Jornalistas protestam contra abusos de programas policiais da televisão

22/05/2012

Por Josias Pires

Circulou hoje na internet diversos textos, comentários e compartilhamentos de um vídeo com a “reportagem” de uma jornalista da Band Bahia que humilha no ar, durante alguns minutos, um jovem negro tido como ladrão e estuprador. Antes que a Justiça e demais instâncias do Estado julguem e condenem o sujeito, a emissora de tevê, o programa jornalístico e a repórter decidem explorar a miséria daquele sujeito infeliz. Aqui: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=F6VCbJHtzdc

Por que não fazer uma reportagem, de fato, sobre o caso? Há bons exemplos. Lembro-me agora do filme documentário Ônibus 174, tá tudo lá. Merecemos reportagens dignas sobre aspectos diversos da vida urbana. Apurar mais sobre os personagens envolvidos nos fatos, levantar as provas se for capaz e apresentar honestamente aos telespectadores, contribuindo com a sociedade, colaborando para o aperfeiçoamento das relações interpessoais.

Escrevi no Facebook que escuto com frequência o programa de Uziel Bueno das 7h da manhã. Naquela hora estou dirigindo, retornando da escola dos filhos. Aprecio bastante. Para mim é o melhor programa jornalístico do horário, disto não tenho a menor dúvida. Evilásio Júnior é um repórter que respeito, sério, sabe fazer bem o trabalho dele. Assim como Uziel, o Léo Bala, Tudo ok. Por isto me sinto à vontade para protestar neste caso infeliz da TV Band que caiu na internet, que foi onde vi pois ainda não tive a oportunidade de ver o programa dele na tevê.

As emissoras de tevê precisam mudar o tom deste tipo de cobertura.

A nossa inteligência exige respeito, qualidade, capacidade de fazer o bem, o bom, o justo da melhor forma possível. Temos que exigir isto. É a nossa obrigação. A escritora Clarice Lispectos dizia que os brasileiros exigem pouco das autoridades, dos que têm poder, toleram demais o mal feito. Esta herança não nos interessa. Queremos coisas muito melhores e temos que aprender a fazer essas coisas diferentes e melhores agora.

Leia abaixo a “Carta aberta de jornalistas sobre abusos de programas policialescos na Bahia” que está circulando como petição digital na Internet e que expressa a insatisfação de centenas de jornalistas com o que vimos hoje. Evidentemente que as imagens dos crimes e horrores são muito mais terríveis – mas a nossa disputa deve se dar em torno de outros signos e valores. A Carta Aberta de jornalistas sobre abusos de programas policialescos na Bahia é dirigida ao governador Jaques Wagner, ao Ministério Público e toda a sociedade.

A Carta:
“O demo a viver se exponha, / Por mais que a fama a exalta, / Numa cidade onde falta / Verdade, honra, vergonha.” (Gregório de Mattos e Guerra)
A reportagem “Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência”, produzida pelo programa “Brasil Urgente Bahia” e reprisada nacionalmente na emissora Band, provoca a indignação dos jornalistas abaixo-assinados e motiva questionamentos sobre a conivência do Estado com repórteres antiéticos, que têm livre acesso a delegacias para violentar os direitos individuais dos presos, quando não transmitem (com truculência e sensacionalismo) as ações policiais em bairros populares da região metropolitana de Salvador.
A reportagem de Mirella Cunha, no interior da 12ª Delegacia de Itapoã, e os comentários do apresentador Uziel Bueno, no estúdio da Band, afrontam o artigo 5º da Constituição Federal: “É assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral”. E não faz mal reafirmar que a República Federativa do Brasil tem entre seus fundamentos “a dignidade da pessoa humana”. Apesar do clima de barbárie num conjunto apodrecido de programas policialescos, na Bahia e no Brasil, os direitos constitucionais são aplicáveis, inclusive aos suspeitos de crimes tipificados pelo Código Penal.
Sob a custódia do Estado, acusados de crimes são jogados à sanha de jornalistas ou pseudojornalistas de microfone à mão, em escandalosa parceria com agentes policiais, que permitem interrogatórios ilegais e autoritários, como o de que foi vítima o acusado de estupro Paulo Sérgio, escarnecido por não saber o que é um exame de próstata, o que deveria envergonhar mais profundamente o Estado e a própria mídia, as peças essenciais para a educação do povo brasileiro.

Deve-se lembrar também que pelo artigo 6º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, “é dever do jornalista: opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos”. O direito à liberdade de expressão não se sobrepõe ao direito que qualquer cidadão tem de não ser execrado na TV, ainda que seja suspeito de ter cometido um crime.
O jornalista não pode submeter o entrevistado à humilhação pública, sob a justificativa de que o público aprecia esse tipo de espetáculo ou de que o crime supostamente cometido pelo preso o faça merecedor de enxovalhos. O preso tem direito também de querer falar com jornalistas, se esta for sua vontade. Cabe apenas ao jornalista inquirir. Não cabem pré-julgamentos, chacotas e ostentação lamentável de um suposto saber superior, nem acusações feitas aos gritos.

É importante ressaltar que a responsabilidade dos abusos não é apenas dos repórteres, mas também dos produtores do programa, da direção da emissora e de seus anunciantes – e nesta última categoria se encontra o governo do Estado que, desta maneira, se torna patrocinador das arbitrariedades praticadas nestes programas. O governo do Estado precisa se manifestar para pôr fim às arbitrariedades; e punir seus agentes que não respeitam a integridade dos presos.

Pedimos ainda uma ação do Ministério Público da Bahia, que fez diversos Termos de Ajustamento de Conduta para diminuir as arbitrariedades dos programas popularescos, mas, hoje, silencia sobre os constantes abusos cometidos contra presos e moradores das periferias da capital baiana.

Há uma evidente vinculação entre esses programas e o campo político, com muitos dos apresentadores buscando, posteriormente, uma carreira pública, sendo portanto uma ferramenta de exploração popular com claros fins político-eleitorais.

Cabe, por fim, à Defensoria Pública, acompanhar de perto o caso de Paulo Sérgio, previamente julgado por parcela da mídia como “estuprador”, e certificar-se da sua integridade física. A integridade moral já está arranhada.
Salvador, 22 de maio de 2012.

http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2012N24982

3 Respostas to “Jornalistas protestam contra abusos de programas policiais da televisão”

  1. blag Says:

    Pau neles!

  2. gabriel Says:

    paranbéns pela forma diferente de pensar !!

  3. Cristiana Lopes Says:

    Que bom que estamos acordando para um problema que já se instalou como aceitável há pelo menos três anos em nossa cidade!


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