‘O Homem Que Não Dormia’ é empreendimento de alto risco

04/05/2012

O mais novo longa metragem do cineasta baiano Edgard Navarro chegou às salas de cinema.
Navarro está construindo um conjunto de obras cinematográficas de alta relevância, pela coragem de enfrentar questões candentes e maestria narrativa. Capaz de despertar o riso, o escárnio, o gozo e tantos sentimentos nos espectadores. “Acorda Humanidade”, gritava o louco de Bertrand Duarte em O SuperOutro. Os seus filmes nos propõem o abismo como salvação – por isso abaixo a gravidade! – são filmes-cachoeira – no bom sentido, no sentido dado pelo mestre Humberto Mauro para quem cinema é cachoeira, são imagens jorrando diante dos nossos olhos (Josias Pires). Leia abaixo dois textos sobre o filme de Edgard Navarro escrito por críticos de cinema do jornal O Estado de São Paulo.

Diretor Edigard navarro mergulha fundo, sem rede de segurança, em seus fantasmas

LUIZ ZANIN ORICCHIO – O Estado de S.Paulo

Calil Neto/Divulgação
Cena de ‘O Homem Que Não Dormia’

James Joyce dizia que Ulisses era seu romance diurno e Finnegans Wake seu romance noturno. Guardadas as imensas e devidas proporções, pode-se dizer coisa semelhante de Eu me Lembro e O Homem Que não Dormia, de Edgard Navarro.
O primeiro é o dia, o segundo, a noite; um é a vigília, outro, o sono; um é a consciência, o outro o sonho – ou melhor, o pesadelo. 

Talvez seja nessa medida e por esta razão que Eu me Lembro tenha sido amado e O Homem Que Não Dormia desperte resistências, mesmo em quem se declara fã do realizador baiano, autor de um filme tão visceral quanto O Super-Outro, ícone da vanguarda baiana.
Se em seu filme anterior Navarro havia posto a nu suas memórias, ternas e dolorosas, agora ele mergulha fundo, sem rede de segurança, em seus fantasmas. É empreendimento de alto risco – e o filme leva essa marca.

Daí que o vilarejo que serve de epicentro lembre Macondo ou Comala, as cidades míticas de García Márquez e de Rulfo. Cidades de sombras, mais que de seres reais.
Na de Navarro comparecem um coronel, um padre sem vocação, um coronel, um estranho peregrino… enfim, uma série de tipos que expressam tanto a fantasmagoria pessoal do diretor quanto a tradição das lendas brasileiras. Impressiona a maneira como ideias ganham forma em imagens (a árvore que se desfolha de uma só vez é de antologia).
Mas como Navarro provavelmente encarou O Homem Que não Dormia como jorro do inconsciente, não se deu ao trabalho de depurar mais a forma e dar-lhe estrutura. Desse viés espontaneísta, o filme se ressente. É de uma coragem digna de nota; não deixa, porém, de expressar um caminho já percorrido, e talvez sem saída.

Navarro volta ao cinema marginal
LUIZ CARLOS MERTEN – O Estado de S.Paulo

Depois de Eu me Lembro, o filme mais palatável de sua carreira – vencedor de vários prêmios no Festival de Brasília -, Edgard Navarro volta ao cinema marginal e de invenção que tem sido sua praia e assina nova obra transgressora com O Homem Que não Dormia, que estreia hoje.
Numa entrevista realizada sábado no café do Centro Cultural Banco do Brasil, antes de debater seu trabalho com o público paulistano na Mostra do Filme Livre, o cineasta põe os pingos nos is e explica que não é bem assim que a coisa funciona.


E então, Edgard, já se acertou?


É difícil explicar o processo criativo, mas certamente não se trata de uma reação de causa e efeito. Eu me Lembro saiu daquele jeito porque era a memória de toda uma geração, não só a minha. Era Freud, O Homem Que não Dormia é Jung, uma obra muito mais nebulosa, que trabalha com os aspectos mais sombrios da mente e da criação.
Era um roteiro que eu tinha havia mais de 30 anos. Cheguei a pensar em fazê-lo no começo dos anos 2000, mas aí, na hora de inscrever nas leis de patrocínio, achei que seria recusado, como sempre foi e escrevi o Eu Me Lembro de um jato, sabendo que seria mais palatável. Depois, ia fazer outro filme e a culpa é do Djavan. Estava ouvindo uma música dele que falava da necessidade de encarar os demônios. Voltei ao Homem Que não Dormia e senti que era a hora de fazer o filme.


Você fala muito no artista, em você, como cavalo dos deuses. O Homem Que não Dormia tem um lado forte de candomblé, não?


O roteiro já nasceu daquele jeito, com os cinco personagens que precisam se purgar. São cinco exus vivendo e superando sua danação. E é um filme cheio de referências. O Pra Frente Brasil, por exemplo, é um personagem inspirado no filme do Roberto Farias (de 1982). O barão, que enterra o tesouro que vai ser perseguido por toda aquela gente acometida do mesmo pesadelo, é um personagem típico do Nordeste.
Não pensava em fazê-lo, mas aí, quando Luiz Paulino dos Santos aceitou fazer como ator, me dei conta de que tinha dois personagens, e não um. O barão e o andarilho. Fiz o barão e entreguei o andarilho ao Luiz Paulino.
Meu cinema transita por temas de fundo social e político, mas sempre comprometido com as motivações que me assombram. Costumo ser acometido por intuições que beiram a loucura, mas essas coisas não são irracionais. Terminam por fazer sentido, para mim e para os outros. Minha loucura é criativa, continuo sendo tido como são. Na verdade, tudo faz parte de um movimento consciente para estabilizar minha psique, me permitindo apaziguar deuses e diabos.







Tem um lado trash, mas é um filme elaborado, até no visual. Me emocionei com o padre interpretado por Bertrand Duarte. De onde veio o voo final?


Havia lido Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez. É o meu realismo fantástico baiano. O importante é que esse filme fecha um ciclo e vai me permitir contar outra história que me assombra. Sabe aquele grito do final: Abaixo a gravidade (e a grave idade)? É o título do próximo filme.

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