O Nirvana da arquibancada

15/05/2012

 

Por Nilson Galvão

Depois de duas noites de sono já dá pra ter algum distanciamento crítico. Pensar naquela zorra toda com a serenidade possível – se existe chance de serenidade quando se trata de futebol. Vi o Brasil ser campeão duas vezes, o Bahia conquistar o campeonato brasileiro pela segunda vez. Mas domingo tinha algo no ar, um jejum de títulos por uma década inteira, e meu filho de 12 sem nunca ter  experimentado essa emoção básica: a de gritar, a plenos pulmões, pela glória do troféu arrebatado. Então foi bacana cantarmos junto com a multidão: “ôôôôô, o campeão voltooooooou”…


Não, eu não sou esse torcedor todo. Aliás um amigo no Facebook lembrou bem, minhas relações com o Bahia só se restabeleceram depois de ver o meu filho escolher por conta própria o time da minha infância, quando fui arregimentado por um fanático Tio Vavá pra zoar sem tréguas um primo acometido daquela síndrome de vice… enfim, tinha crescido e me afastado dessas querelas futebolísticas, mas a vida tem seus mistérios e o fato de o futebol ser uma caixinha de surpresas é, sim, um desafio sério à nossa vã filosofia.

Senão vejamos. Como o gato da experiência científica, encerrado numa caixa e submetido a sabe-se lá a quantidade de descargas radioativas, naquele Bavi estávamos à espreita de chances matematicamente iguais, 50-50: o campeonato e a glória, o vice-campeonato e a perdição. Gol do Vitória com o jogo mal começado: a agulha aponta o precipício. Empate: voltamos! Gol do Bahia vira o jogo: Nirvana à vista!

Mas é cedo. Ainda virá o segundo tempo, a caixa segue lacrada, e o gato, coitado, lá, ninguém sabe se morreu, se viveu, se morreu, se viveu… Souza acerta a bola na trave, Caio vai à loucura, os malucos perto da gente vão à loucura: quase, Nirvana, quase! Mas aí o Dramaturgo decide tornar as coisas mais emocionantes e tira dois gols da cartola do vice: coisa de deus ex-machina, claro, só um artifício vindo de fora da cena pra explicar como apareceram esses gols prum time destinado, desde o início dos tempos, a sair dali sem a taça.

E por falar em teatro grego: o terceiro gol foi demais pra Helena, amiga de Caio. Ela se desespera. Então o Dramaturgo coloca em cena o pai, Nino, voz pausada e firme no meio da balbúrdia: “aprenda a torcer”. A voz do destino, sem dúvida. Também faço as vezes de ator (melo) dramático: falta na entrada da área, vejo Caio ali, perplexo também. Abraço meu filho com força e digo, convicto: “vai ser gol”. E é gol. O maluco na frente me olha e me cumprimenta como se eu fosse uma espécie de bruxo. Vibração. Sinais inequívocos de Nirvana se aproximando, mas quem se atreveria a comemorar antes da hora?

Respeito solene à primazia dos fados, claro. A etapa final da partida transcorre num suspense absurdo. 3 a 3, um empate: o suficiente para sairmos dali flutuando, felizes. Mas um gol, um acidente qualquer, uma piada de mau gosto daquele Dramaturgo pirracento, e a história seria bem outra. Ficamos preocupados, seriamente, com um senhor da cadeira de trás, agoniado o tempo todo, com o rapaz a seu lado a perguntar se tomou o remédio pro coração…

Não me lembro de outra partida tão dramática, pra ficar no clichê. Talvez os pênaltis da final contra a Itália em 94… mas estava em Lençóis, assistindo pela tevê, a milhares de quilômetros de onde a peça se desenrolava, ao vivo. Muito melhor ali no meio da galera, com o campeonato selado enfim e os meninos felizes, e todo mundo feliz em volta – com exceção, claro, da torcida do vice.

Como bom chato me lembrei da selvageria potencial de toda massa humana inspirada por um sentimento assim de comunhão sob a mesma bandeira. Mas isso foi rápido, voltei pra sintonia: a felicidade, afinal, é transitória. E é preciso saboreá-la antes de correr de novo atrás dela, nas próximas partidas…

2 Respostas to “O Nirvana da arquibancada”

  1. Roberto Szabo Says:

    NILSON, O GATO VIVEU!!!!!! BBMP!!!!!!!

  2. Nilson Says:

    O TRICOLOR, PORQUE O DO VITÓRIA DANÇOU, ROBERTO!!! BBMP!!!!!!


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