E por falar em sertão

09/05/2012

Foto Calil Neto

Por Martha Galrão

Fui assistir O homem que não dormia. Gostei pra caralho. Me identifiquei totalmente com o filme, o roteiro, a maneira como a história foi contada. A identificação inteira, intensa, nesse filme é imprescindível, porque Edgard não faz concessões. Edgard é um homem de muita coragem.

Um amigo me pergunta: pra quê close nos paus, nas bucetas, estrias? Ora,porque somos assim, cada um tem seu pau ou sua buceta e suas estrias. E muitas vezes olho roxo. Apesar de mostrar a vida de maneira aparentemente crua, o filme não é escatológico. Em nenhum momento. É realista, natural.

Atores brilhando. Lindos atores, entregues, orquestrados por uma direção maravilhosa.

Homens como vemos em nosso dia a dia. O diálogo no bar sobre mulheres, cruel e violento. Personagem: Pereba (Psit Mota), naturalizando a violência, parece até engraçado. No bar um homem que sente paixão, um homem de coragem. Quem, por merecimento, fica com a mais bonita da cidade. Linda a cena em que as mulheres voltam abraçadas depois de pegarem a botija do barão. E as imagens que mostram o envelhecimento da casa, o abandono. Uma agonia dos infernos.

A violência do estado. Das instituições. A violência de nós todos, o menino acorrentado. Adorei a cena do personagem de Fabio Vidal pendurado por uma perna numa árvore. Adorei. (E tudo isso dentro da nossa cabeça)

A cena de Bertrand com a água e deixando explodir a sua angústia. Bonita. Bertrand com poucos palavras constrói um homem atormentado com muita sinceridade. As cenas da roda de história embaixo da árvore, lindas. Ator grande, Luiz Pepeu. Pessoas lindas em volta do contador de histórias.

A redenção através da ligação com a natureza. Cobrir-se de lama, comer calango, subir aos céus. É delicioso desfrutar da minha língua na tela, ouvir o baianês, que delícia…ouvir baianês, entender de coração – seja cristão ou não, tome no coração.

A sabedoria da personagem feminina mais velha. São tantas coisas… Sensacional o personagem Pra frente Brasil, assim como o ator que o interpreta, Ramon Vane, sensacional. Pra frente Brasil é a puta que pariu! Edgard é bicho certeiro.

O personagem de Harildo Deda em pouquíssimos minutos, deixa tudo às claras. Branco, turista americano, apresenta sua mulher negra e seu filho. Mulher que permanece calada. E nos dá uma facada quando oferece a Pentecostal.

Aquilo tudo também é meu, a loucura é minha, os fantasmas, a negritude, o feminino, o abuso masculino, ‘o que não tem governo nem nunca terá’, a perseguição da moral Católica, a opressão do estado, a importância das palavras e tudo tudo, é tudo meu.

O escritor pernambucano Marcelino diz que escreve pra se vingar. Agora tenho dois mestres para aprender a me vingar: Edgard Navarro e Marcelino Freire.

Uma resposta to “E por falar em sertão”

  1. Bertrand Says:

    Lindo texto Martha!!!


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