Ninguém se livra do sertão

08/05/2012

Por Nilson Galvão

Nós, urbanoides, andamos por aí vivendo o “day-dreaming” de filme americano rodado em Nova Iorque, mas de fato ninguém consegue se livrar do sertão. Ninguém mesmo. Pra começar qualquer de nós, na mais urbana das metrópoles, padece de um vão extenso como a Transiberiana, largo como a soma de centenas de campos de futebol: é o sertão metamorfoseado, a incutir sentimentos tão antigos quanto a gana de sobreviver, o temor à fúria divina, a maravilha do sol, da lua e das
estrelas.

E quem vem de lá, do sertão , traz essa marca mais forte ainda. Traz no peito mazelas, estradas e som de cancelas. E se a chuva não vem chama do fundo da alma um respeito solene pelo imponderável. Pode ir aonde for: levará consigo as vidas secas e o gosto acre de uma magra, querida e sacrificada Baleia. Reencenará o trágico ao se deparar com o vai-e-vem poeirento imemorial dos carros-pipa.

Ninguém se livra dos fantasmas do sertão. Lampião & Maria Bonita & Corisco & Dadá. O padim Padre Cícero. Antônio das Mortes. Diadorim & Riobaldo. Os revoltosos de Prestes e os seus implacáveis contendores em chapadões e caatingas, os milicianos de Horácio de Matos. Os encourados, de Pedrão à Paraíba. Conselheiro ontem, hoje, sempre. Ciganos & tropeiros. Reis & rainhas, ternos de festa. Trilhas pisadas repisadas por santos, bandidos e homens retos.

Feira de Caruaru & Wall Street: o meme universal do sertão em plena exuberância pois, já dizia Smetak, Elo-mar é o mundo ibérico redivivo, pois os cordéis fizeram elipse do Atlântico e religaram Traz-os-Montes às barrancas do rio Gavião. O baião no DNA da MPB, suas espirais misturadas com as do samba, como teorizou Gilberto Gil em “O homem que
engarrafava nuvens”. Gonzagão & Humberto Teixeira plasmando pé-de-serra e música do mundo: pra tocar no rádio. O pé-de-serra com o pé na valsa de Viena…

Let me sing my rock’n’roll, bradou Raul Seixas, profético. E seu canto enviesado se espalhou pela Nação Zumbi. Descobriu-se então, o sertão abriga muitos desertos e reverencia seus fortes pelo mundo afora: berberes & zapatistas, hunos & apaches, zulus & zelotes. Todos os bárbaros, velhos e novos. Doces, agrestes. Quixotes e moinhos de vento: nós, urbanoides, nem desconfiamos do sertão em nós, e das batalhas incruentas & barrocas travadas no cerne do sertão em nós. Kung fu nas pradarias de Quixeramobim.

Uma resposta to “Ninguém se livra do sertão”

  1. Soraya Says:

    Nílson Galvão sempre a escrever lindamente!


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