O Sertão no mundo

11/05/2012

Por Josias Pires

Pontos, redes, culturas e meios de comunicação

No âmbito do evento Celebração das Culturas dos Sertões, realizado esta semana (5 a 9/05), em Salvador e Feira de Santana, pela secretaria de Cultura da Bahia foram incluídas quatro Rodas de Conversas. Convidado a participar de uma delas por Claudia Vasconcelos – dado o trabalho que realizei na TV com a série Bahia Singular e Plural

– tive a felicidade de compartilhar uma tarde rica com um grupo bastante produtivo, criativo e estimulante.

Com o nome de O Sertão no mundo, esta roda, coordenada pela professora da Uneb Gislene Moreira, debateu aspectos e experiências dos sertões articulados em redes; os sertões e os meios de comunicação; e o cinema no Sertão: desafios da inclusão sociodigital, quando tratamos de vários aspectos, tendo em vista a centralidade da imagem – do audiovisual, sobretudo – na vida contemporânea.

Rede de rádios comunitárias

O radialista de Santa Luz, cidade da região sisaleira, Edisvânio Nascimento relatou a experiência de comunicação comunitária na região envolvendo 17 municípios e 16 emissoras de rádio. Vinculadas aos interesses de pequenos agricultores, de trabalhadores rurais e outros segmentos populares da região, as rádios comunitária enfrentam, de modo destemido, a ação repressiva da polícia e do governo que, ao invés de efetivar a regulamentação das emissoras, buscam calar as vozes de pessoas e grupos sociais que denunciam os descalabros locais.

As emissoras comunitárias surgiram na região na segunda metade da década de 1990, para dar vazão às denúncias de mutilações de crianças, trazendo o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) para as roças de sisal e pedreiras da região, nas quais crianças menores de dez anos faziam trabalhos de adultos. Com o apoio do governo federal, do Unicef e do Movimento de Organização Comunitária (MOC), de Feira de Santana, os sindicatos de trabalhadores e outros associações locais criaram essas rádios para superar a censura que sofriam nas emissoras comerciais daqueles municípios.

O radialista conta que os sindicatos pagavam a esses veículos para divulgar assuntos de interesse dos trabalhadores, porém as rádios recusavam a divulgar as denúncias graves dado as suas ligações com os poderes econômicos e políticos locais; além disso era preciso informar sobre os direitos individuais e coletivos dos atingidos. A saída foi criar uma comunicação alternativa.

“As rádios comunitárias são da comunidade, com a comunidade e para a comunidade”, destacou Edisvânio, atualizando com propriedade um jargão dos movimentos populares de cultura do começo da década de 1960, feitos por estudantes universitários que prometiam conscientizar o povo para fazer a revolução brasileira, abortada pelo golpe civil-militar de 1964.

Infelizmente o poder central, apesar do fim da ditadura, ainda está distante de compreender positivamente esta comunicação comunitária. Graças às influências dos donos da mídia no Brasil, a legislação de rádios comunitárias foi criada com o objetivo maior de dificultar a implantação das emissoras do que buscar, de fato, a regulamentação.

“Há rádios que passaram dez anos aguardando a outorga, tentando fugir da polícia federal, locutores circulando em camburão da PF porque a radio denuncia os problemas do município; e os denunciados recorrem à Anatel e à PF para lacrar e apreender os equipamentos e promover agressões físicas e tortura psicológica”, denunciou Edisvânio.

O impacto sócio cultural dessas emissoras é enorme – elas divulgam, debatem e valorizam as culturas locais elevando a auto-estima dos seus praticantes. Tal repercussão deve-se ao fato de que, desde o início, grupos de habitantes da região fizeram oficinas de qualificação profissional para operar os equipamentos; e para aprender a fazer rádio; encontrar a melhor emissão vocal, etc., a fim de que o trabalho seja feito com um olhar e perspectivas mais adequadas e eficazes.

A experiência vai além, contudo, da criação de emissoras locais com essas características – eles criaram uma associação que congrega as emissoras comunitárias da região e através desta rede norteiam e articulam todo o trabalho. O radialista de Santa Luz comenta ainda que a constituição da Abraco e a criação dos territórios de identidade levaram a que eles percebessem a necessidade de aumentar ainda mais a qualificação das pessoas que operam as emissoras. A UNEB criou um curso de rádio e televisão em Conceição do Coité e muitos dos radialistas estão agora recebendo formação universitária.

Formação, produção e difusão audiovisual

A imagem fotográfica parada ou em movimento vista como definidora de novos comportamentos e capaz de forjar novas identidades ao lado de novas possibilidades de representação dos sertões foram temas que entraram na roda.

O cineasta Marcelo Rabelo pontuou com precisão o descompasso ou o paradoxo que há entre a disponibilidade atual da tecnologia audiovisual – câmeras digitais, câmeras fotográficas e celulares que filmam – e a capacitação técnica precária que se observa entre as pessoas que operam essas câmeras ou mesmo os computadores disponibilizados pelos centros digitais implantados pelos governos. Rabelo lembrou que o “analfabetismo digital” não termina com o acesso ao equipamento.

“Sem a capacitação é quase impossível produzir material de qualidade”, alerta.

A sua observação realça o fato de que a qualidade do produto audiovisual é condição sine qua non para a sua mais ampla difusão. Como difundir nas tevês, nas salas de cinema, nas escolas, cineclubes, universidades ou mesmo ter alta visibilidade na Internet? Isto só ocorrerá se houver o domínio técnico das máquinas e o domínio estético da linguagem dos meios utilizados. Ou seja, a inclusão digital real passa pela educação, pela formação, lembra Rabelo.

Rabelo afirma também que a função do estado e das universidades é capacitarem as pessoas, funcionarem como centros difusores do conhecimento. Contudo, denuncia, o programa Cultura Viva, apesar de fornecer os equipamentos para os grupos culturais do interior não oferece a indispensável qualificação para o uso adequado desses recursos técnicos.

“Tenho visto muitos equipamentos parados, sobretudo as filmadoras digitais; e quando conseguem usar a câmera é sempre no automático, gerando trabalhos deficientes”, comentou.

O cineasta desenvolve há 15 anos o projeto Sons de Canudos, na zona rural de Canudos Velha e de lá espraiando-se os contatos entre os homens do campo e dos pequenos núcleos urbanos da região. O projeto já produziu quase duas dezenas de CDs e DVDs, alguns deles com tiragens de 3 mil cópias esgotadas. Sons de Canudos recebeu o prêmio Rodrigo Mello Francco de Andrade em 2010.

Marcelo Rabelo listou experiências exitosas, que souberam aliar formação, produção e difusão: a experiência Índios On Line, que interliga aldeias indígenas nordestinas através da gravação de CDs e realização de filmes, envolvendo a comunidade no processo de produção;

Uma escola pública do Piauí que ganhou o premio Cultura Viva 2007/2008 pelo trabalho dos professores, que estimulam os alunos a registrarem em DVD manifestações culturais de Terezina. O trabalho extrapolou a escola e está sendo usado pela rede pública estadual do Piauí naquela região.

Citou também experiências com cineclubes, como a Associação Filme de Quintal em Belo Horizonte, que promove sessões de cinema comentadas, com a presença do diretor para debater o trabalho com o público, realizando verdadeiras sessões formativas.

E, por fim, o projeto Vídeo nas Aldeias, que começou com a intensa qualificação dos índios para operarem os equipamentos e construírem roteiros de gravação e montagem/edição. A produção já levou a trabalhos premiados e replicados em DVD distribuídos amplamente.


Formação, produção, difusão audiovisual em Vitória da Conquista

O professor de cinema da Universidade Estadual do Sudoeste Baiano (UESB) Rogério Luiz Silva apresentou análise do lugar de Vitória da Conquista no campo do cinema, tomando, nas suas palavras, duas personalidades da cidade vinculadas ao fazer artístico que representam bem o fazer cinema, que são as figuras de Elomar e Glauber Rocha, este referido como um dos “mitos fundadores da nossa tradição cinematográfica”.

Ambas as trajetórias, lembra o professor, são permeadas pela inquietação diante da situação do retirante. Elomar Figueira Melo traz no seu cancioneiro muitos elementos de preocupação com o fato de vivermos no estado do Sertão e a nossa capital não é Salvador. Nossa capital para Elomar é São Paulo. Ele não se sente baiano, sente-se sertanejo, vivente de uma região cuja capital é São Paulo.

Ambos precisam conceber processos no sentido da retirância, ou seja, sentem-se insatisfeitos de ficar naquele único lugar, pois isto não é suficiente. Mesmo Elomar que volta para sua terra vai cantar a sua aldeia recriando-a.

Glauber serve como centelha disparadora, comenta o professor, desse gosto pelo cinema em Vitória da Conquista. Há 20 anos por conta da obra do Glauber foi criado na cidade um cineclube, que exibe filmes não simplesmente pela exibição, mas sempre associando a exibição com o comentário – é o programa Janela Indiscreta, cujo slogan é Para Ver, Ouvir e Falar de Cinema. Por que Glauber é o ponto de ligação. Aquele gesto clássico do Glauber, aquelas fotos que a gente vê…

Afinado com as assertivas de Rabelo, o professor disse que no contexto local perceberam que é possível fazer a formação pela fruição, ou seja, aprender a fazer cinema vendo cinema. Mas claro “é preciso de fato meter a mão na massa, saber como funciona o diafragma, o obturador, o que significa as questões técnicas todas que dizem respeito ao processo cinematográfico”, comenta.

Ele mesmo formou-se no programa Janela Indiscreta, habitou seu imaginário jovem com o cinema em Vitória da Conquista e acompanhou o desenrolar da concentração de energia tamanha que viabilizou a criação do curso de cinema e audiovisual na UESB.

Diz o professor que dois anos depois de criado o curso de cinema e audiovisual eles perceberam as brechas do mundo acadêmico. “A universidade tem a pretensão de atuar no tripé ensino, pesquisa, extensão, que acaba evidentemente manco. Há necessidade de fato de preocupar-se com outro tripé, que é a formação, a produção e a difusão audiovisual”, explicou.

9 Respostas to “O Sertão no mundo”

  1. Katharina Doring Says:

    Muito bom texto, Josias ! divulgarei !

  2. Suzana Says:

    Bacana a cobertura, Josias. Uma contribuição para romper a invisibilidade de alguns acontecimentos e alargar a nossa visão. Obrigada. Suzana

  3. Alba Regina Says:

    Bacana sua presença marcante lá na “Celebração”Josias. Comparecemos com nosso “Ritos de Passagem”que, pelos comentários foi bem recebido. Elomar ficou encantado ao ve-lo, o que entra no currículo do filme. Um abraço pela matéria a respeito da mesa em que vc. participu. Alba Liberato


  4. Valeu Josias, conseguiste sintetizar bem a conversa saudável e construtiva, pena a pouca atenção dada…
    até quando, salvem os independentes.
    abraços!

  5. Vanda Machado Says:

    Carissimo Josias vc será sempre uma referencia significativa para compreensão das nossas manifestaçoes culturais como construção da cidadania do povo, seja do mais simples ao mais letrado

  6. Cláudia Vasconcelos Says:

    Josias, que maravilha de registro. Queria que tivéssemos um Josias em cada Roda de Conversa, pois as discussões foram riquíssimas em cada uma delas e não dei conta de registrar… Pretendo continuar essa prosa em outros momentos e espaços…

  7. Lila Silva Says:

    Excelente texto, Josias !!

  8. caracol Says:

    muitos aplausos pra tais iniciativas,precisamos acordar pra atraves da educaçao poder mostrar o lado correto pro nosso irmao!precisamos crescer, so a educaçao faz isso!!!!!!!

  9. Tony Teófilo Says:

    A grande estiagem do momento (no sertão) também nos revela modos e alternativas de convivência e, consequêntemente, retratos destes sertões que possui tristeza e beleza, em contextos distintos. A radiodifusão e o audiovisual também dispõem de recursos para transmitir estas fotografias capazes de moldar o imaginário coletivo de uma complexidade estética d’Os Sertões. Parabéns Josias!


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