “… um olhar atual sobre as marcas deixadas na paisagem do sertão, no modo de vida dos seus personagens, … “.

Olhar atento para o mundo à sua volta desde a mais tenra idade, olhar burilado mais que diamante na vida de retirante da diáspora sertaneja, Iêda Marques é mulher guerreira, parente simbólica de Maria Bonita, a rainha do cangaço. Sempre em movimento, em ação, o clique mais rápido do Oeste é portadora de experiências densas, lúdicas, mítica, daí as suas fotografias nos revelarem a mais pura emoção do encontro. “Devemos orar sorrindo”, costuma dizer brincando e falando sério.

O livro é mais uma publicação da Solisluna Editora. As imagens vêm acompanhadas de depoimentos da própria Iêda, de um texto de Tiago Moreira e de parceiros ambientalistas vinculados ao Parque Nacional, o qual foi dirigido pela retratista em 2005, culminando a sua trajetória de organização local em favor do desenvolvimento sustentável e da defesa do patrimônio natural e cultural da região. Particularmente das águas, pois nasce na Chapada o maior rio baiano, o Paraguaçu, que abastece inclusive Salvador através da Barragem Pedra do Cavalo (Cachoeira), rio que agoniza há décadas.

Montada numa bicicleta – elemento presente em diversas fotografias publicadas no livro – Iêda Marques percorre as veredas daqueles sertões secos porém férteis, unindo arte, educação, cultura e ambientalismo, colaborando ativamente para a organização dos movimentos populares buscando a transformação social. Arte engajada, sim, revolucionária no desejo de que as almas irmãs se deem as mãos unidas em torno das suas expressões culturais e da valorização dos seus sofridos territórios.

Entre a Caatinga e o Cerrado vivia o pai de Iêda Marques, o tropeiro Chico Moreno, tocador de pé-de-bode, a sanfoninha de oito baixos que faz a alegria nos sertões durante as noites dos pés-de-serra. A fé e a festa. A infância da filha de Rosalina (a mãe sábia hoje com 92 anos) no mundo mítico e na realidade fantástica. O homem que se encanta e vira moita de capim na manga. Os reisados. A religião e a música. Histórias de barulhos, jagunços, coronéis, revoltosos, assombração. Os mortos guiam os vivos na busca de tesouros, que foram enterrados no tempo em que ouro era tirado com machado nos rios da região.

A terra, a água, o fogo, o ar encantado. E toda essa gente. Sementes e frutos. Abelhas. Natureza e cultura. Coletivizar o individual. O visível e o invisível. O jarê. As comidas e as brincadeiras infantis. Panorama sensível e profundo da terra e do povo de um lugar.

Uma resposta to “Iêda Marques: a retratista da realidade e da alma sertaneja”


  1. Eh Josias Cuíca de Santo Amaro Pires, ficou quieto… quando veio, veio furando, botando pra gemer. Dá-lhe guerreiro da escrita e agora do cinema. “Vamos botar pros cocos, quanto mais alto o coqueiro, mas nós gosta”.
    Obrigada, você e toda sua família carinhosa.
    Abracos, Iêda.


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